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A mostrar mensagens de Abril, 2009

SONHO

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É curioso que quando damos conta da nossa mortalidade apercebemo-nos de quantas coisas ainda queremos realizar antes que o desfecho final chegue.
Normalmente o que a maioria das pessoas nos diz é que devemos arranjar um emprego, uma casa, dinheiro para o futuro tudo o resto são coisas secundárias próprias de uma mente irresponsável que ainda vive num qualquer estádio da infância, mas serão?, nestes momentos questiono-me, que futuro? Poderíamos a certa altura criar uma lista de coisas que sempre nos apeteceram fazer mas que toldados pela censura moral ou social deixamos para trás sob o pretexto de arranjar uns quaisquer rendimentos materiais para um futuro que nem sabemos se iremos viver. Como um grande amiga minha diz e até com uma certa razão, os sonhos são desnecessários, porém penso que sonhar acordado é nesta fase necessário, nem que seja só para nos mantermos no lado correcto da ténue linha da sanidade. Essa mesma amiga, demonstrou que de facto por vezes podemos mesmo conquistar u…

COMPLICAR

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Como um amigo meu costuma dizer muitas vezes, gostamos de complicar o que é fácil.
Passamos a vida a tentar arranjar um sentido para a vida como se isso fosse de facto uma desculpa para sofrermos, passamos a vida a tentar esquecer o que sentimos só porque alguém nos disse uma vez que sentir isso era errado, complicamos, complicamos os sentimentos e depois arranjamos desculpas e bodes expiatórios para as nossas atitudes, seria tão mais fácil, mas contrário à condição humana, deixar as coisas fluirem conforme o que de facto sentimos, não conforme o que nos dizem que devemos sentir. Buscamos desculpas por o mundo não ser justo, por injustamente sofrermos a cada desilusão, mas na verdade queremos sofrer, pois vamos contra o que sentimos, complicamos. Pensamos na morte, mas não pensamos como ela é terminal, como se a morte pudesse fazer esquecer o sofrimento. Sentimos raiva, mas não pensamos como ela nos pode corroer e tornar vazios, e tudo isto porque complicamos. Porque não por uma vez…

SLEEPING SUN

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May the sun sleep forever May the night be my bride May the moon chant an hymn of glory A requiem for my lover's omen
I shall never be free My soul still dwells among the fallen Mourning the departure of faith I will rest upon the remains of hope
May the sun sleep forever May the beauty live in fragile moments May death come to extinguish life As I release my final breath into the night
This is my darkest hour A vision of a sullen soul left astray This is my elegy, my final call My name shall be written in this crumbling wall.

Bruno Carvalho
foto por: grENDel



ABISMO

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Ando de sobressalto em sobressalto sob a falsa capa de uma pretensa segurança.
Permito-me a autênticos saltos de fé, passos no escuro fingindo querer sair dessa escuridão, dessa cegueira auto-imposta. Enquanto mato os sonhos, vendo a alma por uns míseros tostões, só para acalmar a dor, só para me convencer que sou muito mais do que isto, uma sombra, um reflexo opaco no espelho à espera de ser limpo, uma marca na parede do tempo, pronta a ser tapada pelo esquecimento. As palavras sempre me soaram vãs, mesmo as que escrevo. Perante a minha incapacidade de mover a pedra e sair da caverna da minha cobardia, afundo-me na fácil acomodação do meu desespero. Inauguro uma nova noite, à espera que o sono chegue e apague a mágoa de mais um dia, mais um fracasso, mais um desapontamento. Liberto o pensamento à espera de liberdade, como se fosse algo que se pudesse obter sem um preço. Enquanto miro o abismo, penduro-me no limite, provando a resistência do corpo, sorvendo a brisa agreste. A mancha é apag…

SANIDADE

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E ali continuou ele fustigado pelas palavras moribundas.


Porque é que era tão difícil dizer adeus? Porque era tão complicado ter que escolher entre uma verdade conveniente e uma mentira piedosa? Ali estava meio confuso, apanhando faminto as migalhas de atenção atiradas tão friamente, ali estava ainda convencido que a sua missão era íntegra e correcta. Louco! Cego! Continuava a escapar-lhe a verdade de tudo aquilo, queria compreender... Mas se tudo aquilo era falso, se todas aquelas sensações não passavam de ilusões tecidas por uma mente distorcida, porque é que doía tanto? Porque é que tinha a sensação que todo o mundo estava contra ele? Porque é que tinha aquela urgência surda de lutar com todas as forças por algo perdido à partida? Vergado por tantas dúvidas, turvado por tantos sentimentos contraditórios, saltou para a chuva e simplesmente andou... Aquele não era de todo um bom dia, mais do que nunca parecia-lhe que partir era a única decisão com sentido a tomar. Mesmo que depois apenas …

