RENASCER

Deixou cair a máscara e riu às gargalhas.
Ajoelhou-se e voltou a a sentir a terra como já não a sentisse há anos. Aspirou o aroma das flores, sentiu a alma renovar-se, entrelaçando-se nos ramos verdes das árvores. Encheu o peito de ar e levantou-se.
Enquanto caminhava serenamente pelo caminho de terra, permitiu-se recordar, sentia-se livre pela primeira vez na sua ainda curta vida, sentia-se livre, liberto de qualquer sentimento nefasto, imbuído por aquele espírito renovado fez-se poema e largou os versos no orvalho matinal.
Sentiu-se fundir com os elementos, a leveza do ar, a intensidade do fogo, a força da terra e a fluidez da água, a estes juntou-lhes firmeza do seu espírito e formou uma nova vontade, uma nova ordem das coisas, fez-se pássaro e voou na manhã, fez-se chama e iluminou a noite, fez-se rocha e suportou o Inverno, fez-se onda e varreu a dor da sua alma.

Renasceu.

Uma nova força de vida parecia pulsar das suas veias, os seus olhos brilhavam irradiados pelo fulgor do sol, pareciam brasas aquecidas por um fogo perene.
Só então se conheceu, só então descobriu o sentido de uma vida que até aquele momento lhe parecia fugir entre os dedos, tudo agora parecia no lugar certo, não era mais aquela amalgama distorcida de gestos repetidos e automáticos.
Só agora compreendia o significado do amor, os seus segredos e caminhos misteriosos, a sua relação com a dor e o processo de cura que por vezes o amor acarreta.
Sem máscara e com o rosto ao vento sorriu.
O sol atingia o seu zénite.
Bruno Carvalho
Foto por: Carlos L.

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