quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

FELIZ


A chuva chegou quando o comboio partiu.

Após três dias numa espécie de limbo, aqui volto eu ao meu cantinho, ao meu pedaço de realidade. Porém não chego como parti, chego mudado, movido por uma injecção de novo alento, de uma visão mais alargada das coisas, do sentido da vida, do modo como sentimos o que nos rodeia.
Estou certo que cá fora o mundo continuou a girar, mas ali dentro acho que tivemos o poder de parar o tempo, alimentados por nada mais que um fogo, uma paixão e um querer, vivemos o momento sem querer prever o futuro.
Ali fomos nós próprios, sem máscaras, sem segredos, sem medos e sem os grilhões que nos prendem por vezes.
Fomos um, dois corações compassados ao ritmo de um só, como uma melodia ou um poema perfeito.
Portanto hoje rumaste de novo a norte, partiste, mas em mim foi como ainda não o tenhas feito, pois estás em mim, o teu perfume na minha pele, o teu sorriso no meu olhar, o teu beijo tão profundamente marcado nos meus lábios.
O mais saboroso disto tudo foi saber que este não é foi O adeus, mas tão somento UM pequeno adeus, tão pequeno como a distância que nos separa.
A saudade nascerá de certeza, no entanto será sempre suportável devido à lembrança viva destes três dias. Dias estes dos mais felizes, verdadeiros e sentidos dos meus quase trinta e dois anos.
Não é este o verdadeiro significado da vida? Ser feliz agora e não no longínquo dia de amanhã?


Bruno:Carvalho

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ACORDAR


Acordei cedo com o calor dos nossos corpos a inaugurar um novo dia.
A noite foi de insónia, por mais que uma vez dei por mim a fitar o teu rosto adormecido, reparei como por vezes sorris mesmo a dormir, como a as linhas da tua face fluem perfeitamente para criar um quadro perfeito.
Senti o cansaço chegar e deixei-me levar pelo sono, adormeci serenamente e feliz.
E quando acordei e me apercebi que tudo aquilo era real, selei o amanhecer com um longo beijo e parei o tempo.


Bruno:Carvalho

Foto por: Maria Rodrigues

sábado, 26 de dezembro de 2009

SEGUNDA-FEIRA

Conto os minutos como se de grães de areia se tratassem, conto-os pois o o reencontro aproxima-se, o meu corpo sente já as tuas mãos, aos meus lábios afloram já os teus sabores, nos meus olhos está já reflectido a doçura do teu.
A distância encurta-se neste momento, o espaço e o tempo deixa de ter sentido pois contigo o momento é único e dura para sempre.
O amanhã?
O amnhã está lá longe obscurecido, escondido na lembrança de um futuro distante que não se sabe se existirá.
Bruno:Carvalho

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

REVOLUTIONARY ROAD

Quem não viu ainda este filme que veja... não são necessárias mais palavras...




"I cant leave...and i cant stay"

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

CORAÇÃO


Andava meio perdido...
Mas depois conheci-te
E nada foi igual
O mesmo fogo que invadiu o meu corpo
Aqueceu a minha alma e derreteu o meu coração.

E timidamente ele aparece
Aquele sentimento que todos banalizam
Mas que nunca será banal
A distância não vencerá!

Bruno:Carvalho

foto por: Rute =)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

TU


O dia estava frio mas dentro de mim um fogo maior ardia.

O gelo derretia com o passar dos quilómetros, o coração acelerava como se estivesse ciente do encontro há muito ansiado.
Com as mãos suadas saí do comboio, cabeça erguida e sorriso nos lábios.
Vi-te, o fulgor do teu perfume invadiu o meu corpo e deixou-o à beira da loucura, todas as resistências caíram e livres de amarras os nossos lábios colaram-se ávidos por prazer, como se de uma fome se tratasse saciamos os nossos gestos com toques e caricias, o fogo ameaçava fundir os nossos corpos, o rio corria serenamente rumo ao mar, o céu tornou-se pálido o sol foi encoberto, mas ali naquele lugar quente e sem tempo parecia ainda brilhar em plena força, o tempo parou e o mundo deixou de girar, enquanto as nossas línguas se degladiavam ansiosas uma pela outra, deixamos escapar sorrisos, suspiros e palavras curtas.
O mais pequeno dia do ano tornou-se o maior e mais grandioso para mim, quando entrelaçámos as mãos e de novo nos perdemos na doçura de um longo beijo, percebemos que nada poderia ser igual, naquele momento a vida fez mesmo sentido.
Parti, certo do reencontro, com o teu sabor colado nos meus lábios, o teu perfume na minha pele, a cor dos teus olhos avelã nos meus verde azeitona, uma mistura misteriosa de cores à espera de um desfecho, dois corpos clamando por prazer na urgência de extinguir um fogo que parece há demasiado tempo aceso.


Bruno:Carvalho




(Isto é para ti, obrigado pelo fantástico dia)


sábado, 19 de dezembro de 2009

O LÍRIO (parte I)


Só eles conheciam aqueles caminhos salpicados pelo luar. Caminhavam seguros como se os seus olhos estivessem de facto adaptados ao escuro, ele caminhava apoiado no braço dela, amparado do outro lado pela bengala.
Retornavam sempre aquele sítio, todos os anos, naquele dia, voltavam para recordar, naquela falésia deixaram há muito a sua inocência, voltavam como para revalidar um compromisso, um pacto que há muito os juntou e que apesar das diversas ameaças nunca haviam quebrado. Um pacto muito mais poderoso do que um de sangue, um pacto de silêncio.
A sua amizade foi sempre vista como um sortilégio, apanhados no meio do pantanal rural de uma terra pequena sofreram do ostracismo de quem nunca teve por hábito sentir, vivia-se de ilusões, de aparências, como se mostrar ao vizinho que se era muito feliz fosse de facto suficiente para se convencer a si próprio que o era.
Portanto tudo o que era estranho era discriminado, tudo o que era real era banido, como se as pessoas daquela terra quisessem viver para sempre na imensa pequenez do seu cérebro atrofiado.
Conheceram-se numa noite como aquela, a lua cheia salpicava o céu estrelado de Abril, a noite era ainda fria, ele estava perto da ponta da falésia sentado numa rocha, havia trazido a lanterna forte que havia comprado para aqueles passeios nocturnos, nos joelhos estavam pousado o grande caderno onde fazia os seus esboços, adorava desenho, nunca tinha tido formação mas tinha nascido com aquele dom, naquela noite tinha saído para capturar no papel aquele luar formidável a incendiar o mar tranquilo.
Era tarde, estava já a terminar o desenho quando ouviu a curta distância um restolhar na vegetação rasteira, da moita de acácias saiu uma rapariga jovem, vinha aos tropeções e chorava convulsivamente, saiu a correr e estancou na ponta da falésia.
Ele poisou o caderno e instintivamente correu para perto dela, assustou-a e ela desequilibrou-se quase caindo no abismo.
- Olá, desculpa ter-te assustado, se calhar é melhor não ficares muito aí na ponta, podes escorregar e cair...
- Quem me dera cair mesmo! - gritou por entre os soluços provocados pelo choro.
- Tu não és a Amélia, a filha do sr. Pedro?
- Sou e depois, o que interessa isso? Eu quero é morrer! - disse ela quase num murmúrio.
- Ei, calma calma, o que se passa, decerto não vais querer fazer isso, anda dá-me a mão, vem para aqui podemos conversar - aproximou-se devagar...
- Afasta-te, vou saltar!
Ele estancou e disse-lhe
- Pronto. parei, vou sentar-me aqui, podemos falar assim ao longe...
Hesitantemente ela deu um passo a trás e sentou-se numa pedra, com a cabeça enterrada nas mãos recomeçou a chorar. Por fim disse
- A minha vida não faz sentido, porque não me deixam ser quem sou, porque não me deixam sonhar? Eu só quero ser feliz...
- O que se passa? Conta-me?
- Falei hoje com o meu pai e pedi-lhe para estudar piano na conservatória, adoro piano, adoro aquela sua sonoridade, adoro sentir as teclas debaixo da ponta dos meus dedos...
- Que bom, deves tocar muito bem - disse ele sorrindo-lhe
- Toco o pouco que sei, o pouco que vou aprendendo sozinha, a minha tia tem um piano e costumo ir lá várias noites tocar.
- E que disse o teu pai?
- Disse que tocar piano é para gente rica, que devo pensar é em arranjar emprego na fábrica da vila, ganhar dinheiro para criar uma família, arranjar homem e casar... Mas eu não quero! Prefiro morrer!
Eduardo levantou-se e aproximou-se mais um pouco, poisou a mão no ombro dela e puxou-a para lugar seguro.
- Calma, não tomes decisões precipitadas, estou certo que terás a tua oportunidade de estudar música... - Conhecendo bem o sr. Pedro, ele no fundo sabia que isso era quase impossível, mas aquele era um momento desesperado e uma mentira era necessária.
- Quando? Quando for velha e este fogo que em mim arde se apagar? quando tiver um rancho de crianças ao meu cuidado e o meu pequeno emprego das nove às cinco? Prefiro acabar já com esse sofrimento futuro...
- Calma, o futuro ainda é muito longínquo, talvez consigas convencer o teu pai...
Ela levantou devagar a cabeça e enfrentou o olhar dele.
- Vê só o resultado de um simples pedido educado...
Só então ele viu, o seu olho esquerdo estava rodeado de uma mancha carmim, começava a inchar...
Instintivamente ele abraçou-a enquanto novamente uma torrente de lágrimas corria desenfreada dos seus olhos...

