GRITO

Sentiu-o formar-se na garganta, a crescer, a ganhar forma, a ganhar cor, a ganhar nome, quando deu por si já o havia libertado, libertara o grito na sala de estudo, no meio das prateleiras meio cheias de pó, meio cheias de livros, as paredes nuas devolveram-lhe um eco, uma memória vaga.
Tremia mas parecia suar, o ar não lhe parecia de todo frio, era apenas uma sensação incómoda de tremura, como se os músculos fossem rasgar a pele e tingir a sala de vermelho, vermelho-sangue, o seu sangue.
Um zumbido persistente pareceu rasgar o silêncio, inclinou a cabeça para tentar perceber de onde vinha, com assombro percebeu que vinha de si, da sua boca aberta, saía agora apenas um fio de som, como se toda a dor tivesse sido libertada, deixando nada mais do que um profano silêncio.
Com os braços junto ao corpo encostou a cabeça na parede, a parede leste com janela virada para o jardim, jardim esse pintado pela brancura das flores de uma cerejeira, respirava ofegante como se o ar ameaçasse desaparecer de repente.
Deslizou com a cabeça suavemente pela parede, levantou o olhar e fixou-o para além do jardim, para a linha do horizonte onde um radioso sol nascia já deixando aqui e ali uns farrapos de nuvens pintadas de um efervescente branco.
Virou-se quando ela entrou.
Naquela manhã vestia um primaveril vestido branco que insinuavam todas as curvas do seu corpo, todas as curvas que ele aprendera a conhecer.
Com uma voz desprovida de qualquer emoção disse-lhe
- Vou-me embora.
- Adeus - a voz assomou-lhe à boca amarga como fel.
Quando ela saiu e bateu com a porta, o pó levantou-se, os livros caíram, as louças tiniram numa cacofonia desorganizada que por momentos permitiu abafar o seu grito transformado agora em gargalhada, lentamente suavizado até ao ponto de sorriso.
Lá fora o vento agitou a cerejeira inundando o chão terroso de branco.

Bruno Carvalho

Comentários

Anónimo disse…
boas.como e ta td....ta mt fixe o blog,continua....um abraço.rafael
Tiago disse…
já li e gostei. Tiago
floods disse…
Não o poderia ter dito melhor, acho ridiculo quando as pessoas dizem que não têm jeito para escrever. Toda a gente tem jeito, basta sair do coração. Apenas há pessoas que conseguem jogar melhor com as palavras do que outras, mas isso não quer dizer que não tenham jeito. :)
Gosto do texto *
joao disse…
Gostei bastante! A ver se leio os outros textos.
dyphia disse…
nao tenho vontade de sair do teu blog! cada texto teu faz-me viajar pla minha propria vida! está magnifico!

bjos

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