quinta-feira, 30 de abril de 2009

SONHO

É curioso que quando damos conta da nossa mortalidade apercebemo-nos de quantas coisas ainda queremos realizar antes que o desfecho final chegue.
Normalmente o que a maioria das pessoas nos diz é que devemos arranjar um emprego, uma casa, dinheiro para o futuro tudo o resto são coisas secundárias próprias de uma mente irresponsável que ainda vive num qualquer estádio da infância, mas serão?, nestes momentos questiono-me, que futuro?
Poderíamos a certa altura criar uma lista de coisas que sempre nos apeteceram fazer mas que toldados pela censura moral ou social deixamos para trás sob o pretexto de arranjar uns quaisquer rendimentos materiais para um futuro que nem sabemos se iremos viver.
Como um grande amiga minha diz e até com uma certa razão, os sonhos são desnecessários, porém penso que sonhar acordado é nesta fase necessário, nem que seja só para nos mantermos no lado correcto da ténue linha da sanidade.
Essa mesma amiga, demonstrou que de facto por vezes podemos mesmo conquistar um sonho em pouco dias, basta querer muito, podemos saltar da monotonia e sentir a vida.
O mesmo podemos falar relativamente ao amor, e não falo apenas nas pequenas pulsões e paixões que temos constantemente, que nos fazem ferver o sangue, que nos fazem parecer imortais, falo de outro tipo de sentimento que possui também esse imediatismo e essa urgência, mas que é muito mais do que isso, é acima de tudo uma certeza.
Mais uma vez a sociedade representa um grande factor nisto tudo, como se um conjunto de pessoas pudesse baseado em crenças no mínimo duvidosas impor sentimentos, assim quando encontramos alguém por quem nutrimos esse tipo sólido de sentimentos, devemos de facto tentar sentir primeiro, porque sentir não tem nada de racional.
Alguém me diz, "já tens idade para ter juízo, sabes bem que essa relação não tem futuro", a primeira reacção que tendemos a ter é um franzir de sobrolho e depois dizer, "Como sabes isso? Quem te deu o poder de poderes julgar isso? És tu que estás a sentir isso?". Porém a verdade é que por vezes não dizemos nada disto, e o que acontece de facto é ficarmos mesmo sob a influência nefasta de tais espíritos e aí sofremos, sofremos principalmente pela nossa falta de coragem, e aí completa-se o ciclo, questionamos a nossa mortalidade e finalmente nos apercebemos dela e por vezes isso pode simplesmente ser tarde demais.
É necessário sonhar acordado, pois a luta por esse sonho por diversas vezes vence o medo, acima de tudo vale a pena lutar, mesmo parecendo que estamos a lutar contra o mundo inteiro, mesmo parecendo que a nossa luta é solitária e que nos tomam por loucos, mas serei eu o louco?
Sou eu que amarrado a convicções generalistas, a dogmas impostos, me rasto pela monotonia de uma rotina, agarrado a uma ilusão de um futuro que pode ser simplesmente isso, uma ilusão?
Serei eu louco por não ter medo de amar, quem quer que seja, sem estar preso a promenores de idade, credo ou cor, por querer sair desta melancolia tanta vez resultante de uma mente que não a minha?
Sou eu que vivo escravizado por uma moralidade hipócrita?
Tanto haveria para dizer, mas quando o coração se liberta e as emoções jorram em torrentes desenfreadas simplesmente todas as palavras não são suficientes para demonstrar o que se sente...
Vivi demasiados anos sob o jugo desse falsa realidade, quero libertar-me, quero encontrar paz, quero acima de tudo viver e não ter medo de amar, quero arriscar sem ter alguém ao meu lado que escondido sob uma falsa preocupação me diz, "não és capaz, isso é simplesmente contra a normalidade..."
Que se lixe a normalidade, quem disse que quero ser normal?
Eu quero amar!
Eu quero viver!

