FUGIR

Passo a vida a fugir.
A fugir do que sinto, a fugir do que sou, a fugir do que quero ser.
Convenço-me inutilmente que é fácil esquecer, que é fácil dizer adeus, pois não é.
Basta olhar de novo nos olhos que aprendemos a gostar, basta ver de novo o sorriso que aprendemos a amar, basta ver passar perto mas ao mesmo tempo longe aquela pessoa que comandada pela a imprevisibilidade e pelo mistério de um sentimento que sempre fugiu à razão dá sentido a uma vida que aos poucos se foi perdendo com o tempo, basta vê-la ali, real, viva, para as resistências caírem, caem as máscaras de ódio colocadas para disfarçar a minha dor, as máscaras de indiferença quando tudo o que queria era estar lá de novo, apagar as palavras ditas, voltar o tempo atrás.
Dói, dói porque tenho a certeza que esse tempo não volta mesmo atrás, os segundos passam incólumes ao meu sofrimento, surdos aos meus gritos.
Depois fica aquela sensação de vazio, o silêncio, aquela sensação de perda que disfarçamos com recordações, agarramo-nos a memórias como se fosse de facto possível voltar a vivê-las.
Perdi a fé em mim, no meu poder de ultrapassar todo e qualquer obstáculo, é mentira, é uma ilusão, continuo esfarrapado esquecido ao canto, continuo agrilhoado por um silêncio que quero
rasgar com gritos.
Aqui fico reconfortado por apesar de pouco acreditar saber quem sou.
Aqui fico à deriva, à procura de mim, à procura de ti, à espera que o teu riso invada de novo o silêncio e que o passado permaneça enterrado num baú perdido num recanto esquecido da minha razão.
Agarro-me à sanidade convencido que ainda a possuo, sou há muito louco, refém de uma paixão que quero compreender mas que sempre me negou explicações.
Aqui fico refém do teu silêncio.

Bruno Carvalho

Foto por: Diogo Sarmento

Comentários

rute disse…
Eu de facto tenho de te dar os parabéns.
Estás a escrever cada vez melhor!
Este texto, independentemente da dor que expressa, está muitissimo bem escrito.
E talvez por isso mesmo passe a mensagem...

O passado não morre em tres dias, tres semanas ou tres meses. Às vezes nem em tres anos. E nem sempre morre. Nem é vital que isso aconteça. If you cant beat them....Não é por cairmos de vez em quando que somos fracos. É a capacidade de nos levantarmos por cada uma dessas vezes que nos define.
dyphia disse…
eu melhor do que ninguém sei o q é estar refém de um silêncio...

fica o conforto de acreditar q um dia irá ser menos ensurdecedor...

bonito texto :D
Bruno Carvalho disse…
Sim acredito que um dia se romperá com outras vozes :)
Obrigado por ambos os comentários, significam muito para mim ;)
beijos

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