segunda-feira, 27 de julho de 2009

DOZE


Correm em mim sombras negras, correntes que escorrem pelos meus dedos moldando o mundo, por isso te digo, deves afastar-te de mim sob pena de seres consumida, depois nada mais restará e a noite será eterna.

Afagava sentado no banco do jardim as teclas do telemóvel silencioso, como se aquele pedaço de matéria inerte pudesse matar a sua solidão.
O vento levantava o pó do caminho, levava com ele o seu olhar perdido, o olhar fixo num ponto invisível enquanto as pessoas esbarravam numa linha ténue entre ele e o fluído humano imparável.
Espremia à sorte as teclas, como se de facto o grande texto revelador da sua condição estivesse na sua mente e disparasse à velocidade da luz para a ponta dos seus dedos cada letra, tudo fazia sentido.
Levantou-se com o olhar ainda fixo em lugar nenhum, deu doze passos, exactamente doze passos como cada hora do relógio e seguiu indiferente ao barulho, aos destroços, ao sangue derramado, enquanto o banco de jardim se desfazia sob a lata amolgada e o telemóvel abandonado tocava a rebate.

Assim seja.
Será então eterna a noite, enquanto juntos vaguearmos por este lugar disperso nos sonhos, continuarão a fluir de mim negros gestos, e nos meus olhos as lágrimas secarão, pois na escuridão tudo é uniforme, restar-me-ão os gritos e a insanidade da paixão.

Bruno Carvalho

Foto por: carla sousa

quarta-feira, 22 de julho de 2009

CAFÉ

Ainda te permites pensar que alguma vez as coisas poderão ser diferentes?
Ainda esperas mesmo sabendo que nada vai mudar? Louco!
As vozes dentro da sua cabeça subiam de tom, a cada minuto que passava, frente ao espelho fitava o reflexo do seu olhar, um deserto de emoções mas ao mesmo tempo um mar revoltoso de sentimentos prestes a explodirem.
Estás sozinho... Não compreendes? Sempre o estarás... ahahaha
NÃO!
O silêncio foi quebrado pelo estilhaçar do vidro quando seu punho embateu em cheio no reflexo do seu rosto. Baixou o rosto enquanto o sangue deslizava da sua mão para o chão.
As lágrimas saíram silenciosas, pois naquele momento não eram necessárias palavras, pegou numa toalha e embrulhou a mão, abriu o armário e retirou o estojo de primeiros socorros para tratar a dezena de cortes. Feito o trabalho, mirou de novo o espelho, o seu rosto reflectia-se agora em mil pedaços diferentes.
Saiu para a rua, a noite estava fria, puxou as pontas da gola do sobretudo para abrigar o pescoço da brisa cortante. Deambulou por horas pelas ruas desertas, o vento soprava forte, adicionando uivos à cacofonia distante do pouco trânsito, em volta dos seus pés as folhas mortas rodavam como pequenos tornados, parecia impedir-lhe que avançasse como se previssem a desgraça.
Subiu a pequena colina rumo ao castelo, gostava sempre daquele local para reflectir, para pôr a as ideias no sitio, embora naquele dia mais do que nos outros as vozes não permitiam o arrumo destas.
Dirigiu-se à torre norte e subiu às ameias, e ali ficou, fragilmente equilibrado sobre o abismo, de mãos nos bolsos do sobretudo, o vento frio infligia dor no seu rosto, e a mão ferida começava agora a latejar, sinal do nascimento de nova dor.
- Bela noite para saltar não?
Sobressaltou-se desequilibrando-se e quase caindo no vazio.
- Assustei-o? - A voz era aveludada, doce mesmo.
- Costuma andar aí na noite em silêncio a assustar pessoas? - perguntou algo irritado, virando-se para ela.
Da penumbra saiu uma mulher, vestia de negro, o cabelo negro e os olhos escuros faziam-na parecer irreal, como fosse um fantasma, fumava um cigarro aromático, o cheiro a baunilha invadiu-lhe o nariz, tossicou ligeiramente.
- Então, vai saltar ou não? - Perguntou num tom ligeiro de desafio
- O que lhe interessa? - respondeu ele soturnamente.
- Nada, perguntei por curiosidade apenas - riu-se baixinho.
Ele desceu das ameias e sentou-se nelas virado para ela, sorria deliciada.
- Vim apenas clarear as ideias, tem um cigarro?
- Andou ao murro às paredes - disse-lhe enquanto lhe estendia o cigarro olhando para a sua mão ligada.
- A um espelho mais especificamente.
Ela riu-se.
- Assustou-se com o que viu?
- Não - respondeu lentamente - Assustei-me com o que não vi...
Um silêncio incomodativo caiu entre eles.
Levantando o rosto, e com um sorriso no rosto perguntou-lhe.
- Quer ir beber um café?
Ela sorriu e disse
- Porque não? Hoje parece que não tenho mais ninguém para assustar.
Riram-se os dois e desceram as escadas, depois a colina, desceram em silêncio assimilando cada pormenor de cada um sem no entanto proferir palavra, avaliavam-se.
Entraram na avenida junto ao rio.
Ele quebrou o silêncio.
- Acredita em acasos?
Ela olhou-o curiosa.
- Dificílmente poderei acreditar depois de hoje.
- Porque diz isso?
- Pensava na inutilidade da minha vida quando estava em cima das ameias daquela torre e o vi do outro lado. Porém quando o vi tudo fez sentido, estava mesmo disposta a dar o passo em frente, mas naquele momento apercebi-me do quanto a vida de facto ainda faz algum sentido. Acha que alguma coisa acontece por acaso?
- Não de facto nada acontece por acaso... - respondeu-lhe baixo e pausadamente e por uns minutos ficou pensativo...
- Mas ainda não nos apresentámos formalmente, não nos podemos tratar meramente como sombra um e sombra dois - riu-se divertida.
- De facto.
- O meu nome é Maria
- Prazer em conhecer-te Maria, eu sou o Samuel - e estendeu-lhe a mão.
O toque foi breve, mas deu para ambos estremecerem internamente. Algo desajeitadamente e meio corado disse.
- E se fossemos então a esse cafézinho, com este frio vem mesmo a calhar.
Entraram no café e deixaram para trás a noite e o vento frio, no entanto naquele momento estavam ambos longe de estarem frios. Dentro deles ardiam um lume brando recentemente aceso.
O tempo passou, o café passou a chocolate quente, as tímidas palavras transformaram-se em alegres diálogos e longas risadas, o corpo aquecido agora juntava-se à alma em brasa. O serão ia longo por isso era tempo de regressar, prostrados frente a frente diante da porta do bar, falaram ao mesmo tempo.
- Bem, prazer em conhecer-te - Soltaram uma gargalhada sonora
Partindo do distante aperto de mão arriscaram ambos o abraço, relaxaram ao perceber o quanto estavam ambos soltos e leves, quentes...
- Bem Maria, espero que não continues a assustar por aí o pessoal a meio da noite
- Temo que os meus passeios nocturnos tenham acabado - pensativamente disse - sim definitivamente acabaram.
- Adeus Samuel
- Adeus Maria
Enquanto regressava a casa sentia-se completamente cheio, com o tempo apercebeu-se que as vozes haviam desaparecido, por isso resolveu verbalizar em voz alta o que sentia
- Sozinho dizias? Estou muito longe de estar sozinho!

