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terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

NADA


Hoje é o dia das meias palavras, dos meios sorrisos, é o dia do vazio e da dúvida eterna.
Hoje conspurcado com o meu egoísmo dou-me ao luxo de esquecer que existo. Será impressão minha ou os dias tornam-se mais escuros?
Inércia amorfa arrasta os meus dedos pelo teclado, exposto à vontade do nada, faço-me nada para nada ser.
E quem quiser que me ouça, das minhas palavras não faço mais que rasuras numa folha branca deixada à chuva num dia de Outono, é o dia das incertezas, da corrupta revolta interior.
Hoje é o dia do silêncio, aquele silêncio maior que o destino, aquele silêncio que mais ensurdecedor que o maior dos gritos.
Abraço-me no vazio.
Faço-me meio, para me adaptar aos meios tudos que formam o todo do meu nada.

Bruno:Carvalho
2010

Foto por: Daniel Pimenta

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

CEGO


Quem és tu que apareces sorrateiramente nos meus sonhos, que entras no meu corpo e o arrastas para um sono agitado?
Quem és tu que vens de mansinho e sussuras levemente ao meu ouvido, que aspalhas escuridão onde outrora houve sol?
Quem és tu que me roubas os sonhos e a vontade de voar, quem és tu que desferes estes golpes que inundam a minha alma?
No auge da minha insónia julgo ver-te numa visão esborratada, misto de realidade e de delírio inconsciente, frágil recolho-me dentro de mim, onde é mais seguro, onde é mais sereno.
A paz é breve porém, quando destemida estilhaças as minhas janelas interiores, impotentente assisto a tomares conta de novo de mim, mais um pesadelo, mais uma hora sombria...
Quem és tu? Porque não te mostras à luz? Porque não assumes a tua bestialidade e me enfrentas olhos nos olhos?
Na frieza da noite luto contra uma ameaça invisível, identidade cuja única prova é um reflexo num espelho na escuridão cerrada de um quarto vazio.
Afasta-te de mim déspota!
Amor cruel disfarçado de paixão com mãos de veludo e toques de excitação!
Afaste-te de mim esperança infiel, deixa-me ver finalmente a pureza da verdade!

Bruno:Carvalho
2010


Cegueira Bendita

Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho...

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"


Foto por: JRenato

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

BURN

IN FLAMES
"Alias"
The serpent knows,
When the curtain falls,
With denials blindfold,
He greets another day
Don't believe the mask
It adapts to any lie,
A perfect ten,
When reality caves in
Don't tell me,
Tell my ghost,
'cause I blame him
For all I don't want to know
I found secrets about life's undertow
Life's wrapped in a riddle,
Easier said than done,
Way to play the victim,
Rather run and hide.
Let them take me far away
Crawl back in place,
It's easier to cope behind the curtain,
Wipe the worries away
No thought about the consequence
Let them take me far away


Let it all burn into ashes

SACRIFÍCIO


Amar não é uma coisa fácil, não é algo que possamos fazer muitas vezes, para isso temos a paixão uma forma de amor bastante mais leve e sem perigo de muitas feridas.
Amar, portanto, exige sacrifícios, sacrifícios esses que são respostas aos nossos medos e receios, à nossa falta de confiança em nos entregarmos a esse sentimento.
Não ter a certeza dele não é sinal que não os estejamos a sentir, é, mais uma vez, o medo a ganhar terreno e quando ele ganha a dor aparece.
Por vezes, não raramente, apercebemos-nos da nossa própria mortalidade, tomamos consciência que uma vida finda de um minuto para o outro, tomamos a árdua consciência que é uma viagem sem regresso, vem o nada, o esquecimento, vazio de sentimentos, vazio de alegria.
Por isso nesses momentos percebemos o quão é importante fazer sacrifícios quando o amor nos toca tão fundo, é urgente rasgar o medo e o medo tem muitos aliados, medo de ser longe, medo de ser muito alto, medo de ser muito complicado, medo de sofrer de novo, medo de dizer adeus. A dúvida instala-se em nós e em vez de agarrarmos a felicidade que se mostra ali mesmo frente aos nossos olhos, viramos as costas firmes na certeza que frente a esses mesmos olhos só vemos o vazio, mas não é o vazio que vemos é o medo a rir-se na nossa cara.
Podia falar nos muitos sacrifícios que estamos dispostos a fazer por quem amamos, mas isso a cada um pertence, mas a nossa mais saborosa vitória é saber que ao fazê-lo estamos a vencer o medo, estamos a ser fortes e verdadeiros. A recompensa bem sob a forma de um beijo, um sorriso, uma carícia ou simplesmente uma palavra suspirada por uns lábios que aprendemos a saborear ou através de um olhar que ilumina um rosto que aprendemos a reconhecer.
Pudéssemos ser todos bravos guerreiros nesta luta interminável e o mundo seria bem melhor.