(Continua)


Bruno:Carvalho


foto por: Carlos Sillero

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

PIANO


Parou de tocar, com os dedos ainda pousados nas teclas do piano, apreciou o silêncio. A mente divagava parecia que havia tocado uma melodia de um adeus, no entanto nenhum adeus havia acontecido.
Quando se levantou percorreu o curto espaço até à varanda e sentou-se na cadeira de baloiço, o sol de inverno embatia na pequenas gotículas congeladas no beiral para além do vidro da grande janela que cobria a varanda.
Para além do vidro ele viu-a a cuidar do seu jardim, aquele jardim parecia um paraíso, centenas horas de trabalho saídas das mãos cuidadosas da mulher, era deveras confortante vê-la ali, após a escravatura da distância os ter separado por demasiado tempo, finalmente tudo estava a correr bem, finalmente a roda girava solta e alinhada, sem qualquer grão de areia a encravar.
Ela virou-se e sorriu, aquele sorriso havia sido o gatilho que havia despoletado a paixão no seu coração, o sorriso e aquele olhar profundo.
Ela entrou e sentou-se ao seu colo, beijou-a intensamente, as suas mão percorreram o corpo dela enquanto ela tremia ansiosa como se o fogo tivesse sido ateado de novo, adoravam fazê-lo de manhã, excitado ele foi-lhe enterrando os lábios no pescoço, retirando lentamente a camisola de lã e depois a blusa branca, conforme ia desabotoando os botões sentia ondas de êxtase percorrer-lhe o corpo, ambos gemeram lentamente.
De repente ela parou e sorriu-lhe, lânguidamente segredou-lhe ao ouvido, no banho?
Ele pegou-lhe e juntos entraram no jacuzzi ainda quente, já libertos da roupa ele beijou-lhe ao de leve os seios levando a arquear, as mão dela percorreram o corpo até ao sexo dele e desta vez foi a sua vez de gemer, no limite do êxtase ele penetrou-a e o mundo pareceu deixar de existir, naquela dança desenfreada de corpos, de beijos, pequenas mordidelas, arranhões e gritos de prazer libertou-se um fogo, a paixão avassaladora inundou-os e quando ambos atingiram o clímax a água parecia ferver a mil graus.
Ofegantes e satisfeitos deixaram-se embalar pelo bem estar, inundados de paz selaram o momento com um beijo.
Já após o pequeno almoço, ele sentou-se de novo ao piano e começou a debitar notas, uma alegoria ao silêncio, desenfreada a inspiração brotava-lhe da ponta dos dedos quase inebriante, lavou-se do adeus, lavou-se da distância, do medo, encheu-se de paz, finalmente a vida parecia fazer o sentido que ele sempre desconfiou que fizesse, mas que nunca tinha tentado experimentar.


Bruno:Carvalho


domingo, 13 de dezembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

HOJE


Hoje larguei-me no sabor das palavras, como se elas tivessem de facto sabor. Hoje libertei-me na soltura dos gestos, na leda sensação de paz. Hoje forcei-me a olhar-te, para além de qualquer medo, para além de qualquer entendimento racional.
Hoje parei de sonhar, resolvi por uma vez basear-me na realidade, tirei toda a coragem do velho armário, armei-me de um sorriso e simplesmente te ofereci as minhas palavras.
Hoje resolvi fazer-te a minha outra metade, moldar-te à forma dos meus sentimentos, hoje finalmente pude ver de novo aquele teu sorriso sincero, hoje senti no silêncio do nosso entendimento a mudança no teu rosto.
Hoje, neste novo dia, em que o sol decidiu brindar de novo esta terra com o seu esplendor, hoje neste dia bucólico de Outono pude espelhar no papel a soltura do meu desejo. Abri a janela e gritei ao ouvido do tempo. Fiz espelho na brisa da manhã das tuas palavras, memorizei-as, larguei beijos sonhados no orvalho, na esperança que pudesses colher aquela rosa no jardim, àquela hora, naquele momento só nosso.
Hoje e depois de toda a excitação voltei a fazer-me sonhador, voltei a fazer-me poeta, para te celebrar, a tua beleza, o teu carinho, a minha certeza de nada acontecer por acaso e tudo ter um momento para acontecer.
Hoje tomei consciência que te procurava, há muitas vidas, muitas vezes te encontrei e te perdi, muitas vezes simplesmente passavas sem me ver, muitas vezes passava sem te sentir. Mas a noite fez-se conselheira fiel e o dia rompeu com esplendor, para uma nova consciência, um novo objectivo, um novo prazer de viver e tudo por uma singela missão, fazer-te sorrir…
E assim fui à luta, armei-me cavaleiro, percorri o caminho amparado pelo sol, o meu sol, a minha salvação prometida. Respirei fundo e parti sem saber onde ir, sem querer saber onde o caminho me levará, parti simplesmente pela aventura de viver e pela alegria de partilhar contigo mais um dia, cada dia, como só existisse aquele.
Há sentimentos que carecem de explicação, sentimentos para além de cada palavra, proferida ou escrita. Sentimentos demasiados grandes que fogem ao tempo, não por durarem para sempre mas por aparecerem quando menos se espera. Aí reside a beleza da paixão.
Orgulhei-me de te deixar fazer parte de mim e da minha vida, o caminho é longo, vamos fazê-lo juntos? Um novo dia nascerá e uma nova noite chegará não para trazer a escuridão e o medo, mas sim a alegria e o amor.