Bruno Carvalho

Foto por : Thiago Reis

domingo, 19 de julho de 2009

MÚSICA

As notas entram soltas nos meus ouvidos. Embalado pelo violino sinto-me baloiçar no espaço vazio, os pés mal tocam o chão, o corpo move-se como um todo, um movimento perpétuo, uma dança eterna.
O fascínio pela serenidade cresce, fecho os olhos e finjo não existir tempo, o som sai das colunas directamente ao meu coração, na escuridão não resisto sorrir, mesmo que ninguém veja, adoro sentir-me sorrir, sinto-me vivo ali a navegar naquelas ondas pacíficas, mas no entanto tão revoltosas, como se no silêncio por vezes inconscientemente nascesse uma revolução.
Naquele som tímido do piano faço-me sonho e escrevo as palavras certas para descrever-te, cada som faz sentido como se fossem peças achadas há muito perdidas no tempo e agora finalmente devolvidas ao seu puzzle.
E naquele momento sei que por muito que acredite que haverá um amanhã, uma nova manhã, um novo dia de sol, mesmo sabendo isso, faço por esquecer pois aquele momento vale a pena ser vivido como momento único. Da mesma forma esqueço o tempo quando pleno de esperança beijo os teus lábios, quando tremes sob a minha mão, um arrepio conhecido, um arrepio reconhecido...
Tremem agora as minhas mão ao recordar a profundidade do teu olhar e enquanto marco com nostalgia as palavras no papel, a música faz-se hino ao amor.
E adormeço, cabeça deitada sob a mesa, espírito ancorado num sonho qualquer, um sonho daqueles que só a nova noite apaga, daqueles que ficam como as memórias dos teus beijos marcados na minha pele, aquela minha segunda pele que visto quando o vazio se faz companheiro fiel, quando por força maior me faço assassino e cheio de esperança mato a solidão.
Espero-te lá onde a música se faz hino ao amor, uma sinfonia de novos tons na alvorada de um novo dia.

