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A mostrar mensagens de Julho, 2009

DOZE

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Correm em mim sombras negras, correntes que escorrem pelos meus dedos moldando o mundo, por isso te digo, deves afastar-te de mim sob pena de seres consumida, depois nada mais restará e a noite será eterna.
Afagava sentado no banco do jardim as teclas do telemóvel silencioso, como se aquele pedaço de matéria inerte pudesse matar a sua solidão. O vento levantava o pó do caminho, levava com ele o seu olhar perdido, o olhar fixo num ponto invisível enquanto as pessoas esbarravam numa linha ténue entre ele e o fluído humano imparável. Espremia à sorte as teclas, como se de facto o grande texto revelador da sua condição estivesse na sua mente e disparasse à velocidade da luz para a ponta dos seus dedos cada letra, tudo fazia sentido. Levantou-se com o olhar ainda fixo em lugar nenhum, deu doze passos, exactamente doze passos como cada hora do relógio e seguiu indiferente ao barulho, aos destroços, ao sangue derramado, enquanto o banco de jardim se desfazia sob a lata amolgada e o telemóvel aba…

CAFÉ

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Ainda te permites pensar que alguma vez as coisas poderão ser diferentes?
Ainda esperas mesmo sabendo que nada vai mudar? Louco! As vozes dentro da sua cabeça subiam de tom, a cada minuto que passava, frente ao espelho fitava o reflexo do seu olhar, um deserto de emoções mas ao mesmo tempo um mar revoltoso de sentimentos prestes a explodirem. Estás sozinho... Não compreendes? Sempre o estarás... ahahaha NÃO! O silêncio foi quebrado pelo estilhaçar do vidro quando seu punho embateu em cheio no reflexo do seu rosto. Baixou o rosto enquanto o sangue deslizava da sua mão para o chão. As lágrimas saíram silenciosas, pois naquele momento não eram necessárias palavras, pegou numa toalha e embrulhou a mão, abriu o armário e retirou o estojo de primeiros socorros para tratar a dezena de cortes. Feito o trabalho, mirou de novo o espelho, o seu rosto reflectia-se agora em mil pedaços diferentes. Saiu para a rua, a noite estava fria, puxou as pontas da gola do sobretudo para abrigar o pescoço da brisa …

MÚSICA

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As notas entram soltas nos meus ouvidos. Embalado pelo violino sinto-me baloiçar no espaço vazio, os pés mal tocam o chão, o corpo move-se como um todo, um movimento perpétuo, uma dança eterna. O fascínio pela serenidade cresce, fecho os olhos e finjo não existir tempo, o som sai das colunas directamente ao meu coração, na escuridão não resisto sorrir, mesmo que ninguém veja, adoro sentir-me sorrir, sinto-me vivo ali a navegar naquelas ondas pacíficas, mas no entanto tão revoltosas, como se no silêncio por vezes inconscientemente nascesse uma revolução. Naquele som tímido do piano faço-me sonho e escrevo as palavras certas para descrever-te, cada som faz sentido como se fossem peças achadas há muito perdidas no tempo e agora finalmente devolvidas ao seu puzzle. E naquele momento sei que por muito que acredite que haverá um amanhã, uma nova manhã, um novo dia de sol, mesmo sabendo isso, faço por esquecer pois aquele momento vale a pena ser vivido como momento único. Da mesma forma esqueço…

ANÓNIMO

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Escrevo esta ode à solidão e ao silêncio, de braços abertos no vazio escapo ileso aos olhares alheios.
Assim vivo o meu anonimato, os dias todos iguais, as noites demasiado breves para que os sono faça esquecer que um novo dia virá, e depois mais outro, cada um igual aos demais. Assim vivo ciente da impossibilidade, vivo na urgência de rasgar todo este silêncio com gritos de revolução, tento rasgar esta pele, para crescer uma nova, um nova pele num novo corpo e numa nova mente, uma mais visível, nem que seja só por segundos. Apesar do clamor por uma nova vida, temo a mudança, assim afundo-me no recanto mais escondido de mim como se ficar escondido fosse a solução para minorar a dor, tudo parece tão distante quando passo a mão pelo espelho sujo e miro aqueles olhos vazios, os meus olhos, a minha vida reflectida. E aqui fico a lamentar o destino, como se de facto o destino existisse, como se de facto a nossa vida fosse uma teia tecida por alguém e não um conjunto de decisões pessoais e intr…

PENTAGRAMA

TIAMAT "The Pentagram" In the years of the primal course, in the dawn of terrestrial birth, Man mastered the mammoth and horse, and Man was the Lord of the Earth. He made him an hollow skin From the heart of an holy tree, He compassed the earth therein, And Man was the Lord of the Sea. He controlled the vigour of steam, He harnessed the lightning for hire; He drove the celestial team, And man was the Lord of the Fire. Deep-mouthed from their thrones deep-seated, The choirs of the aeons declare The last of the demons defeated, For Man is the Lord of the Air. Arise, O Man, in thy strength! The kingdom is thine to inherit,' Til the high Gods witness at lengththat Man is the Lord of his Spirit. Aleister Crowley