Bruno:Carvalho

foto por: Helio

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

TELA


O futuro desfia-se em mil fios nas pontas dos meus dedos para tecer o presente. O meu coração explode com a chegada da noite, pois com ela vem a lua, vem aquele doce aroma a serenidade, com ela vêm os meus sonhos e neles vens tu.
Neles faço do teu corpo tela e pinto borboletas com os meus lábios, misturo cores com a ponta dos dedos na tua pele, idealizo paisagens no teu olhar.
O meu coração descongela finalmente, jazia adormecido no mais fundo dos invernos, agora explodiu em mil pedaços de calor, calor de uma nova primavera, uma esperança finalmente tornada realidade, o meu corpo rejubila, a minha alma finalmente canta hinos de glória.
Conquistaste-me com a doçura do teu sorriso.
Agora aqui fico à espera, carente de ti, do teu calor, do teu abraço. Agora aqui fico finalmente certo que quero viver, sim escolho viver.
E tu meu amor, tu viverás para além dos meus sonhos.


Bruno:Carvalho


Foto por: silvio feitosa


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

ARREBATAMENTO


Arrebatado.
A palavra fugia-me já há vários dias. É uma experiência de arrebatamento aquela que sinto ao olhar nos teus olhos, lá na profundidade deles, onde ninguém ousa ir, onde ninguém quer ir, por causa do medo. Aquele medo que nos turva sempre, roubando-nos os momentos certos.
O desconhecido abre-se entre nós, um abismo auto-denominado distância, distância espacial, não temporal, pois o tempo é nosso, todo o tempo.
E mesmo que fiques insegura sem saber onde pisar a seguir, sem saber o que dizer apesar das palavras se acumularem na tua boca, fica ciente que mesmo que decidas eternizar o silêncio, nunca poderás calar com ele o meu sentimento. Ali ficará ele entre o crepúsculo e a aurora, eternamente à espera embora não seja eterno, pacientemente aguardando apesar de ser maior que o tempo.
É engraçado como as nossas decisões parecem afectar sempre a nossa vida mesmo que por vezes não pareça à primeira, mesmo que demore o tempo necessário para o sol dar uma inteira volta à terra, acabamos por nos aperceber que certas coisas nunca poderiam ser de outra forma.
Temo porém que com o meu firme entusiasmo, com a minha recém descoberta felicidade te empurre para longe de mim, para ainda mais longe.
Arrebatado pela doçura do teu sorriso deixo-me levar pela serenidade, a eternidade tão perto embrulhada num beijo teu, desfaço-me em pequenas gotas de chuva para tocar a tua pele, uma lágrima de felicidade derramada pela imensidão dos teus olhos, sob qualquer forma estarei lá, pois a tristeza jaz inconsciente que é finita, infinita é a minha esperança em conseguir conquistar o teu jardim, e no meio das rosas vermelhas, dos lírios dourados, dos cravos brancos e dos malmequeres amarelos, estarás tu a maior flor que o mundo jamais viu florir.
E aqui continuo arrebatado apesar da distância, do abismo do medo e da incerteza de um sentimento que de banal tem muito pouco mas que de único tem quase tudo.
E o nosso será sempre muito mais que um simples sonho ou um delírio de uma noite mal dormida.

Bruno:Carvalho

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

NINGUÉM

Pearl Jam
"Nothingman"
once divided...nothing left to subtract...
some words when spoken...can't be taken back...
walks on his own...with thoughts he can't help thinking...
future's above...but in the past he's slow and sinking...
caught a bolt 'a lightnin'...cursed the day he let it go...
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman...
she once believed...in every story he had to tell...
one day she stiffened...took the other side...
empty stares...from each corner of a shared prison cell...
one just escapes...one's left inside the well...
and he who forgets...will be destined to remember...
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman...
oh, she don't want him...
oh, she won't feed him...
after he's flown away...
oh, into the sun...
ah, into the sun...burn...burn...
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman...
nothingman...coulda' been something...nothingman...
oh...ohh...ohh...

(E. Vedder)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

CERTEZA


Do sonho explodiu o sentimento em mil pedaços para depois se juntar de novo em algo mais real, uma certeza nascida de uma noite mal dormida.
Sonhei com o teu corpo, com os teus lábios, com o teu sorriso, com o teu toque, agora sonho também com o prazer de acordar a teu lado.
A paixão renasceu das cinzas do desengano, a luz frágil de uma vela transformada agora num luzeiro cheio de calor, como se saudasse o nascimento do Inverno.
Da escuridão rompeu uma luz, como se de um sismo se tratasse tu vieste e abalaste as fundações da minha existência, aqui jazia eu adormecido, congelado na frieza de uma letargia, agora aqui estou na luta por um lugar que sei ser meu, questionar de novo aquilo de que sou feito para formular um novo eu.
Acordei da estagnação.
Tudo tem um sentido quando acontece, começo lentamente a perceber qual o significado de toda esta luz, certo que pequenos passos serão sempre tomados como gigantes avanço serenamente pelo caminho amparado pela tua mão, guiado pelo teu coração.
As palavras fluem, agora mais naturalmente como se contigo tivesse vindo uma torrente imparável de inspiração. Agora redefino as minhas prioridades, afinal a minha vida tinha uma finalidade.
Redescoberto o sentimento resta apenas esperar que o tempo o confirme e que a distância se encurte para que estes abraços não pareçam tão distantes e para que os olhares há tanto tempo perdidos vejam finalmente amor na profundidade um do outro.

Bruno:Carvalho

Foto por: Filipe Pereira

sábado, 28 de novembro de 2009

ALMA


Após o teu toque o meu corpo fica num frenesim como se de electricidade se tratasse. Inerte, deixo-me consumir pelos teus lábios, ter-te assim em mim, sentir-te assim em mim, mais que uma parte perdida és o meu todo reencontrado.
A alma completa transparece a serenidade, nem que seja só por um segundo, um momento no tempo que é do mesmo modo todo o tempo, tudo fica em câmara lenta quando as minhas mãos percorrem as linhas do teu corpo.
Amanhece, naquela loucura da hora mais negra antes da aurora mergulho no teu olhar com se o futuro fosse a coisa mais certa que já alguma tive, com a porta fechada do passado simplesmente abandono-me ao presente desperto.
A rua deserta, a maresia enche-me os pulmões, o buraco da alma vai sendo tapado, lentamente como se a noite se fixasse permanentemente no dia, respiro-te, a minha musa, o meu conforto redescoberto.
E assim passa mais um dia, mergulho na noite, na doce ilusão dos meus sonhos onde descobri os selvagens sabores do teu corpo.
Com palavras ternas prendes o teu corpo ao meu, embriagado num mundo de sentidos à parte deste deixo-me ficar perdido em ti.


Bruno:Carvalho


sábado, 21 de novembro de 2009

...