Bruno:Carvalho
2010


"A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, assim como o vento apaga as velas, mas atiça as fogueiras."

(Autor Anónimo)


terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

REQUIEM

VALSA


Sentiu-se a correr no fio da espada, como gostava ele de correr no limite, à espera de vir o vento que o orientasse para um ou outro lado do fio.
Estudava atentamente a anatomia de um adeus quando percebeu que não fazia sentido estudar algo tão estranho e sem sentido, sentia por vezes que este tinha uma melodia, mas decerto seria só ecos da sua fantasiosa imaginação.
Imaginava-a todas as noites e isso nunca escondia, sonhava, podia dizer mesmo que sonhava, sonhava com os seus lábios colados nos dela como se o amor se tivesse feito cola, sonhava com as suas mãos no corpo dela como se a paixão fosse navio a navegar em águas revoltosas, sonhava com o seu olhar como se a esperança fosse mesmo de cor verde, naquele caso porém ela parecia-lhe castanha.
Sonhava, imaginava, fantasiava, alguém o poderia condenar por isso?
Como se fosse preciso pagar para isso, como se fosse um pecado medonho ansiar o corpo dela junto ao seu, o bater do coração dela na palma da sua mão nervosa.
Era um sonhador portanto, vivia naquele limiar entre o filme romântico e a tragédia grega, entre a vivacidade de Vivaldi e a melancolia de Bach, vivia entre o choro e ao mesmo tempo entre o riso. Alimentava-se de esperança embora fosse essa mesma esperança que o teimava em derrubar, dia após dia, noite após noite.
Fazia amor com a ilusão dela, na cama vazia, nos lençóis revoltosos tão cuidadosamente perfumados, acendia as velas, desfolhava rosas, fazia tudo isso porque precisava, por precisava acreditar que estava vivo. Dançava a valsa abraçado ao seu corpo moribundo.
Debaixo do chuveiro frio, reflectia para que lado do fio cair agora, permitia-se sangrar pois a dor que lhe queimava a pele sobrepunha-se à dor que lhe incendiava a alma.
Chamar-lhe-ão fraco, mas como poderá ser assim tão fraco quando está disposto a sacrificar a alma por um amor que lhe roubaram logo à nascença?
Um beijo, um beijo apenas para florir mais um sorriso e afastar de vez a melodia triste de um adeus prometido.

Bruno:Carvalho
2010

Foto por: Filipe Gil

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

"O PRÍNCIPE CORVO"


"Há uma coisa que sempre quis fazer com uma mulher. - a voz dele soava aveludada.