BRILHO

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O próximo dia será sempre mais brilhante que este.
Depois de cada queda, depois de cada momento mais obscuro, onde na escuridão descobrimos quem somos e do que somos feitos, depois de cada dúvida nasce uma nova certeza. Naqueles momentos em que vejo o esquecimento aproximar-se, luto para saber quem sou, após cada facada descubro que afinal estou vivo e que sou forte. Aquilo que nos define é mesmo a força para ultrapassar cada momento mau, pois momentos maus sempre os haverá, é aprender com cada passo atrás para reforçar a certeza dos passos para a frente, é tomar consciência que a dor será sempre uma consequência de amar, que sentir essa dor fará sempre parte do processo de aprendizagem e cura, somos definidos pelo que sentimos, admitir o erro mesmo que só nos apeteça é culpar um mundo que não passa de uma variante subjectiva constituída por milhares de acções. Falhamos, julgamos, agonizamos, mas depois renascemos, para tomar novas decisões, voltaremos a falhar mas após a próxima falha te…

FACA

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Ontem adormeci com o pensamento na minha cabeça que a minha vida é um fracasso, um conjunto de incongruências e mal entendidos. Apesar do esforço para não gritar lá adormeci sob pena de o corpo ficar demasiado cansado para se levantar se por acaso o sol nascesse de novo nesta manhã.
Minutos antes a olhar para a superfície polida da faca pensava soturno sobre o efeito daquele metal entrar na carne, será que sangraria?, Saberia dizer se estava vivo, quando a dor entrasse sob a pele e todo aquela adrenalina disparasse o corpo para uma forma de êxtase quase demente? Pousei a faca, apesar de o desejo ser quase insuportável. Afinal o sol nasceu mesmo esta manhã, e como havia dormido apesar do pensamento nefasto, o corpo não acordou cansado, mas acordou da mesma forma funesta, o suave nevoeiro não apaga a sensação pegajosa do calor, este cola-se à minha pele e tudo o que apetece é vomitar, não sou aquele espasmo físico de alivio, mas também vomitar tudo o que sou e fui até ao momento. A percepçã…

TEMPO

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Pousou o relógio em cima da mesa e saiu.
Hoje iria correr sem tempo, livremente, deixar-se embalar ao ritmo do cansaço e do bater do coração. O tempo naquela manhã não era uma prioridade, aliás em todo aquele dia queria despir-se daquela sensação de ter sempre aquele objecto no pulso, e de constantemente olhar para ele. Começou a corrida devagar, ritmo lento, mais passo acelerado do que corrida, meteu-se pelo caminho terroso rumo ao bosque, o terreno inclinou-se forçando-o a moderar ainda mais o passo, entrou no bosque de bétulas e parou junto de uma delas para recuperar o fôlego, encostou-se ao tronco e deixou-se deslizar pela casca macia rumo ao chão. Sentado olhou para cima, para o topo daquela árvore que tinha sobrevivido ao tempo e até mesmo ao espaço, pois tudo naquele sitio tinha ainda um sabor selvagem, ainda não conspurcado pelos dedos gananciosos da humanidade. Notou nos ramos que se agitavam ao sabor do vento, sem tempo, num movimento perpétuo dado pelas imprevisibilidades da br…

INSÓNIA

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Mais uma noite sem dormir...

Talvez se eu disser isto o sono venha. Amo-te. Da mesma forma e intensidade desde o principio... Pode parecer-te estranho devido a algumas atitudes minhas, devido a algum distanciamento e frieza, admito ter sido algumas vezes injusto, mas tudo foi devido ao que sinto por ti.
Assustei-me com o sentimento, com a intensidade do mesmo, assustei-me com a dor que perder-te provoca, cada vez que te sinto longe tudo parece deixar de fazer sentido. Nada disto é racional e não ter o controlo sobre mim também me assusta. Só quero que saibas que não sou o inimigo, preciso que acredites em mim, nunca fui homem de muitas palavras e para mim uma basta para te definir, amor... eis a palavra que te dá sentido. Quando na passada quarta-feira te vi, a minha máscara de indiferença caiu e todo começou a fazer sentido de novo, o teu sorriso, um sorriso que num segundo valeu mais do que mil palavras. De nada vale tentar enganar-me neste momento necessito de ti e do teu sorriso, és uma…

OBSCURIDADE

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Aqui continuo eu percorrendo os mesmos passos, dizendo as mesmas palavras, seguindo o mesmo caminho rumo a nenhures.
Aqui continuo eu aprisionado quando me julgava livre, aqui continuo eu a lembrar, quando queria apenas esquecer. Aqui continuo eu ao sabor do vento, perdido nos altos e baixos de uma vida demasiado previsível, aqui continuo eu pequeno quando me julgava maior do que esta dor. Busco a racionalidade e o controlo sobre mim, encontro só a previsibilidade de deixar me arrastar vez após vez por um sentimento perdido à partida.~ De quem a culpa senão apenas minha? Digo que quero esquecer mas as palavras soam-me vãs, digo que odeio mas o meu corpo diz-me outra coisa diferente, digo que sou forte mas pareço cada vez mais vazio, uma sombra, um pálido reflexo do que sou. Neste momento enquanto o Verão se arrasta com a sua letargia, espero em vez de procurar, o ponto final. Termino ainda todos os sonhos com reticências, à espera que alguém me diga que tudo isto é fantasia e que a realidade…