Quando a razão mente o coração sente. Por vezes fazemos julgamentos errados baseados nas nossas inseguranças, mas no final e contra todas as expectativas a verdade prevalece e o sentimento de que não poderia ser de outra forma inunda-nos de certezas, pois aquela pessoa simplesmente seria incapaz de desiludir.
Não vale a pena no entanto chorar por leite derramado, o passado por vezes pressiona-nos demasiado, fazendo-nos meros reflexos de nós próprios, é preciso aceitar o erro como parte do processo de crescimento emocional.
Portanto na maior das minhas serenidades peço-te desculpa querida amiga M.
Nunca poderia ser de outra forma, és muito importante para mim.
Bruno:Carvalho

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

LIVRO


Hoje sinto-me feliz. Não porque seja fim-de-semana nem nada do género, hoje estou feliz porque comprei um livro.
Abandonei o meu habitat preferido do fantástico e divaguei por novas formas de sentir as palavras, absorvo cada uma brevemente em busca do seu total sentido ou sentidos.
Hoje o dia correu-me bem. Habituei-me a avaliar a minha felicidade dia a dia, pode ser o mais cómodo mas é para mim o mais real de momento. Viver cada dia devagar sem esperar muito mais do próximo.
Hoje sinto-me solto e feliz apesar das pessoas me continuarem a desiludir, faz parte do processo, no meio do roseiral haverá sempre espinhos, às vezes aprendem-se duras lições, há que aprender com elas.
Mas a minha pequena vida diária não é feita só de desilusões, há também aquelas pessoas que estão muito além de serem surpresas, são certezas, pessoas certas que dificilmente me irão desiludir, pois como alguém me disse hoje há que saber o meu papel na vida delas para ficar em paz com elas.
Hoje fiquei em paz com mais uma.
A amizade é muito mais que uma palavra, é um sentimento que tem de ser cultivado e dificilmente crescerá com silêncio e indiferença.
Uma das melhores músicas que ouvi nos últimos tempos brota agora das colunas e enquanto a voz de Jonas Renkse e Krister Linder se gladiam num duelo etéreo de pura poesia em forma de música não posso conter um sorriso, tanta beleza repousa ainda escondida à espera de ser descoberta, por vezes perdemos noção da nossa efemeridade, só a descobrimos quando estas pequenas irrupções de beleza se escapam do cinzentismo e do marasmo do passar das horas.
E belas são também as palavras da minha querida amiga, a deusa do Ar, Akadi, não me fazes um pouco menos infeliz, fazes-me mesmo é muito feliz, existem pessoas incapazes de desiludir.
E enquanto o vento ruge lá fora a chamar pela chuva, a "Departer" dos Katatonia termina, pouso o livro com o nome estranho que tanto gozo tive em comprar, também pergunto eu, "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?" espero que o sr. António Lobo Antunes me consiga esclarecer.

Bruno:Carvalho

Foto por: Tariana Mara

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ENCRUZILHADAS


Quantas vezes esperamos ter tomado o caminho certo na última encruzilhada? Quantas vezes sentimos o ter feito, mas logo surge outra para nos negar o prazer da vitória?
Por vezes sentimos paz à nossa volta, descobrimos que a sentimos apenas porque dentro de nós a guerra nunca terminou, nem vai terminar.
Continuamos vinculados às nossas promessas vãs, demasiados embrenhados no nosso vão orgulho de sermos mais do que seres ávidos por afecto.
Animais (ir)racionais, esfomeados de conforto, aceitação, aprovação.
Demasiado cobardes para espetar a espada no coração quando a razão a isso nos obriga...
Continuamos a tropeçar nas encruzilhadas inconscientes que isso nos é mais confortável, poder ter dúvidas quanto ao caminho a seguir, ignorando que o caminho certo está mesmo defronte os nosso letárgicos olhos.
O tempo passa e aqui continuamos em busca da resolução imaginária, queremos atingir o estado de conclusão mas não temos forças para isso, por isso debitamos palavras ao vento, à espera de do outro lado do abismo alguém já tenha conseguido subir e as apanhe.
Sentimos, mas o que nos traz de bom isso?
Agarrados a ilusões continuamos a pairar acima da realidade, como se isso fosse bom, como se sonhar fosse de facto algo de transcendente e necessário.
Entretanto desta vez escolho o caminho da esquerda, sempre dizem que é dos dois o mais iluminado e sábio.
Até à próxima ilusão...

Bruno:Carvalho

Foto por: Sara Pereira

sábado, 7 de novembro de 2009

TULIPA


E enquanto o meu mundo gira indiferente ao meu desejo por conclusões.
Sigo o teu olhar, beijo a curva dos teus lábios e sorrio, aquele sorriso, aquela pequena peça em falta no puzzle.
Enquanto me concentro na tua beleza que me desconserta, arrepio-me no prazer de contemplar o teu sorriso solto.
Com um brilho no olhar digo-te um breve adeus, sob a forma de uma promessa num corpo inocente de um singela flor branca,
E o sonho torna-se muito maior que a promessa, um caminho desconhecido, por vezes doce outras amargo, apesar de tremer não temo, pois amo, e vivo.
Sim vivo e nem imaginas como é bela é a vida vista aqui de cima.
O teu corpo, o teu abrigo, a tua doçura oculta entre as impressões digitais dos meus dedos, a poesia solta nos teus cabelos e a fragilidade do meu corpo espelhada em ti. Longa se torna a espera quando a doçura do teu beijo aflora aos meus lábios deixando-me órfão de ti.
Bruno:Carvalho

domingo, 1 de novembro de 2009

ESPERA

Nunca ninguém descobriu e explicou o significado do amor.
Se alguém o já tivesse feito talvez tudo finalmente fizesse sentido.
Porque é que farpa após farpa, ferida após ferida, insistentemente continuamos a amar apesar de perceber que tudo é irracional e que é algo que nos destrói?
Porque é que depois de um grande silêncio, quando pensamos que estamos livres e que tudo passou como tudo passa na vida, basta uma palavra para trazer de novo esse sentimento?
Hoje passe a tarde à chuva, pouco preocupado com o facto simplesmente deixei-me estar, como se toda aquela chuva limpasse de mim todo e qualquer sentimento, fizesse parar o bater acelerado do coração, pudesse travar as recordações e as estranhas sensações que as acompanham.
Bastou quatro palavras, palavras banais que agora friamente analiso, chegando como sempre à conclusão que me estou a iludir, que todo este sentimento é mentira, uma ilusão montada pelo meu espírito carente daquele conforto há demasiados anos ansiado.
A noite de Samhain trouxe a chuva, a roda do tempo inicia novo ciclo rumo à luz.
Eu continuarei entretido nas minhas cogitações filosóficas, à espera, resta-me esperar que tudo faça sentido.


Bruno:Carvalho









sexta-feira, 30 de outubro de 2009

OUTONO

Finalmente a folhas começam a cair e as cores de outono enchem a paisagem de bucólicas sensações...
Passamos a vida a lamentar o que não temos em vez de celebrar o que temos...
Que tal darmos um pouco de paz a nós próprios?
"Never seen such beauty..."

domingo, 25 de outubro de 2009

CRIMINAL MINDS

Bem este é um post para vos recomendar uma série. Criminal Minds, alguém por certo já viu, quem não viu que veja pois é uma excelnte série, é daquelas que à 5ª temporada ainda nos consegue manter colados à cadeira, com uma qualidade e com um conjunto de personagens que parece nunca nos deixar de surpreender.
Hotchner e a sua equipa copntinua por aí a perseguir as mentes mais inteligentes e perversas da humanidade, não deixe de ver.