Bruno Carvalho

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ANÓNIMO

Escrevo esta ode à solidão e ao silêncio, de braços abertos no vazio escapo ileso aos olhares alheios.
Assim vivo o meu anonimato, os dias todos iguais, as noites demasiado breves para que os sono faça esquecer que um novo dia virá, e depois mais outro, cada um igual aos demais.
Assim vivo ciente da impossibilidade, vivo na urgência de rasgar todo este silêncio com gritos de revolução, tento rasgar esta pele, para crescer uma nova, um nova pele num novo corpo e numa nova mente, uma mais visível, nem que seja só por segundos.
Apesar do clamor por uma nova vida, temo a mudança, assim afundo-me no recanto mais escondido de mim como se ficar escondido fosse a solução para minorar a dor, tudo parece tão distante quando passo a mão pelo espelho sujo e miro aqueles olhos vazios, os meus olhos, a minha vida reflectida.
E aqui fico a lamentar o destino, como se de facto o destino existisse, como se de facto a nossa vida fosse uma teia tecida por alguém e não um conjunto de decisões pessoais e intransmissíveis, é portanto minha responsabilidade viver e não esperar que os fios para mim tecidos sejam mais favoráveis num futuro distante que pode não passar de um sonho.
Escrevo poemas, alegorias a uma mulher de sonhos, abraços invisíveis, regaços de um fino ar, atolado na esperança faço-me filho pródigo do desespero e ali fico prostrado perante o medo de ser eu próprio, toldado pela escuridão da ignorância.
Nos meus braços vazios embalo essa mulher, esse amor perene, clamo pela luz no entanto continuo com medo de sair da escuridão.

Bruno Carvalho

Foto por: Diogo Bessa

quarta-feira, 15 de julho de 2009

PENTAGRAMA

TIAMAT
"The Pentagram"
In the years of the primal course,
in the dawn of terrestrial birth,
Man mastered the mammoth and horse,
and Man was the Lord of the Earth.
He made him an hollow skin
From the heart of an holy tree,
He compassed the earth therein,
And Man was the Lord of the Sea.
He controlled the vigour of steam,
He harnessed the lightning for hire;
He drove the celestial team,
And man was the Lord of the Fire.
Deep-mouthed from their thrones deep-seated,
The choirs of the aeons declare
The last of the demons defeated,
For Man is the Lord of the Air.
Arise, O Man, in thy strength!
The kingdom is thine to inherit,'
Til the high Gods witness at lengththat
Man is the Lord of his Spirit.
Aleister Crowley




sábado, 11 de julho de 2009

BRILHO

O próximo dia será sempre mais brilhante que este.
Depois de cada queda, depois de cada momento mais obscuro, onde na escuridão descobrimos quem somos e do que somos feitos, depois de cada dúvida nasce uma nova certeza.
Naqueles momentos em que vejo o esquecimento aproximar-se, luto para saber quem sou, após cada facada descubro que afinal estou vivo e que sou forte.
Aquilo que nos define é mesmo a força para ultrapassar cada momento mau, pois momentos maus sempre os haverá, é aprender com cada passo atrás para reforçar a certeza dos passos para a frente, é tomar consciência que a dor será sempre uma consequência de amar, que sentir essa dor fará sempre parte do processo de aprendizagem e cura, somos definidos pelo que sentimos, admitir o erro mesmo que só nos apeteça é culpar um mundo que não passa de uma variante subjectiva constituída por milhares de acções.
Falhamos, julgamos, agonizamos, mas depois renascemos, para tomar novas decisões, voltaremos a falhar mas após a próxima falha teremos o conhecimento da anterior.
Ontem descobri o meu brilho.
Descobri que de nada vale continuar a vítimizar-me por algo que sempre foi responsabilidade minha, a minha formação como ser humano, a minha personalidade como ser autónomo, ninguém mais que eu é responsável por estes factores, as minhas acções serão sempre responsabilidade minha, fui portanto vítima de mim próprio, libertei-me.
As asas agora já recompostas poderão de novo voar.
Pois posso fazer a diferença, não sou invisível, possuo um brilho, uma força, possuo uma confiança e uma fé no que sinto, no que quero fazer e no que fiz.
Tenho fé em mim e naquilo que acredito.
Por isso não sou mais um, sou único, um ser único no meio de outros tantos seres únicos.
Queres compreender? Queres descobrir? Queres saber porque faço dos meus poemas, histórias abertas de sentimentos demasiado grandes para poderem ser explicados por palavras faladas?
Queres saber o que reside por detrás destes olhos castanhos, que por vezes vão de lagos gelados a fogos eternos?
Atreve-te, mergulha no desconhecido, dá um passo na noite sem medo de cair, só pelo gosto de descobrir, arrisca.
Se preferires chorar no teu canto, se preferires viver de ilusões e de medos, digo-te nunca serás tu própria.
Custa muito acreditar?