Que queria dizer? Assustada, ela resistiu. Quereria ele fazer aquilo? Nessa manhã, fora diferente, já que estava meio a dormir. Agora, estava completamente desperta.
- Não é uma coisa que um homem possa fazer com uma prostituta - disse ele.
Oh. Deus, será que ela podia fazer isto? Expor-se tão intimamente? Esticou o pescoço para olhar para o rosto dele.
O seu olhar mostrava-se implacável. Edward queria aquilo.
- Deixe-me, por favor.
Corando, Anna deitou-se, rendendo-se a ele e à sua vontade. Deixou que os joelhos se afastassem, sentindo como se estivesse a oferecer-lhe uma prenda de amor. Ele observou as pernas dela a abrirem-se mais e mais, até se ver ajoelhado entre as suas coxas afastadas, com os seus lugares mais íntimos agora expostos. Anna fechou bem os olhos, incapaz de o ver a observá-la.
Edward não fez mais nada e, por fim, ela já não suportava esperar mais. Abriu os olhos. Ele fitava o mais feminino dos órgãos dela, de narinas dilatadas, a boca comprimida numa expressão tão possessiva que até assustava.
Anna sentiu a sua abertura a contrair-se, em reacção. De dentro dela, escorria um fluído.
- Preciso de si - suspirou ela.
Então, ele assustou-a verdadeiramente, mergulhando a língua na sua vagina molhada.
- Oh!
Olhou para a cara dela e lambeu-lhe lentamente os lábios da vulva.
- Quero saboreá-la e chupá-la até se esquecer do seu nome - sorria carnalmente - Até me esquecer do meu próprio nome.
Anna arqueou-se e expirou mal ouviu aquelas palavras, mas as mãos dele estavam agora nas suas ancas, segurando-a. A língua dele perscrutava as dobras da sua feminilidade, cada golpe de língua a aitingi-la mais intimamente. Encontrou o clítoris e lambeu.
E ela perdeu a cabeça. Um longo e gutural gemido desprendeu-se da sua boca. Com os punhos, Anna retorceu a almofada, de cada lado da sua cabeça. As suas ancas subiram. Mas ele não se deixaria afastar do seu objectivo. Edward passou a língua continuadamente pela sua saliência até ela se sentir em êxtase e, despudoradamente, pressionar a pélvis contra o rosto dele.
- Edward! - Aquele nome invocava-se nela à medida que uma vaga de calor lhe invadia o corpo, expandindo-se até aos dedos dos pés.
Ele pôs-se em cima dela, invadindo-a com o seu pénis, antes de ela ter tido tempo de abrir os olhos. Anna tremia e agarrava-o, enquanto ele investia contra a sua carne ultrasensível. E sentiu a vaga crescer, transportando-a nos seus movimentos. As suas coxas vibravam irresistivelmente abertas e ela esfregava a sua pélvis contra a erecção dele. Edward respondeu metendo os braços por baixo dos joelhos dela e empurrando-lhe as pernas para junto dos ombros. Estava tão aberta quanto possível, exposta e dominada, à medida que ele a amava. À medida que recebia tudo o que ele tinha para lhe dar.
- Deus! - O som rebentou nos lábios dele, mais gutural do que propriamente verbal. O seu enorme corpo tremia inapelavelmente, endurecendo-se contra ela.
A visão de Anna dividia-se em pequenos arco-íris, enquanto ele arremetia continuamente a sua enérgica carne na pele sensível. Ela arfava. Queria que aquele momento jamais terminasse, agora estavam ligados, de corpo e alma."


Elizabeth Hoyt in "O Príncipe Corvo"

domingo, 31 de Janeiro de 2010

MEDO

Às vezes sentimos que nos falta um bocado, felizmente percebemos que esse bocado nunca é aquele que nos é essencial para viver.
Que culpa temos que a cegueira atinja a maioria da Humanidade?
Somos dirigidos pelo medo, de que nos queixamos?
è sempre longe demais, alto demais, gordo demais, magro demais, melancólico de mais... As pessoas não são luvas raramente encaixam em nós na perfeição...
Porque é que temos tanto medo de dizer o que sentimos?
Porque não simplesmente libertar a verdade que tantas vezes morre na nossa garganta, porra, a vida são dois minutos e passamos um minuto inteiro a escondermos-nos atrás de receios e mentiras.
Bruno:Carvalho