Bruno Carvalho

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

VAZIO

E do sonho ficou a lembrança daquele beijo, como se de facto eu precisasse lembrar e não esquecer.
E desta sensação de vazio com a qual acordei tiro a conclusão quanto à inutilidade dos sonhos, porque teimam tanto eles nos manterem vivos quando a realidade nos mata aos poucos? No final bem sabemos qual dos dois mundos realmente conta, a morte é sempre a solução final...
Agora com o passar das horas a recordação tende a ficar ténue, eu tomo consciência porém que não desaparecerá, não enquanto os meus lábios continuarem a recordar aquele doce sabor, não enquanto o meu corpo continuar a lembrar aquela sensação de prazer, não enquanto as minhas mãos não perderem aquele ligeiro tremor de ansiedade e antecipação.
Tudo isto acontecerá com a firme certeza que na realidade os meus lábios nada provam a não ser a amargura do vazio, o meu corpo verga-se à dor não ao prazer e as minhas mãos continuam a agarrar o nada à minha frente, é tudo uma ilusão.
A dor retorna-me à realidade quando as pontas dos meus dedos se enterram profundamente na carne da palma das minhas mãos.

Bruno:Carvalho

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

RUSH

"I can't help but follow in spite of going insane
For I know you'll swallow the whole of my pain
I'm stepping out of the light to feel what darkness can sow
I stare at the dead red lie... just one glance and I know"...

sábado, 17 de outubro de 2009

CELEBRAÇÃO


Levado pelo texto incrivelmente sincero e sentido que uma grande amiga escreveu e percebendo que por vezes, outros escrevem de facto aquilo que pensamos, resolvi voltar a escrever para vos contar um pouco do meu dia de hoje.
Hoje de manhã acordei meio contrariado, dormi pouco, hoje é sábado era suposto ter dormido descontraidamente até tarde, no entanto tive que levar o meu pai a um funeral de uma pessoa desconhecida da qual não nutro nenhuma sentimento em especial.
Contrariado levantei-me, turvado pela minha certeza que estava a ser injustiçado disparatei a torto e a direito, sem pensar no quanto os meus pais já fizeram por mim, custava-me assim tanto acordar mais um dia cedo por eles? Não não custava.
A pena é só me aperceber destas verdades muito mais tarde, pois não faria muitas das minhas asneiras.
Depois de acordado e conformado que o estava definitivamente e depois de ter deixado o meu pai no tal funeral, preparei-me para enfrentar a dura seca de uma hora sem nada para fazer.
No entanto hoje ao contrário do quem tem sido nos últimos 11 anos da minha vida, optei pela acção à inacção.
Hoje é um dia de celebração, não porque tenha acontecido nada de trasncendente, mas pelo simples facto que estou vivo e de que nos vale estar vivo se não vivemos?
Por isso peguei no meu carro e fui a um supermercado, fui à secção de vinhos e comprei o melhor que lá estava (sim foi caro, mas que interessa isso?). E comprei-o. Porquê? Pelo simples facto de que por vezes simplesmente faz sentido celebrar simplesmente a vida. Quando celebramos com amigos então faz ainda mais sentido.
Esta noite estaremos reunidos os amigos do EnoMoinhos, diversos amigos entre tantos que tenho a bênção de possuir. Vamos celebrar a Barca Velha oferecida ao amigo Paulo Nuno no festejo do seu casamento, vamos celebrar o nascimento da pequena Mafalda, o primeiro rebento do amigo Carlos ou simplesmente vamos celebrar estarmos juntos e vivos, precisamos de mais algum motivo?
Por isso indiferente ao que aquele dinheiro me possa ou não fazer falta num futuro que pode nem sequer chegar, vou celebrar com os meus amigos o momento, o prazer, a hora, deixar fluir os minutos como se fossem os últimos.
E amanhã? Amanhã será um novo dia. No entanto vivo ainda neste sábado dia 17 de Outubro de 2009 e enquanto das colunas da minha aparelhagem brotam as emoções em forma de música dos Ghost Brigade eu sinto-me leve e vivo, simplesmente por aquele medo se ter dissipado um pouco e eu de facto ter-me apercebido que não estou tão só na multidão como pensava estar.
E sinto, afinal sinto que estou vivo e amo, acima de todos eu próprio depois aquelas pessoas que ao longo de uma vida ou simplesmente há um par de anos me acompanham nesta viagem, aquela que não me arrependo nada de ter feito.

Quanto ao texto da minha amiga Rute aqui fica o link http://sentidodosentir.blogspot.com/
vão ler, vale a pena!


Bruno:Carvalho


Foto por: Clara Sousa

LIGHT

I hear the storm inside me growing
Thundering oblivious thoughts
I feel the sweetness, taste de eternity once again
From my sleep I reborn to something different

Can you hear it?
A distant cry coming near now
A lament that silence tore apart
Now I'm a new me, another man in a another skin.

Ando now I see, now I know I'm the light
I always were the light that brought me from below
Now I know I'm my own god
My strength, my will, my power, my love

I mould the morning to a new understanding
Can you follow me? Do you deserve to follow?
If you can't feel you can't understand
Freedom is just a step away but you keep locked inside.

Bruno:Carvalho

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

PODER

Quem nos dá o direito de julgar os outros? O que nos faz pensar mais responsáveis que os outros? Como poderemos comparar o nosso sentido de responsabilidade que se desenvolve de acordo com os nosso valores individuais com o dos outros que têm valores e formas de viver completamente opostas?
Porque será que a maioria das pessoas precisa falar nas costas de outra para ser aceite ou por querer demonstrar que tem razão à frente de outros?
Estaremos assim tão embriagados pelo poder, que cegamos perante a justiça e o direito à liberdade alheia?
Por vezes nas mais diversas situações coloco-me na posição daqueles que considero que falham naquilo ou noutra coisa, ponho-me na sua pele para julgar o meu próprio poder de decisão, será que faria melhor, pior ou igual?
Não faz parte da nossa (pouca) beleza como seres humanos o poder de decidir de forma diferente em situações idênticas?
Nunca poderemos julgar porque vivemos em sistemas de valores e crenças bastante diferentes.
As decisões são diferentes mas não significa que sejam umas certas e as outras erradas.
Vivo acorrentado a uma certa necessidade de aprovação. Por vezes penso como seria provar a sensação de me aprovar a mim mesmo, por vezes provo esse agridoce sabor, poderei no entanto viver lá, longe, sozinho?
No outro dia apercebi-me de como com o recurso à simples força de vontade posso moldar energias e aquilo que me rodeia.
Posso moldar o mundo como barro, para eu caber nele, para tirar dele uma pequena satisfação de poder, embriagar-me, sem pretensões divinas.
Convenhamos no entanto esclarecer que me apercebi disso recorrendo à manipulação maioritariamente de energias e forças negativas, essa sensação deu-me aquele pequeno gosto indefinível na boca, poder mas depois temor, qual o direito de interferir nos outros para proveito próprio?
Daí vem a minha cada vez mais categórica sensação que somos todos sem excepção uma mole de egoístas egocêntricos.
Olho por olho, dente por dente, é a nova fé, é o novo dogma.
No entanto continuamos conscientemente convencidos que de facto possuímos alguma bondade, qualquer que seja a definição que cada um dá a essa palavra marcada a ferro e fogo e sabor a sangue no nosso âmago desalentado ao longo de dois mil anos de História.
Quem nos amparará quando nos aperceber-mos que não existe mais nada a não ser o vazio?