Bruno Carvalho


Foto por: Ricardo Fernando Silva

segunda-feira, 27 de abril de 2009

COMPLICAR

Como um amigo meu costuma dizer muitas vezes, gostamos de complicar o que é fácil.
Passamos a vida a tentar arranjar um sentido para a vida como se isso fosse de facto uma desculpa para sofrermos, passamos a vida a tentar esquecer o que sentimos só porque alguém nos disse uma vez que sentir isso era errado, complicamos, complicamos os sentimentos e depois arranjamos desculpas e bodes expiatórios para as nossas atitudes, seria tão mais fácil, mas contrário à condição humana, deixar as coisas fluirem conforme o que de facto sentimos, não conforme o que nos dizem que devemos sentir.
Buscamos desculpas por o mundo não ser justo, por injustamente sofrermos a cada desilusão, mas na verdade queremos sofrer, pois vamos contra o que sentimos, complicamos.
Pensamos na morte, mas não pensamos como ela é terminal, como se a morte pudesse fazer esquecer o sofrimento. Sentimos raiva, mas não pensamos como ela nos pode corroer e tornar vazios, e tudo isto porque complicamos.
Porque não por uma vez deixar o medo, a razão, a complexidade e ser simples, deixar o coração falar mesmo que dele só se perceba um bater acelerado, deixar as mãos tocar mesmo que só nos pareçam tremer, deixar os olhos sorrirem mesmo que deles só pareça que caem lágrimas.
Na simplicade dos pequenos gestos, das pequenas coisas reside a beleza.
A vida é simples, porquê complicá-la?
Bruno Carvalho
foto por: grENDel

sábado, 25 de abril de 2009

SLEEPING SUN


May the sun sleep forever
May the night be my bride
May the moon chant an hymn of glory
A requiem for my lover's omen

I shall never be free
My soul still dwells among the fallen
Mourning the departure of faith
I will rest upon the remains of hope

May the sun sleep forever
May the beauty live in fragile moments
May death come to extinguish life
As I release my final breath into the night

This is my darkest hour
A vision of a sullen soul left astray
This is my elegy, my final call
My name shall be written in this crumbling wall.


Bruno Carvalho

foto por: grENDel




terça-feira, 21 de abril de 2009

ABISMO

Ando de sobressalto em sobressalto sob a falsa capa de uma pretensa segurança.
Permito-me a autênticos saltos de fé, passos no escuro fingindo querer sair dessa escuridão, dessa cegueira auto-imposta.
Enquanto mato os sonhos, vendo a alma por uns míseros tostões, só para acalmar a dor, só para me convencer que sou muito mais do que isto, uma sombra, um reflexo opaco no espelho à espera de ser limpo, uma marca na parede do tempo, pronta a ser tapada pelo esquecimento.
As palavras sempre me soaram vãs, mesmo as que escrevo.
Perante a minha incapacidade de mover a pedra e sair da caverna da minha cobardia, afundo-me na fácil acomodação do meu desespero.
Inauguro uma nova noite, à espera que o sono chegue e apague a mágoa de mais um dia, mais um fracasso, mais um desapontamento.
Liberto o pensamento à espera de liberdade, como se fosse algo que se pudesse obter sem um preço.
Enquanto miro o abismo, penduro-me no limite, provando a resistência do corpo, sorvendo a brisa agreste.
A mancha é apagada, o reflexo é de novo límpido e brilhante.
Bruno Carvalho
Foto por: grENDel

sábado, 18 de abril de 2009

SANIDADE


E ali continuou ele fustigado pelas palavras moribundas.