Bruno Carvalho

Foto por: honey

sexta-feira, 10 de julho de 2009

FACA

Ontem adormeci com o pensamento na minha cabeça que a minha vida é um fracasso, um conjunto de incongruências e mal entendidos. Apesar do esforço para não gritar lá adormeci sob pena de o corpo ficar demasiado cansado para se levantar se por acaso o sol nascesse de novo nesta manhã.
Minutos antes a olhar para a superfície polida da faca pensava soturno sobre o efeito daquele metal entrar na carne, será que sangraria?, Saberia dizer se estava vivo, quando a dor entrasse sob a pele e todo aquela adrenalina disparasse o corpo para uma forma de êxtase quase demente?
Pousei a faca, apesar de o desejo ser quase insuportável.
Afinal o sol nasceu mesmo esta manhã, e como havia dormido apesar do pensamento nefasto, o corpo não acordou cansado, mas acordou da mesma forma funesta, o suave nevoeiro não apaga a sensação pegajosa do calor, este cola-se à minha pele e tudo o que apetece é vomitar, não sou aquele espasmo físico de alivio, mas também vomitar tudo o que sou e fui até ao momento.
A percepção que se calhar estou prestes a rebentar, leva-me ao motivo como conseguimos por vezes disfarçar de tal forma o mau estar que nos convencemos estar bem, e ali andei no fio da espada inconsciente que poderia cair para um dos lados.
E caí de novo para o lado errado.
Quando acordo assim aterrado pelo peso da solidão, tudo o que me resta nas seguintes horas é aguardar, esperar o sentimento não se amplie, esperar que de facto alguém vai notar e que afinal não sou assim tão invisível, que afinal não estou assim tão sozinho, que afinal sou eu que não vejo, que apesar de ter muito continuo a pensar não ter nada.
E assim ontem apeteceu-me rasgar a pele só para ver à medida que o sangue escorresse para o chão que nele corria também vida.
Enquanto a humidade das lágrimas aflora já aos meus olhos, olho pela janela para o horizonte baço, ciente que sou só um momento no tempo, e que apesar de tudo nada pode ficar pior do que está.
E quando o silêncio apaziguador da morte vier, rápido e limpo, não ficará memória sobre a terra de uma negra sombra com forma humana, tudo ficará desfeito, mesmo as palavras tão apaixonadamente escritas numa folha branca, abandonada na escuridão de um quarto sem janelas.

