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Quinta-feira, 1 de Março de 2012

INÍCIOS E FINS

O teorema da vida implica que tudo que tenha um início tenha consequentemente um fim. Automaticamente, sem qualquer poder de interferência.
E se assim não for? E se alguma coisa se inicia e não acaba?
É difícil perceber esse conceito já que a própria Vida está assente nesse conceito de início/fim, mas e se por momentos nos apercebesse-mos que as coisas não são bem como aquilo que nos dizem que são.
O nosso cérebro é ainda tão pouco conhecido. Se nos pudesse-mos transcender a um nível superior de compreensão? 
As definições avançadas de vida depois da morte e de vidas passadas parecem demasiado obsoletas com o passar do tempo.
às vezes sentimos que não pertencemos à nossa pele, que o rosto que vemos no espelho parece-nos desconhecido, a dor que sentimos parece distante e indefinível como pertencesse a outra pessoa, como brotasse de uma cicatriz invisível na nossa pele.
O que nos define?
O que nos dá substância e ser?
A vida em si? O que é afinal a vida?
Na escala do tempo rumo ao tal fim anunciado nunca parece termos tempo responder a essa questão essencial...
Os pilares fundamentais do que aparentemente nos torna humanos estão por demais difusos, não há certezas de momento o que é ser humano ou não...
Será um serial killer um ser humano? Um genocida? Um esclavagista? Não?
Seriam então demónios disfarçados de homens? Seria bastante confortável acreditar nisso...
Cavamos fundo todos os dias em nós à procura da resposta à pergunta quem sou eu afinal?
Os pouco que conseguem descobrir a fazem-lo demasiado tarde, pelo menos dentro dos parâmetros que nos impõem como sendo tarde demais.
Nunca saberemos...
Um dia somos uma coisa, no dia seguinte somos outra, andamos ao sabor do vento em busca de conforto sem saber que é no desconforto que encontramos a tal paz ansiada, a tal felicidade suprema da qual nunca experimentámos sequer um segundo.  

Bruno:Carvalho
2012





"Inside this cold heart is a dream
that's locked in a box that I keep
Buried a hundred miles deep
Deep in my soul in a place that's surrounded by aeons of silence

And somewhere inside is the key
to everything I want to feel
but the dark summer dawns of my memory
are lost in a place that can never be

Can someone please show me the way?
can someone please help me
cause I cannot see
the silence is raging! 
silence is raging

Silence, silence 
fade into silence
memory, memory
inside is the key to memory"

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

AMOR=DOR

Dizem por aí que são borboletas aquelas cócegas que sentimos no estômago quando estamos apaixonados. Não poderia discordar mais. A mim parecem-me escorpiões, uma centena deles a picar, a libertar veneno até que o nosso coração acelerado ceda e se despedace.
Quando isto acontece ficamos absorvidos dias a fio no caos dos lençóis desejando um sono eterno. Ao menos os sonhos teimam em acabar, mal ou bem, não passam disso.
Perseguimos a pé carros que não tencionam parar, como tolos varremos as cinzas da nossa alma para debaixo do tapete.
Somos demasiado sinceros, demasiado abertos, demasiado sentimentais. 
O segredo estará talvez em controlar a tal coisa chamada esperança, sem esperança somos tudo o que ambicionamos ser.
Falando através de probabilidades em 99% dos casos AMOR=DOR, que não concordar que avance com outros números e através de outra análise, apaixonados=estupidificados.
Quem nos visse do espaço diria que somos obcecados por dor, gostamos. Se assim não fosse as probabilidades seriam bastante mais equilibradas.
A verdade é que a maioria das pessoas por quem nos apaixonamos estão-se nas tintas para isso e mais grave que isso guardam-no para si em vez de dizê-lo em voz alta.
Aí está, convém nunca dizer o que se sente, pode ser demasiado ofensivo para alguém.
Estamos todos mentalmente tolhidos por esta cegueira que nos embriaga, que nos deixa como loucos em cima do gradeamento de uma qualquer ponte o suficientemente alta para nos tirar da boca o sabor a fel.

