segunda-feira, 30 de março de 2009

AS MÃOS


Acordei incerto com sangue nas mãos e fiquei assim especado a olhar como aquele sangue pudesse explicar todo o sentido da minha não vida. Tic-toc, tic-toc, o relógio sussurrava batidas rítmicas, uma melodia insossa num silêncio demasiadamente colérico. Olhei o relógio, nenhuma hora me amparou o olhar e fiquei assim boquiaberto com sangue nas mãos e nenhum olhar em nenhum lugar.
Fuga.
Lembrei-me de fugir e embrenhei-me na escuridão. O abismo. A negridão espelhada numa mordaz atitude de medo. Tic-toc tic-toc. Pára! Deixa-me dormir na verdade ilusória de acordar sem tempo.
O sangue gotejou no chão marmóreo daquele nenhum sítio, olhei o céu (olho o céu demasiadas vezes), imaginei o sonho e despi-o de qualquer arrependimento, apesar de tudo de culpa não vive um homem sozinho.
E Escrevi. Escrevi sem parar até o papel se rasgar e então soube, o sangue, aquele sangue maldito das palavras feridas despojadas pelas impressões digitais das minhas mãos cortadas.
Bruno Carvalho

sábado, 28 de março de 2009

REFÉM

Sentou-se na cadeira do jardim, esticou as pernas e pousou a cabeça na palma das mãos. O fumo do cigarro dissipava-se pela curva dos braços.
Levantou o olhar à altura da linha do horizonte, apetecia-lhe fugir, gritar, apetecia-lhe morrer para renascer de novo, apetecia-lhe odiar porque a dor de amar era demasiado brutal e agonizante, apetecia-lhe perder as memórias, queria ser esquecido…
Enquanto o ar do entardecer entrava no jardim, apagou o cigarro no chão, levantou-se da cadeira e simplesmente ali ficou, a olhar o céu, enquanto o vento arrancava as pétalas das flores e levantava a poeira do caminho, desejou partir com ele, mas ali ficou, parado… Virou-se e parou na soleira da porta, a noite chegava, com ela o sonho, e com o sonho uma voz sumida, um riso abafado pelo silêncio e ali ficou refém das meias palavras, da meia luz e do sabor agridoce do amor...



EXORCISMO

Exorciza os demónios da minha alma Os fantasmas inumanos que consomem a minha carne Liberta-me, perdoa-me. Exorciza o meu corpo com...