Bruno:Carvalho
2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

ETERNIDADE

Enquanto as minhas palavras não saem mais inspirada e a minha não sai do pântano onde parece estar, vou deixar-vos palavras de outros.
É a letra de uma música de uma banda portuguesa chamada Hyubris que vos convido a conhecer, esta é a terceira faixa do seu segundo álbum recém editado, chamado "Forja".
Infelizmente não achei a música para aqui colocar mas deixo-vos o link para o myspace da banda


Hyubris
"Eternidade"

Mistério... Que paira no ar
Serás Tu?
Quem me chama
E que me encanta!

Olhos, não te vêem
E a carne não te sente

Onde estás?
Eternidade!
Vem buscar-me
Com o teu manto!

Já sinto, os teus braços,
As brumas no cabelo
O respirar de novo
Contigo...

Já sinto, os teus braços,
As brumas no cabelo
O respirar de novo
Contigo...

Vê mais longe a gaivota
Que voa mais alto.

Já sinto, os teus braços,
As brumas no cabelo
O respirar de novo
Contigo...

Já sinto, os teus braços,
As brumas no cabelo
O respirar de novo
Contigo...

Venham gaivotas...
Tempestades
Que por ti
Morrerei...

Para poder nascer de novo...
Para poder nascer de novo...

Para poder nascer de novo...
Para poder nascer de novo.
..

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ANÓNIMO


Com um sentimento de solidão sobre os ombros, parti sob a chuva de Outono, certo que estava vivo, certo que há muito fiz paz comigo sem no entanto me aperceber...
Vida há só uma, porque teimo em deixa-lá passar despercebida?

Bruno:Carvalho
2009

foto por: Pedro Soares


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

TEMPESTADE


E a tempestade veio com o ribombar do trovão, o relâmpago rasgou o céu e a chuva trouxe de novo o odor a terra molhada, enchi os pulmões daquela aroma, baixei-me e toquei a terra, com as mãos ainda sujas de lama, sequei a lágrima que teimou em cair.
Aqui fico, a viver dia-a-dia sem esperar muito do que está para vir...

Bruno:Carvalho

Foto por: Fernando Silva

sábado, 26 de setembro de 2009

PARADISE LOST

Sai este fim-de-semana o novo álbum de mais uma das bandas pertencentes ao meu cardápio musical. É uma banda que me tem acompanhado ao longo dos últimos quinze anos, surgiu na altura em que descobri que o metal era a música que me fazia sentir vivo, pertenciam na altura à chamada trindade do death/doom britânico constituída pelos Paradise Lost/Anathema/My Dying Bride.
"Faith Divides Us - Death Unites Us", é o título do décimo segundo trabalho dos Paradise Lost, qualquer que seja o nosso credo a morte há-de nos juntar, deixo-vos aqui o novo single, o tema título. "Faith Divide Us - Death Unites Us", o regresso em excelente forma dos magos da música melancólica.

Paradise Lost
"Faith Divides Us, Death Unites Us"





quinta-feira, 24 de setembro de 2009

SAÍDA

Finalmente tudo começa a fazer sentido...
Sou muito maior, pensava ser minúsculo mas a minha determinação é gigantesca
Causas perdidas dizes tu...
Existe sempre uma saída se não teimares insistentemente em fechar a porta!

Bruno:Carvalho
2009



terça-feira, 22 de setembro de 2009

PROMESSAS VÃS

Porque continuamos a fazer promessas vãs? Porque insistimos turvados pela paixão a prometer coisas que não poderemos cumprir?
Só servem para passada embriaguez inicial nos sentirmos pequenos e inúteis, ou então para nos rirmos às gargalhadas da nossa própria ignorância.
Porque prometemos ficar, se dentro de alguns dias, meses, ou anos partimos sem dizer adeus, sem olhar para trás?
Porque prometemos mudar quando no fundo nos conhecemos demasiado bem para saber que não o faremos?
Porque prometemos nunca magoar, trair ou enganar, quando temos a certeza que o faremos? Está-nos no sangue, pequenas e estúpidas criaturas, justificamos a tristeza com a nossa eterna necessidade de atenção e aceitação.
Solitários somos, solitários merecemos ser.
Disfarçamos a inveja com o interesse em saber, com a preocupação, mas bem no fundo somos apenas egoístas, o nosso bem estar acima de tudo.
Altruismo? Mais um utopia difundida por dois mil anos de mentiras.
Teimamos em acreditar, não queremos é ver a verdade, a nossa verdade, a melhor entre as milhões de outras verdades.
E assim seguimos rumo ao abismo sorridentes e conformados.

Bruno:Carvalho
2009

domingo, 20 de setembro de 2009

FARTO


Pior do que a sensação de perder uma vez é a sensação de perder sempre. A solidão é a vã loucura de tudo querer e nada ter, tudo se esfuma sob uma cortina de fumo mais ou menos densa.
E eu fico triste e melancólico, sou arrastado, estou acordado mas cego.
Estou farto de mim.
Estou farto de tentar ser diferente mas no fundo ser exactamente igual.
As horas passam, enquanto a raiva fervilha no meu corpo tomo consciência que tudo é culpa minha, pois eu sou responsável pelos meus actos, os meus erros, as minhas decisões...
E teimo em atolar-me no pântano.
Se tiver que vir que venha rápido, estou farto!
Não é um dia bom, que os meus leitores me perdoem.
Hoje é um dia em que o silêncio faz todo o sentido.

Bruno Carvalho

Foto por: Nelson Silva

sábado, 19 de setembro de 2009

ADRIFT


In dire need for truth
I won't prey tonight
I do need redemption
Not another lie
I long to feel, do you have what it takes?

A long road,
Adrift along the path
I crave for home
But forever I will wander
Yes, I do want to know you better

A safe step in the shore
I grab your hand, can't feel fear anymore
Is this the safety they told?
Is this the beginning?
There was no end, how could this begin?

In you I trust, in you I lay the sorrows I bare
Eternity it's never far enough
But my heart still dwells in darkness
Pain is my name,
Hope my disgrace

Can I rely on you?
Would you have the courage to follow
When my only choice is to fall?
Would you have strength to face your own fear?
Let me enter, I'm right here at the doorstep

Maybe there's still hope
Autumn comes sweet and swift
Winter will arrive but in your heart will always be summer

Bruno:Carvalho
2009








sexta-feira, 18 de setembro de 2009

PROMESSA

Apesar da promessa no teu olhar e da confiança no teu sorriso, ambos sabemos que nada mais acontecerá para além de uma possibilidade.
Apesar de tudo isso ser quase um dado adquirido, a imprevisivibilidade da vida deixa-me aquele pequeno espaço para me manter atento e alerta.
Nada é real, tudo é permitido.

Hoje o dia despertou chuvoso e cinzento, a chuva da qual tinha tantas saudades voltou, deu-me especial prazer percorrer os escassos metros entre o carro e o escritório debaixo daquela suave torrente de liberdade.
Quando entrei e vi os meus companheiros de trabalho, cabisbaixos e tristes, permiti-me sorrir interiormente e perceber o quanto somos diferentes, eu consigo ver beleza para além do cinzentismo, eu consigo alegrar-me onde os outro vêem tristeza.
Sentei na secretária enquanto a meu lado a chuva batia no vidro e ao longe as nuvens cobriam sorrateiramente a serra, engolindo nos seus braços etéreos a vegetação ávida por água.
E as palavras jorraram de novo dos meus dedos, a chuva veio e levou o vazio, o teu sorriso desabrochou e trouxe a inspiração, paulatinamente o meu corpo liberta-se, extravasando poesia, recolhendo serenidade e paz.
Tudo tem uma razão para acontecer, estas palavras só poderiam ser sentidas após a chegada da tão ansiada chuva e o regresso do teu sorriso.
E assim corre o dia e a noite chegará, e quando chegar, chegará serena e eu serei acolhido pelo o teu recém nascido sorriso e quebrarei a promessa do teu olhar com um beijo ardente.