Bruno:Carvalho
2012

Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

TENTATIVA

Falhei esta nova tentativa...
Não aguento mais, o cansaço desmorona-me a alma
E tanto fica para dizer outro tanto para sentir
Rendo-me
Entrego-me ao mundo escorregando lentamente das tuas mãos
E que lindo foi este sonho
E que doce foi esta alegria
Ri-se agora a solidão
Por ter feito de mim tão tolo

Este mundo não se fez de sinceridade e sentimentos
Fez-se de fachadas
De máscaras coladas ao rosto
Num Carnaval eterno
E quem sou eu aqui sozinho?
Na proa do meu barco de papel
Percorro o horizonte sem nada ver
À espera que que o papel se faça mortalha
E o mar o meu túmulo querido...

Bruno:Carvalho
2012


L'AME IMMORTELLE
"Lake Of Tears"

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

SURREAL

Surreal no mínimo…
É o que se pode dizer desta busca incompreendida por insanidade. Ninguém entende como uma personalidade tão equilibrada se estilhaça assim de um momento para o outro.
E se o entendimento fosse possível, o que fazer com tal informação? Como divulgá-la às massas sem o perigo de uma debandada geral duma multidão em pânico. Que preço iríamos pagar? Demasiadamente elevado decerto….
A melhor solução seria portanto esconder o objecto descoberto por detrás de um mito inexplicável, amontoar as teorias num disléxico texto inconsequente e sujeito a julgamento moral.
Aplaudimos aqui de longe, onde é seguro, onde apenas o que vemos nos afecta e não tanto o que sentimos. Olhamos enternecidos para a inocência da loucura exposta. Mostramos solidariedade mergulhados no nosso conforto instalados no sofá acolhedor simplesmente, mudamos de canal.
A revolução não é televisionada, ao contrário da morte esta não traz audiências, traz apenas instabilidade e o perigo da alienação das massas outrora sossegadas e formatadas.
Alimentamo-nos sem dúvida de tragédia, nesse sentido somos autênticos obesos.
Na tentativa de humanizar a violência irracional estupidificamos o pensamento ainda desformatado, ridicularizamos os elementos fora da nossa matriz de controlo, como se para e eles e não para nós fizesse todo o sentido a palavra insanidade.
Fazemo-nos mártires democráticos, mostramos ser virgens ofendidas quando simplesmente não destrinçamos democracia de tecnocracia, ideologia de extremismo.
A ditadura mantém-se como elemento inerente à nossa condição humana, somos ditadores de nós mesmos disfarçados de lobos mas mordendo como cordeiros.
E quando o nosso pequeno altruísmo se transforma completamente em egoísmo nada nos detém de dizer e fazer as maiores asneiras de que somos capazes de imaginar.


Bruno:Carvalho
2011


Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

ENIGMA

Os pilares da minha alma ruíram
O portão abriu-se e dele jorrou a dormência
Os meu coração foi invadido até ao seu âmago
Pela não existência, pela morte prometida.

Falo silêncio pois as palavras foram-me roubadas 
Estropiado de voz sigo letárgico rumo ao fim
Mais um fim de um principio que não chegou a iniciar-se
Mais um ponte destruída, o rio corre célere e frio rumo ao vazio.

Relutante a mais uma investida desoladora de dor
Paro, encostado ao peitoril da janela olho o abismo
O enigma embrulha-se cada vez mais e a solução que não surge...
A resposta está tatuada no sabor dos teus lábios.

Da janela tudo que vejo é a tela do teu corpo
Jorrada na parede e não no linho da cama.

