quinta-feira, 7 de maio de 2009

ENTARDECER

Naquela tarde amena de Primavera sentou numa esplanada à beira rio. Pediu uma água. Enquanto a empregada navegava eximiamente por entre as mesas como se uma dança sincronizada se tratasse, não conteve um sorriso pois no fundo tudo aquilo parecia no sítio certo, nada poderia ser diferente.
- Obrigado - A empregada sorriu, ele devolveu o sorriso de volta.
Abriu o livro de capa dura que havia trazido, pareceu a companhia ideal para aquele final de tarde, folheou ardentemente as páginas, consumiu as palavras com uma ávida vontade de se fundir com a história, os pensamentos voavam como poemas libertado pela mão incerta do poeta.
Ao fim de dois capítulos, levantou o olhar e fitou o rio, o laranja do pôr-do-sol fundia-se agora nas suas águas calma, os barcos de recreio cruzavam-se lentos e descontraídos com outros mais apressados de pescadores ansiosos por terminar mais um dia de trabalho.
Aspirou o ar, sentiu a maresia trazida pelo vento, e ali, naquele local mesmo seguro ao chão, fez-se leve pensamento e permitiu-se voar.
Porque aquele dia não era um dia, era o dia.
Levantou-se, pagou e foi de novo presenteado com um sorriso, um sorriso daqueles descontraídos e sinceros, não deixou de retribuir.
Enquanto descia a avenida pelo passeio à beira-mar, recordava aquilo tudo, as memórias que tinha de cada espaço e a transformação do mesmo, viu aquela paisagem como fosse a primeira vez, livre daquele cinzentismo atroz, longe daquela dor eterna e daquela gaiola interna em se aprisionou. As cores espalhavam naturalmente numa tela bucólica de um entardecer arrepiantemente belo.
A vida era bela, a cegueira provocada pela sua própria mente, uma cegueira auto-imposta que lhe roubou a alma, que lhe roubou a beleza de um sorriso, havia desaparecido, agora havia a luz daquele bucólico fim de tarde, por vezes havia a chuva miudinha que tanto tinha aprendido a desfrutar, gostava de caminhar à chuva, por isso o fazia sentir vivo. Porém naquele dia estava apenas sol, um sol que agora atingia o seu ocaso e adormecia por detrás do horizonte, para dar lugar a uma ainda pálida lua em quarto-crescente.
Sentou-se no muro à beira-rio e sentiu a brisa nas costas, suspirou. Abriu de novo o livro na página marcada, marcava sempre as páginas, odiava perder-se a meio de uma leitura interessante.
Enquanto saboreava de novo toda a fragância daquela literatura sentiu outro tipo de fragância no ar e percepcionou uma presença a seu lado, levantou os olhos e fitou os olhos de mil-e-uma-noites da empregada.
- Olá. O meu nome é Mariana.
- O meu é Gonçalo - disse surpreendido pelo seu à vontade.
Um brisa mais fria levantou-se inquieta do rio.
- Permite que lhe preencha a solidão por um momento? - disse ela sorridente
- Seria um prazer.
Levantaram-se. Ambos coraram ao tropeçarem nas primeiras palavras um do outro. Sorrisos passaram a a gargalhadas que ecoaram nas redondezas alertando os pacatos transeuntes.
A lua subiu um pouco mais dando as boas vindas sob o seu brilho a ambos.
De mãos dadas perderam-se na noite e ao longe continuou-se a ouvir o eco de gargalhadas.

Bruno Carvalho

2 comentários:

mariana milene disse...

é um texto bem bonito , como todos os teus textos (:
mas gostei em especial do anterior , tem um toque especial .

um beijo

mariana milene disse...

nao tens que agradecer nada (:

beijo

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