Porque é que era tão difícil dizer adeus? Porque era tão complicado ter que escolher entre uma verdade conveniente e uma mentira piedosa?
Ali estava meio confuso, apanhando faminto as migalhas de atenção atiradas tão friamente, ali estava ainda convencido que a sua missão era íntegra e correcta.
Louco! Cego!
Continuava a escapar-lhe a verdade de tudo aquilo, queria compreender... Mas se tudo aquilo era falso, se todas aquelas sensações não passavam de ilusões tecidas por uma mente distorcida, porque é que doía tanto?
Porque é que tinha a sensação que todo o mundo estava contra ele? Porque é que tinha aquela urgência surda de lutar com todas as forças por algo perdido à partida?
Vergado por tantas dúvidas, turvado por tantos sentimentos contraditórios, saltou para a chuva e simplesmente andou...
Aquele não era de todo um bom dia, mais do que nunca parecia-lhe que partir era a única decisão com sentido a tomar. Mesmo que depois apenas restasse o vazio, o desinteresse e uma tonelada de esquecimento.

A sanidade era agora um pequeno luxo ao qual não tinha acesso.

Bruno Carvalho

Foto por: rattus

quarta-feira, 15 de abril de 2009

JUNTOS

Porque é que não me sai da cabeça esta música? Dá voltas e voltas a cada recanto da minha alma. A sua melodia rompe o silêncio, dou comigo muitas vezes a trotear a letra, entranha-se, dá-me a volta, faz-me viajar e no fim deixa-me no mesmo sítio, no ponto de partida.
E eu dou comigo sentado da aragem da manhã, porque me sinto vivo, relaxo, aquela música a subir de intensidade cada nota como uma peça que encaixa perfeitamente no puzzle geral.
Lembro-me agora, aquela música, o genérico final de um filme qualquer numa sala escura, aquele ritmo que se confundia com o bater do teu coração sob a minha mão, aquela letra sussurrada suavemente nos meus ouvidos calada pelo meu beijo carente, agora sim descobri o seu significado, a sua cadência como constante da minha vida.
Paro frente ao mar no fundo da avenida, a maresia enche-me as narinas de odor teu, aquele aroma, aquela liberdade, retirei os fones dos ouvidos, agarraste a minha mão, estremeci, virei-me e deixei-me levar pela profundidade dos teus olhos, quando sorriste após o beijo, voltei a colocar os fones e a música continuou a rolar... we belong together...
Bruno Carvalho
~
Foto por: Pedro Sacadura

sexta-feira, 10 de abril de 2009

ELA

Ele viu-a ali.
Trocaram olhares, trocaram sonhos, trocaram sentimentos, sentimentos que só por si sós não necessitam de palavras, ele viu-a ali parada na meia luz daquele entardecer, a lua cheia levantava-se já na linha do horizonte.
Ele afundou-se na profundidade daquele olhar e enquanto se deixava enfeitiçar deixou que a paz invadisse o seu corpo.
O sentimento de antecipação crescia, as mãos suavam, o corpo tremia de excitação, tudo o que necessitava era de um beijo, um só beijo para curar toda aquela ânsia todo aquele querer.
O tempo parou quando a mão dela tocou na sua face, um novo mundo eclodiu da paixão que se libertou quando os seus lábios tocaram os dele, aquele abraço tornou-se dança, uma dança eterna num eterno salão de estrelas, as palavras saiam abafadas por risos de felicidade, os suspiros chocavam conscientes do prazer, quando finalmente os seus corpos se afastaram e os seus olhos se encontraram de novo, nenhum deles questionou quem era aquele estranho à sua frente, porque aquele sentimento era a prova que sempre sempre se haviam conhecido, quando ela sorriu, ele ternamente levou os seus lábios ao ouvido dela e num suave múrmurio disse:
"Por onde tens andado?"
Bruno Carvalho
Foto por: Ugly