sábado, 30 de Janeiro de 2010

DELÍRIO


Que bela musa que por aqui passa. Lambuza-me todo como de mel fosse feita. O meu coração pára como se andasse muito acelerado, não anda, mas imaginemos que sim, pois de imaginação somos feitos por isso dela podemos viver.
Ela olha mas não vê, incoerente nos seus passos faz-se Dulcineia como se eu de facto fosse D. Quixote (uma coisa é certa porém, posso ser confundido, pois também eu luto contra moinhos de vento)...
Então Dulcineia chegou cheia de ares de domingo de manhã, aroma a lavanda, sorriso de amoras e vestida de sol, uma manhã gloriosa, poderia um homem simples querer mais?
Eu porém para ali não estava virado, sempre fui feito de melancolia por isso para a noite sempre estive mais virado, perguntei se poderia trocar o sol pela lua, mas Dulcineia convicta como era, recusou, disse que a noite era demasiado fria, já o dia a enchia de calor ardente.
Compreendi o seu ardor, porém desconfio que o seu motivo de tanta ardente paixão seja outro menos pudico, porém lá está, que sei eu? uma vil criatura da noite sem poiso para largar alegorias.
Na beleza Dulcineia nada ficava a dever às novas deusas veneradas pelos devotos fieis actuais, aquelas que vêm escarrapachadas em pedaços de papel mais ou menos coloridos ou então naquelas caixas de flashes brilhantes que nos arrepiam os olhos, os meus de pobre poeta começam já a não tolerar tais devaneios caleidoscópicos.
Pensei então, que Dulcineia era deusa e fi-la musa minha, como se ela pudesse pertencer a alguém, com os meus olhos habituados à escuridão notei que a sua passagem arrastava um manto de estrelas, fiquei arrasado, arrebatado pelo seu amplo sorriso...
Ri-me desvairado, só a minha longa solidão a minha ausência de companhia mesmo a minha podia justificar tais desvarios, tais delírios emocionais, o corvo sem asas da vizinha já crocita como se rindo da minha hipotética sanidade.
Mas voltemos à minha doce Dulcineia, a musa de ocasião, belo negócio esse nunca imaginado, uma bolsa de musas para gente desinspirada ou aspirantes a Pessoa, no entanto a conjectura económica a nada disso ajuda, até infelizmente a inspiração não escapa à crise...
Porque se escapasse nada justificaria este cinzentismo tão desconfortável, aquele mesmo que por vezes aplaudo de pé, como se fosse uma honra pertencer a qualquer coisa, por mais merdosa que seja, enfim, perdoem-me os meus leitores menores pela minha linguagem menos adequada, os anos já pesam no discernimento...
Guardei a Dulcineia no bolso, tinha-me esquecido, por isso a súbita excitação dos últimos dias, por isso o ardor no fundo da barriga, não era só inspiração à solta, era algo mais carnal.
Enfim finalmente senti algo menos platónico pois isto de filosofar a torto e a direito já não traz grandes resultados, todos actualmente já temos um pouco de Platão, de Pessoa, de Maquiavel e de Jesus, porém o que nós em particular amantes Byronianos ainda somos mais marcadamente é Ícaros desvairados repetidamente indo contra um sol que há muito desapareceu, e por mais asas que queimemos, mais ossos que partamos ou quedas que damos, continuamos a tentar como se de sanidade tivéssemos sido privados.
Enfim agora somos polivalentes como o mundo de competição actual nos impele a ser. Deixámos de nos distinguir, para passarmos a ser uma mole repetidamente e infelizmente chata.
Pois eu ficarei aqui por mais uns tempos a observar a minha impotência, a tentar acreditar que ela é de facto fruto de factos externos, porém um dia as correntes que me ligam ao marasmo iram rebentar e depois demente me chamarão, quando mergulhar em sangue novo para renascer outra vez.

Bruno:Carvalho
2010