JUNTOS

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Porque é que não me sai da cabeça esta música? Dá voltas e voltas a cada recanto da minha alma. A sua melodia rompe o silêncio, dou comigo muitas vezes a trotear a letra, entranha-se, dá-me a volta, faz-me viajar e no fim deixa-me no mesmo sítio, no ponto de partida.
E eu dou comigo sentado da aragem da manhã, porque me sinto vivo, relaxo, aquela música a subir de intensidade cada nota como uma peça que encaixa perfeitamente no puzzle geral. Lembro-me agora, aquela música, o genérico final de um filme qualquer numa sala escura, aquele ritmo que se confundia com o bater do teu coração sob a minha mão, aquela letra sussurrada suavemente nos meus ouvidos calada pelo meu beijo carente, agora sim descobri o seu significado, a sua cadência como constante da minha vida. Paro frente ao mar no fundo da avenida, a maresia enche-me as narinas de odor teu, aquele aroma, aquela liberdade, retirei os fones dos ouvidos, agarraste a minha mão, estremeci, virei-me e deixei-me levar pela profundidade do…

ELA

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Ele viu-a ali.
Trocaram olhares, trocaram sonhos, trocaram sentimentos, sentimentos que só por si sós não necessitam de palavras, ele viu-a ali parada na meia luz daquele entardecer, a lua cheia levantava-se já na linha do horizonte. Ele afundou-se na profundidade daquele olhar e enquanto se deixava enfeitiçar deixou que a paz invadisse o seu corpo. O sentimento de antecipação crescia, as mãos suavam, o corpo tremia de excitação, tudo o que necessitava era de um beijo, um só beijo para curar toda aquela ânsia todo aquele querer. O tempo parou quando a mão dela tocou na sua face, um novo mundo eclodiu da paixão que se libertou quando os seus lábios tocaram os dele, aquele abraço tornou-se dança, uma dança eterna num eterno salão de estrelas, as palavras saiam abafadas por risos de felicidade, os suspiros chocavam conscientes do prazer, quando finalmente os seus corpos se afastaram e os seus olhos se encontraram de novo, nenhum deles questionou quem era aquele estranho à sua frente, porque …

MORTALIDADE

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Tomou consciência da sua mortalidade.
Para retirar monotonia ao dia-a-dia fez-se vida para entender a morte. Respirou, a noite tornou-se turva pois permitiu-se respirar, como nunca o tinha feito até ali, encheu os pulmões daquela brisa primaveril, respirou devagarinho, tomando nota da realidade do que o rodeava. Viu-se ali, naquela turbe, naquela mole humana sem rumo e sem propósito, viu-se ali desfocado como uma sombra numa fotografia antiga. Viu-se ali perdido sem objectivo. A comunicação obsoleta mudou de palavras para uma série confusa de gestos, os olhares meio turvos confrontados com outros olhares efémeros, olhares tristes e cabisbaixos focados no asfalto. Levantou-se, levantou-se e correu, correu debaixo daquela chuva primaveril, para lavar a alma, pensava para si, para lavar a alma, tentava uma justificação para algo tão natural como correr à chuva, procurava essa justificação porque toda a sua vida lhe tinham dito que correr à chuva é coisa de maluquinhos, por isso, naquele m…

TRAGÉDIA

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E agora aqui estou, morto. Com o testemunho do meu sangue escrito nas estrelas, queimo a restante luz, a escuridão virá, será uma longa noite.
As últimas palavras abandonadas ao meu lado, amaldiçoo o teu maldito disfarce, prefiro ver-te nua do que vestida com essa odiosa mortalha, enquanto a morte se ergue triunfante deixo os meus sonhos à deriva. Uma doce tragédia, as minhas lágrimas geladas nos teus olhos, enquanto o Inverno veste a terra de branco e frio, eu queimo adeus em olhos moribundos. Dou vivas à desolação, finalmente o fim chegou. E enquanto a Norte a tempestade ser ergue firme sobre as ondas, ergo os meus olhos para Sul, onde deixei a luz ardida, a lembrança do amor, a tragédia da dor. Furiosa e implacável vem a crueldade, com ela a doçura do adeus, que bem que a respiramos, nós Homens vestidos em peles de cordeiro, escondemos o lobo cá dentro, enganamos a luz, rasgamos a graça, pois é com ódio que se movem os nossos corações. Por isso ouvi ó mansos e piedosos, do chão nascerá…

ESQUECIDO

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Esquecimento.
A palavra ecoava-lhe na cabeça fazia já algum tempo, a sensação que nada daquilo era ocasional fê-lo indisposto, com o tempo ficou ansioso e incomodado. No entanto o significado da palavra nunca lhe fora estranho. Olhou o relógio na parede, 13 horas, baixou o olhar e desceu os degraus.
Há medida que descia ao nível da linha do horizonte, as paredes vidradas reflectiam uma miríade de luzes, fechou os olhos, toda aquela luz o fazia tonto e incerto, cambaleando foi tropeçando nos degraus até cair, enquanto caía forçou-se a esquecer aquela palavra, mas o chão chegou demasiado depressa e assim partiu com a lembrança e em todo o seu recém formado espírito soube que a morte era só o início...
Bruno Carvalho
Foto por: Gonzales