segunda-feira, 6 de abril de 2009

MORTALIDADE

Tomou consciência da sua mortalidade.
Para retirar monotonia ao dia-a-dia fez-se vida para entender a morte. Respirou, a noite tornou-se turva pois permitiu-se respirar, como nunca o tinha feito até ali, encheu os pulmões daquela brisa primaveril, respirou devagarinho, tomando nota da realidade do que o rodeava. Viu-se ali, naquela turbe, naquela mole humana sem rumo e sem propósito, viu-se ali desfocado como uma sombra numa fotografia antiga. Viu-se ali perdido sem objectivo. A comunicação obsoleta mudou de palavras para uma série confusa de gestos, os olhares meio turvos confrontados com outros olhares efémeros, olhares tristes e cabisbaixos focados no asfalto.
Levantou-se, levantou-se e correu, correu debaixo daquela chuva primaveril, para lavar a alma, pensava para si, para lavar a alma, tentava uma justificação para algo tão natural como correr à chuva, procurava essa justificação porque toda a sua vida lhe tinham dito que correr à chuva é coisa de maluquinhos, por isso, naquele momento de libertação e êxtase ainda se sentia culpado.
No pico do seu entusiasmo, embateu no destino, só soube que também outros corriam à chuva quando embateu na beleza dela, cambaleou no chão molhado e viu, viu o seu olhar, naquele momento deixaram de existir olhares vazios e despropositados, deixou de existir tempo, pois o tempo não era mais do que uma desculpa para não saltar da roda, sentia-se ali como um risco riscado num gira-discos antigo, e sentia-se bem!
Levantou-se com o corpo dorido mas com a alma lavada, sentiu-se fora da fotografia, a sombra não mais existia, o sorriso que brotou dos lábios dela foi a prova final, girou devagar, olhou o céu, sorriu para si e retomou a corrida, a chuva havia parado mas no seu coração morava ainda um dilúvio.

Bruno Carvalho

Foto por: Pedro Moreira
(visite-o em www.olhares.com)


sexta-feira, 3 de abril de 2009

TRAGÉDIA

E agora aqui estou, morto. Com o testemunho do meu sangue escrito nas estrelas, queimo a restante luz, a escuridão virá, será uma longa noite.
As últimas palavras abandonadas ao meu lado, amaldiçoo o teu maldito disfarce, prefiro ver-te nua do que vestida com essa odiosa mortalha, enquanto a morte se ergue triunfante deixo os meus sonhos à deriva.
Uma doce tragédia, as minhas lágrimas geladas nos teus olhos, enquanto o Inverno veste a terra de branco e frio, eu queimo adeus em olhos moribundos.
Dou vivas à desolação, finalmente o fim chegou.
E enquanto a Norte a tempestade ser ergue firme sobre as ondas, ergo os meus olhos para Sul, onde deixei a luz ardida, a lembrança do amor, a tragédia da dor.
Furiosa e implacável vem a crueldade, com ela a doçura do adeus, que bem que a respiramos, nós Homens vestidos em peles de cordeiro, escondemos o lobo cá dentro, enganamos a luz, rasgamos a graça, pois é com ódio que se movem os nossos corações. Por isso ouvi ó mansos e piedosos, do chão nascerá o novo manifesto, das profundezas se erguerá a justiça e haverá choro e haverá escuridão, pois nós Homens novos respiramos a noite.
A luz da aurora brilhará enquanto o céu testemunhará o estertor da terra e em agonia assistiremos à justa morte do amor.


Bruno Carvalho

Foto por: Mariah

quarta-feira, 1 de abril de 2009

ESQUECIDO

Esquecimento.
A palavra ecoava-lhe na cabeça fazia já algum tempo, a sensação que nada daquilo era ocasional fê-lo indisposto, com o tempo ficou ansioso e incomodado. No entanto o significado da palavra nunca lhe fora estranho. Olhou o relógio na parede, 13 horas, baixou o olhar e desceu os degraus.
Há medida que descia ao nível da linha do horizonte, as paredes vidradas reflectiam uma miríade de luzes, fechou os olhos, toda aquela luz o fazia tonto e incerto, cambaleando foi tropeçando nos degraus até cair, enquanto caía forçou-se a esquecer aquela palavra, mas o chão chegou demasiado depressa e assim partiu com a lembrança e em todo o seu recém formado espírito soube que a morte era só o início...

Bruno Carvalho

Foto por: Gonzales

DON'T BOTHER

Don't mind me, just wandering around drawing circles in the air Don't mind me, nothingness is just a state of mind Don't bo...