Bruno:Carvalho
2012


Foto por: Marta Araújo

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

HINDSIGHT


"Intangible. Eternal. Without beginning nor end. The nameless, formless energy that permeates all living things. That sweeps through nature like a ripple in an ocean, sending cascades of timeless wonder through the air, on the song of a bird, the freshness of the morning air. A clear calling for our inner nature to awaken beyond our every day lives, and fears. Love is timeless, love is purity. It is the lightless light, the rays of the sunrise dancing on the surface of the sea. Love is you, and love is me. It is the deepest knowing, the serenity of being, the laughter of the earth, the limitless breath of the wind, the wonder of potential, the power of thought, the gift of life, the highest vibration, the most profound awareness... the knower. Life. Love. Infinite. within you. Now. Always.

For it is in love's gentle embrace that we come to know the space between us. A feeling deep within that not all is what it seems. that we bear witness to a magic as deep as our own, to a summernight horizon that whispers "welcome" to your soul. And in those fleeting, trembling moments that we share between the worlds, it is enough for us to know that in each other we must care, for alive and not alone are we the children of the world, here to witness time and the unfolding miracle of the soul.

There is no difficulty that enough love will not conquer. There is no disease that enough love cannot heal, No door that enough love will not open, No gulf that enough love will not bridge, and no war that enough love will not throw down. It makes no difference how deeply seated may be the trouble, how hopeless the outcome, how muddled the tangle, how great the mistake. A sufficient realization of love will dissolve it all. And if you could love enough, you would be the happiest and most powerful person in the world."


Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

UNIVERSAL



Today, like every other day, we wake up empty

and frightened. Don't open the door to the study
and begin reading. Take down a musical instrument.
Let the beauty we love be what we do.
There are hundreds of ways to kneel and kiss the ground.


The breeze at dawn has secrets to tell you.

Don't go back to sleep.
You must ask for what you really want.
Don't go back to sleep.
People are going back and forth across the doorsill
where the two worlds touch.
The door is round and open.
Don't go back to sleep.


I would love to kiss you.

The price of kissing is your life.
Now my loving is running toward my life shouting,
What a bargain, let's buy it.


Daylight, full of small dancing particles

and the one great turning, our souls
are dancing with you, without feet, they dance.
Can you see them when I whisper in your ear?


All day and night, music,

a quiet, bright
reedsong. If it
fades, we fade.


RUMI

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

STOP!

STOP!
Tens de parar!
Não vale a pena fazer rewind porque o que passou não pode ser mudado, fastforward também não pois a vida já é suficientemente curta para a vivermos à velocidade da luz.
Basta!
Carrega no stop faz um reboot e carrega de novo no play. Liberta-te dos vícios que mascaram o que és, fazem-te ser o que nunca foste, disfarçam os problemas pintando-os de outra cor por pouco tempo, deixam-te iludido.
Pára!
è tempo de viver e sentir.
Sentir o que se vive e viver o que se sente.
É tempo de fazer escolhas por mais duras que sejam. É tempo de nasceres finalmente.
És livre! Porque não aproveitas isso?
Porque vives constantemente toldado pelo medo?
Porque tens tanto poder na tua mão e desperdiças-lo a cada momento? Ama-te mais do que amas os outros!
Não te deixes para trás, faz-te gigante quando o mundo quer fazer-te acreditar que és um anão. Não és.
És tudo o que sempre sonhaste ser, no entanto colocaste a máscara de inicio e nunca te apercebeste que te esqueceste de a tirar...
Vive-te. Vive a diversidade que te preenche. Entre a beleza de um luar numa qualquer escuridão e o calor de um raio de sol numa qualquer manhã de Inverno.
Faz o que quiseres!
Mas vive!

Bruno:Carvalho
2012



They are out there, somewhere near...



Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

METÁFORA

"Estou farto da minha morte!" cuspiu o Anastácio pela janela que dá para o quintal do vizinho. "Quero lá eu saber!" respondeu-lhe ele de volta eloquentemente.
A verdade é que ele estava mesmo farto da sua malfadada morte, já o tinha dito no outro dia ao Dr. Ambrósio, psiquiatra nas horas vagas, "Quero viver!" disse-lhe no mais profundo do seu deslumbramento. O Doutor conhecia muito bem casos como aquele, ao longo dos anos tinha visto muita gente viver. Disse-lhe pacientemente aos gritos "Viver não resolve nada..."
"Resolve sim senhor! Terminavam todos os meus problemas e angústias, queria apenas poder provar um pouco do seu sabor." Respondeu um sonolento Anastácio.
"Então conta-me lá. Preferias uma vida lenta ou uma rápida?" "Lenta claro! Não gosto nada de sofrer."
Anastácio passara toda a sua morte a pensar no dia em que iria viver, diziam-lhe "Morre a tua morte, não ligues a esses disparates que falam na televisão sobre a Vida."
Mas aquilo martelava-lhe constantemente a cabeça, como se o seu cérebro estivesse a ser forjado em cada momento na bigorna de um ferreiro.
Cada dia que passava o pessoal da rua preocupava-se cada vez mais com ele, viam-no a sair de casa a assobiar e a sorrir e perguntavam-se se seria a última vez que o veriam morto.
A coragem faltou-lhe inúmeras vezes mas naquele dia estava confiante que não iria falhar, escolheu bem o sítio, à beira do lago gelado esperou que alguém parasse de patinar, quando isso aconteceu acercou-se da pessoa e pediu delicadamente "Emprestas-me os teus patins?" 
Calçou os patins com pressa, demasiada pressa pois conseguiu calçá-los ao contrário, desfeito o erro pôs-se de pé e deslizou suavemente sobre o espelho gelado, sabia-lhe bem, gargalhou entusiasmado, o entusiasmo transbordou e quando deu por si encontrava-se estatelado no meio do lago, com face colada ao gelo sentiu um alívio que lhe penetrou a alma.
As pessoas à sua volta precipitaram-se para ele, entre eles um médico, aquele lago era perigoso já tinha nascido ali muita gente.
O Anastácio levantou-se e olhou para a multidão que olhava para a superfície vazia do lago, gargalhou de novo alegremente e deslizando aceleradamente gritou "ESTOU VIVO! ESTOU VIVO! Finalmente..."

Bruno:Carvalho
2012


Sábado, 17 de Dezembro de 2011

MORTALHA

Depositaram a mortalha sobre o defunto e deixaram-no ali só, inconsciente da sua morte.
No meio da sua inconsciência uma luz entra por onde nunca deveria entrar, estranhamente o quarto continua escuro. Está frio. Não pode ser um quarto, o defunto lembra-se deles como quentes e acolhedores...
Estende os braços, em cruz. Os dedos roçam levemente numa superfície terrosa, uma pedra ali, uma semente acolá...
O defunto arrisca levantar a cabeça, a mortalha desliza-lhe pelo peito. 
Existe de facto uma luz omnisciente, a primeira luz talvez, a primeira ferida que reabre no lado esquerdo do seu corpo moribundo.
Ergue-se. Da tumba talvez...
A hipótese quarto está há muito afastada. De pé a mortalha aninha-se sobre os seus pés. Olha para cima, a terra dá-lhe pelo peito. Apoia-se na cruz de ferro e sobe à superfície.
A estranheza fria do gelo que cobre a relva sob os seus pés infiltra-se em todo o corpo. Está de pé. Os braços ainda abertos formam com o resto do corpo ainda uma cruz. Baixou-os. Era apenas uma posição incómoda...
À sua volta outros corpos despertam, se calhar aquilo era mesmo um quarto, frio, mas de qualquer forma um quarto.
A luz sempre ali, um pequeno raio que sai da fechadura da porta. Roda a maçaneta, empurra, dá passos, demasiados passos para quem está inconsciente da sua morte.
O defunto segue a sangrar do lado esquerdo pelo corredor, afinal de contas está apenas a viver mais um dia dia da sua morte. 
Uma vida de morte.
Uma primeira luz, uma última ferida...