Bruno carvalho

Foto por: Maria Salvador

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

FORSAKER

Já que estamos numa de música não podia deixar de passar em claro que os fabulosos Katatonia editam o seu novo álbum entitulado "Night Is The New Day" em Outubro, por isso deixo-vos aqui uma música retirada desse álbum e como poderão ver a genialidade, a emoção, o sentimento, continua tudo lá, chegamos a um ponto de questionar se alguma vez fizeram uma música má.

KATATONIA
"Forsaker"





terça-feira, 15 de setembro de 2009

THE FURY

So I lay the fury in my hands
For they shall not rest until the work is done
No more sorry no more repent
The night shall come eternal

B:C
2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

CHUVA

Sinto falta da chuva, do cheiro da terra molhada, do som das gotas a embater no vidro da janela, sinto falta de estar com a cabeça encostada a esse mesmo vidro com uma chávena de chá na mão enquanto o calor se apodera de mim e a cadência da chuva me faz adormecer.
Sinto falta de a sentir cair sobre mim, de me sentir livre e vivo sob ela, sinto falta do doce Outono e do fiel Inverno.
O sol já cansa, a terra seca, o calor cola-se pegajoso ao meu corpo e ali fico doentiamente molhado de roupas coladas ao corpo, mãos escorregadias e espírito letárgico.
Semi-adormecido na dormência emergente, contemplo triste o meu espírito vazio, a ausência de inspiração dilui-se numa alegoria melancólica ao silêncio e ali fico silenciosamente esperando com a cabeça apoiada nas minhas mãos suadas à espera que a chuva venha e leve toda esta sensação de vazio.


Bruno Carvalho


sábado, 5 de setembro de 2009

PÂNTANO


É a tua vez de jogar, movimenta as peças no tabuleiro, refaz a estratégia, um novo jogo começa não necessariamente onde o outro terminou.
Não existe antídoto para uma vitória, dispostos no terreno somos meros reflexos jamais sonhados, nunca planeados, pensamentos destroçados ao sabor da vontade própria, do alto da nossa presunção pensamos que nos movemos confiantes, que aquele é o passo mais certo a dar a seguir ao outro anterior que nos pareceu um pouco dúbio.
E ficamos de alguma forma invadidos, o nosso corpo como território selvagem desbravado por invasores, descobridores da nossa natureza, nesse momento o amor fica ali, pairando como um fantasma esquecido no campo de batalha, um dado novo, uma nova constante na equação.
Estarrecidos pela aquela nova revelação ficamos inconscientes de que todo aquele novo sentimento nasceu de facto da crueldade daquele sabor amargo que sentimos por vezes na boca e não de qualquer gesto altruísta. Movemo-nos mais facilmente no pântano que se tornou a nossa insignificante vida, por isso aqui continuamos afundados, ignorantes que ali ao lado, à distância de um pequeno passo, corre um rio solto, em forma de sorriso, em forma de palavra atirada descontraidamente sem qualquer outro objectivo ou sentido a não ser o de expressar carinho.
Ali ficamos felizes por estarmos longe da corrente, sem sabermos que somos feitos de corrente, de tempestade, de mutabilidade.
Podemos ser um momento no tempo, uma carcaça com prazo de validade, mas o que nos preenche, o que somos de verdade, não tem validade, não é um momento no tempo mas todo o tempo.
E que chegue depressa o Inverno que os céus desçam em forma de tempestade, para que a lama endurecida pelo sol possa ser dissolvida e nos liberte, pois o jogo recomeça a cada derrota e com o cheiro da terra molhada nota-se já um suave aroma a vitória.

Bruno Carvalho

sábado, 29 de agosto de 2009

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ALPENDRE


Ali ficava ele desde que se conhecia, todas as terças e quintas, sentado no alpendre a ver o tempo passar, com os seus dedos ossudos enrolava com destreza os cigarros, tabaco da mesma marca já há trinta anos.
Cada minuto parecia passar ao sabor de mais uma baforada de fumo, como este se dissolvia no ar, também a sua vida parecia misturar-se com as horas que passava ali.
Aprendeu a conhecer as pessoas na rua, sabia quais viviam há muito ou pouco tempo no bairro, assistiu a partidas para a guerra, a incêndios e roubos, serenamente ali sentado quase não se apercebia que ao fim de cada sétimo dia findava uma semana, ao fim de um trigésimo ou trigésimo primeiro findava um mês que no fim de mais onze ciclos iguais definhava mais um ano.
E assim passou a sua vida naquele rotina de observação cujo o único objectivo era não ter objectivo algum, passou a língua pela mortalha, rolou o cigarro na ponta dos dedos e acendeu, com a mesma destreza de quando havia começado.
Naquela manhã de quinta feira, sentou-se na cadeira de baloiço, enrolou o cigarro e deu a primeira passa, algo diferente se passou, tossicou primeiro ligeiramente e depois disso com cada vez mais intensidade, o ar parecia escapulir-se a cada tossidela, levantou-se alarmado, correu para a cozinha e bebeu um gole de água, aos poucos foi acalmando, a tosse foi desaparecendo, até que finalmente desapareceu, fico ali ofegante, foi à casa de banho e ao olhar para o espelho quase não se reconheceu, dos olhos vermelhos escorriam lágrimas, as faces estavam vermelhas, um vermelho doentio quase roxo, molhou a cara com água fria e trémulo dirigiu-se para a cama e deitou-se.
Sentia-se fraco, a quebra da rotina desorientou-o, sentia-se em pânico, as mãos suavam, o corpo tremia descontroladamente, tentou respirar pausadamente, devagar aos poucos acalmou-se e adormeceu.
Dos sonhos turvos discerniu paisagens desconhecidas, passou-lhe diante dos olhos lugares apenas reconhecidos da tela da TV, sentiu a maresia naquela praia tão bela que vira no domingo passado no documentário sobre a natureza, sentiu nas suas mãos a relva tenra de um estádio de futebol, sentiu a multidão e a vibração do espectáculo, sentiu o seu corpo balançar ao ritmo daquela sua música preferida, olhou em volta e viu corpos descontrolados como seu e em cima do palco viu o seu artista preferido. Viu-se depois no topo da falésia, aquela falésia onde se sonhou apaixonado, onde se imaginou amado e feliz com aquela pessoa que brevemente iria pedir para sair, tinha este plano desde um segundo ano de contemplação, vieram-lhe as lágrimas aos olhos, sentia-se vivo, livre, sensação estranha e tão fora de si, estremeceu e acordou aos soluços... dos seus olhos agora amarelados brotou um novo discernimento, uma nova certeza mordaz, finalmente tinha apreendido a sensação de ter estado trinta anos parado no tempo, tanto contemplou o mesmo que se tornou ele mesmo, a sua vida não tinha recordações para além do fundo da rua trinta e um, as pessoas que recordava não eram mais que os vizinhos Silva e Sousa, nunca havia provado a maresia, nunca havia sentido um toque, nunca havia amparado uma lágrima, ao mesmo tempo outra certeza se formou, esta mais assustadora, esta mais real, esta mais definitiva, apercebeu-se do quanto era tarde demais para tentar ver para além do portão da D. Rosa...
Aturdido deixou-se cair de novo na cama, com dificuldade entrou uma nova golfada de ar no peito, fixou o tecto...
Luís passava todos os dias na rua trinta e um antes de ir para o trabalho e todas as terças e quintas via o velho Antunes sentado na sua cadeira de baloiço, invejava a paz e tranquilidade daquele homem, queria que a sua vida fosse assim parada, sem stress, sem correrias, imaginava as paisagens que aqueles olhos já teriam visto, as sensações que durante toda a sua vida teria recolhido, imagina as mulheres que devia ter amado, ambicionava ser como ele, sempre desejou parar para lhe falar mas nunca teve a coragem.
Nesta quinta feira porém algo estranho se passava pois a cadeira de baloiço jazia ali no alpendre solitária, o espanta espíritos retinia com a brisa da manhã, mas do velho Antunes e do seu cigarro matinal nem sinal, decidiu então fazer daquele o dia que ganharia coragem para falar com aquele velho sapiente.
estacionou na berma e dirigiu-se para a casa, subiu os degraus devagar, gritou para dentro da casa chamando o velho pelo único nome que conhecia, porém de dentro nenhuma resposta lhe foi retribuída, atreveu-se a entrar, divisão a divisão foi chamando pelo velho, entrou na biblioteca e passou os olhos pelos velhos livros corcomidos pelo tempo, o pó acumulava-se em cada canto, pegou numa das estatuetas prostradas numa das prateleiras imaginando de onde teria vindo, de certo de mais uma das viagens do velho Antunes, pousou-a distraidamente, esta tombou, ele porém não a levantou não notando na inscrição made in china embutida na base...
Subiu as escadas rumo ao andar superior, mais uma vez chamou o velho, mais uma vez obteve silêncio, entrou no quarto e lentamente abeirou-se da cama, pediu desculpa pela intromissão, o susto quase o fez tombar quando fixou o olhar vítreo do velho Antunes também este fixo no tecto amarelecido pelo tempo...
Chamou o 112, nada mais havia a fazer, enquanto se dirigia para a rua para esperar os socorristas foi pensando no quanto justo poderia ser o descanso de aquele homem com uma vida cheia, inconsciente da verdade admitiu-se ainda invejar uma vez mais a vida emocionante do homem que deixou que o tempo consumisse o seu próprio tempo.

