segunda-feira, 22 de junho de 2009

CHEIO

Sentiu-se cheio, como há muito não se sentia.
Cheio de paz, cheio de certezas, cheio de coragem, cheio de amor. Deixou para trás a guerra, a incerteza, o medo e a dor, porque tudo finalmente parecia fazer sentido.
Enquanto descia a alameda acendeu o cigarro vespertino, aquele calor enjoava-o, sempre tinha preferido o inverno, os cheiros, o crepitar das lareiras, as noites aconchegadas nos cobertores, principalmente gostava da chuva e daqueles dias quando o céu explodia numa autêntica paleta de cinzentos.
Mas agora era Agosto, o céu explodia tórrido, o ar parecia baço, tudo aquilo provocava nele uma letargia indescritível.
Porém mesmo debaixo daquele calor sentia-se óptimo porque acima de tudo a revolução passava-se dentro dele. Apagado o sabor agridoce do passado, mergulhou em novos sabores e acima de tudo agarrou-se a um sentimento puro de liberdade, finalmente havia descoberto o que era, o que podia ser, finalmente percebeu que não precisava de ninguém para ser ele próprio, face a este pensamento sorriu.
Uma suave brisa soprou por entre os plátanos, respirou fundo, apagou o cigarro.
Aquele sentimento fê-lo sentir-se renascido, como se nos últimos anos tivesse sido outra pessoa, mas afinal era outra completamente diferente, finalmente sabia que o céu era o limite, finalmente preencheu o vazio, aquela lacuna do seu ser, esqueceu aquela voz que constantemente murmurava ao seu ouvido que ele era pequeno, incapaz e medroso, aquela voz que constantemente o deitava abaixo.
O que ouvia agora era o som do mar, aquele mar que adorava ver naquelas frias tardes de inverno em que deixava a cidade para trás e permitia-se ficar só. Não era uma solidão má, era aquela solidão saborosa de sermos só nós e os nossos pensamentos, aquele contacto primordial com a natureza.
Parou no fundo do molhe junto ao farol, os pescadores de fim de semana lançavam as suas linhas ás ondas, na praia os corpos amontoavam-se num ritual que sempre havia considerado demasiado inútil para fazer, mas enfim, cada um tinha a sua liberdade e a sua maneira de viver.
Respirou a maresia, aquele aroma forte entrou nos pulmões e sentiu-se voar.
- Olá!
Virou-se surpreendido
- Olá Rute! - disse visivelmente alegre
- Ufa está um calor! - disse com uma careta de enjoo.
- Sim, demasiado calor - respondeu ele
- Islândia ou Finlândia? - perguntou ela sorrindo
- Hum... - ficou pensativo - Finlândia!
Soltaram ambos uma gargalhada sonora, de braço dado viraram costas ao mar azul, nas suas mentes insinuava-se um doce Inverno em forma de um sentimento que o Verão simplesmente não podia compreender.

Bruno Carvalho

Foto por: Ilidio Pires

2 comentários:

R disse...

:D
:D
:D
:D

dyphia disse...

sabias q eu tb estou inscrita nessa viagem? hihihihihi

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