Bruno Carvalho

Foto por: Pedro Soares

terça-feira, 18 de agosto de 2009

SEMENTES


Quando era criança tinha um passatempo, adorava plantar sementes, cuidá-las e depois com o tempo vê-las crescer.
Os meus amigos gozavam-me, chamavam-me nomes esquisitos, diziam que parecia uma menina, mas eu simplesmente gostava de ver aqueles seres crescerem e desenvolverem-se. A mesma coisa com os animais, quando a minha avó me punha os pintos apenas com dois dias na palma da mão, o meu coração disparava e eu afagava com cuidado aquele pequeno ser, com receio de o apertar de mais, ali ficava a sentir o pequeno coração a palpitar e sorria, sim na minha infância eu sorria, como não houvesse um amanhã.
Fui crescendo, habituado a sentir a vida como algo insubstituível, aprendi a respeitar que todos os seres precisavam de carinho, todos sem excepção.
Na minha adolescência continuavam a chamar-me nomes estranhos, eu não me importava, a vida sorria-me e eu sorria à vida que mais poderia querer.
Um dia descobri a maior das sementes e plantei-a no maior dos jardins, o meu coração.
Conheci o amor, ou antes, conheci a paixão, naquela altura no meu coração cheio de sorrisos e vida, aquela semente germinou forte e saudável.
Ela chamava-se Florbela, ignorando a ironia da situação, fui-me entranhando na sua natureza, o seu cabelo ruivo, reflectia o sol daquele dia ameno de Primavera, aquele dia pareceu o mais quente do ano, agora sorrio ao lembrar aquele dia.
Eu tinha decidido ser jardineiro, aquele apelo das sementes, das plantas a crescer, tinha sido mais forte do que o futuro entre números e dinheiro que o meu pai me vaticinou como certo. Por causa disso saí de casa cedo, parti com futuro incerto mas com vontade de estar longe daquela opressão doentia, precisava de ar, de jardins e cores vivas.
Estava a arranjar um dos canteiros do jardim municipal quando a vi, levava as mão de lado tocando, nas pétalas dos meus gerânios, passeou de flor em flor, até que distraidamente arrancou as pétalas de uma das minhas rosas encarnadas.
Fiquei furioso...
Disse-lhe
- Desculpe, menina, a rosa fez-lhe algo de mal?
Ela olhou-me embaraçada e por um momento as suas faces encheram-se da cor dos seus cabelos, ali naquele sitio e com aquela luz parecia também ela uma rosa.
- Desculpe - disse timidamente
A verdade é que não conseguia ser agressivo mesmo que toda a razão me apoiasse, por isso disse apenas um atabalhoado...
- Ok, mas não volte a repetir a gracinha...
Naquele momento no entanto tudo o que queria é que ela voltasse e repetisse a gracinha.
- Desculpe ter-lhe falado assim tão bruscamente, mas é que as minhas flores são como tesouros para mim, detesto vê-las perder o brilho antes do tempo.
- Não faz mal, a culpa foi minha, vinha tão distraída que nem pensei no que estava a fazer - retomando o caminho virou-se para trás e sorrindo disse - não voltará a acontecer.
Algo no seus olhos me dizia que não seria a última vez que a veria.
Voltei ao meu canteiro e ao meu mundo secreto. Naquele momento, noutro jardim dentro de mim, o portão abriu-se.
Passou-se uma semana, a Primavera, fazia florir o meu jardim, enquanto que os constantes passeios de Florbela faziam as minhas sementes romper a terra.
Aos poucos fomos falando mais, começando pelo clima, acabando na política e no volley que ambos parecíamos gostar tanto.
Aqueles momentos perpassam pela minha mente agora, enquanto que ao longe observo a minha mulher de cabelos de fogo a recolher as primeiras rosas da época.
Continuo a sorrir, as flores continuam ainda a florescer nos meus olhos, embora agora as veja apenas e não as sinta.
Depois de um beijo e de um sorriso, pousou as flores no meu regaço e deu-me uma a cheirar, aliás como era seu apanágio todas as manhãs, virou a minha cadeira de rodas para dentro e entrámos na nossa casa forrada por pétalas pintadas.
Vivia agora na minha prisão, imposta no momento em aquela bala perfurou as minhas costas e se alojou na minha coluna, sorrio ainda, a vida ainda pulsa em mim, apesar de agora não a sentir fisicamente, no entanto vivo-a todos os dias através do olhar de Florbela, através do seu beijo doce e daquele etéreo odor que que todas as manhãs me faz passar por entre as barras da prisão.
Choraria naquele momento se o tempo não tivesse levado já todas as lágrimas, no entanto permito uma ou duas, porque por vezes a felicidade é mostrada através de estranhas coisas.
E valeu a pena?
Sim valeu a pena, valeu a pena salvar a mais bela das flores do meu intimo e interno jardim.

Bruno Carvalho

foto por: Antonio Felix

EXORCISMO

Exorciza os demónios da minha alma Os fantasmas inumanos que consomem a minha carne Liberta-me, perdoa-me. Exorciza o meu corpo com...