Bruno Carvalho

Foto por: Pipia

domingo, 5 de julho de 2009

TEMPO

Pousou o relógio em cima da mesa e saiu.
Hoje iria correr sem tempo, livremente, deixar-se embalar ao ritmo do cansaço e do bater do coração.
O tempo naquela manhã não era uma prioridade, aliás em todo aquele dia queria despir-se daquela sensação de ter sempre aquele objecto no pulso, e de constantemente olhar para ele.
Começou a corrida devagar, ritmo lento, mais passo acelerado do que corrida, meteu-se pelo caminho terroso rumo ao bosque, o terreno inclinou-se forçando-o a moderar ainda mais o passo, entrou no bosque de bétulas e parou junto de uma delas para recuperar o fôlego, encostou-se ao tronco e deixou-se deslizar pela casca macia rumo ao chão.
Sentado olhou para cima, para o topo daquela árvore que tinha sobrevivido ao tempo e até mesmo ao espaço, pois tudo naquele sitio tinha ainda um sabor selvagem, ainda não conspurcado pelos dedos gananciosos da humanidade.
Notou nos ramos que se agitavam ao sabor do vento, sem tempo, num movimento perpétuo dado pelas imprevisibilidades da brisa, aspirou o aroma, escutou o restolhar das folhas umas contra as outras, fechou os olhos, quando os voltou a abrir, levantou-se e prosseguiu a corrida.
Para além do bosque havia um pequeno lago de águas calmas e cristalinas, naquela época do ano as aves migratórias faziam delas poiso obrigatório, dando aquele pequeno espelho um aspecto ainda mais agitado, pois duplicava a população de aves sendo a concorrência maior.
Notou num casal de cisnes negros, estes eram residentes permanentes, habituado a vê-los tantas vezes até um nome para ambos inventou, Dalila e Sansão, assim eram os nomes daqueles pacíficos cisnes. Notou neste dia porém uma diferença na forma de duas miniaturas de pêlo cinzento, navegavam junto aos pais, atentos a todos os movimentos. Parou para apreciar a cena e sorriu.
E ali ele ia subida após subida, nas descidas mais rápido, ia correndo sem tempo sem qualquer pretensão a não ser correr, exercitar os músculos, encher o peito de ar, observar a natureza e sentir a força dos elementos. Mas mesmo sem relógio o tempo passa e aproximava-se já o sol do seu zénite, quando entrou de novo em casa.
Distraído viu as horas no relógio pousado na mesa, sorriu, era mais forte que ele aquela obsessão pelo tempo.
Vinha suado mas completamente satisfeito, a sua sensação de bem estar amplificou-se quando Sofia a sua companheira lhe deu um beijo caloroso de boas vindas.
- Humm, que boa recepção - disse-lhe ele - Vou tomar um banho queres vir? - e fez um sorriso maroto.
- Isso é um convite muito interessante -beijou-o novamente - Aceito...
De repente a porta das traseiras bateu com estrondo na parede, o silêncio estilhaçou-se enquanto um grito estridente enchia a divisão.
- Papá, papá, vi um esquilo, papá, era grande
- Calma calma pequeno explorador, conta lá isso - e abraçou o filho esquecendo-se que estava de facto todo suado.
O pequeno Filipe contou com excitação o seu encontro imediato com o esquilo, os seus olhos verdes, herança da mãe, brilhavam de excitação, os seus caracóis de um vermelho quase fogo, eram a sua própria herança, após a narração de uma aventura cheia de pequenos sorrisos e risos histéricos acalmou, olhou para a cara de espanto dos pais, e baixou a cabeça com vergonha.
Sofia pegou-lhe no rosto e beijou-o na testa.
- Vá vai lá outra vez atrás do teu terrível esquilo que o teu pai tem que tomar banho.
- Sim mamã - e saiu disparado rumo ao jardim de novo.
- Bem onde íamos mesmo? Parece que me tinhas convidado para um banho...
- Ah, sim sim recordo-me disso, e num gesto pegou-a ao colo e levou-a rumo à casa de banho.
Debaixo do chuveiro enquanto percorria suavemente a linha das costas da mulher, imaginou o quanto o tempo o tinha escravizado ao longo dos anos. naqueles últimos meses após ter visto a morte tão perto, fizeram-lhe ver o quanto o tempo por vezes é tão insignificante e ao mesmo tempo importante pois momentos como aquele tinham de ser vivido intensamente.
Fora-lhe dada uma segunda oportunidade, agora apreciava cada riso do seu filho como se fosse o último, cada beijo da sua mulher como fosse o primeiro e o mais intenso, tinha-os, tinha a sua vida, porquê tanta pressa?
- Em que pensas? - perguntou-lhe Sofia
- Em nada amor - e ao mesmo tempo que a beijou brindou-a com um sorriso
- Amo-te Sofia
- Também te amo muito!
E ali ficaram abraçados a sentir a água escorrer pelos seus corpos, plenamente satisfeitos, plenamente conscientes de não serem apenas um momento no tempo, mas serem sim muito maiores do que o próprio tempo.
Cada novo dia era uma benção, uma nova oportunidade de desfrutar do momento, assim sem pressa de outro dia, assim sem saudades de um futuro distante e ainda disforme.

Bruno Carvalho

Foto por: nuno chacoto

sexta-feira, 3 de julho de 2009

INSÓNIA


Mais uma noite sem dormir...

Talvez se eu disser isto o sono venha.
Amo-te. Da mesma forma e intensidade desde o principio... Pode parecer-te estranho devido a algumas atitudes minhas, devido a algum distanciamento e frieza, admito ter sido algumas vezes injusto, mas tudo foi devido ao que sinto por ti.
Assustei-me com o sentimento, com a intensidade do mesmo, assustei-me com a dor que perder-te provoca, cada vez que te sinto longe tudo parece deixar de fazer sentido.
Nada disto é racional e não ter o controlo sobre mim também me assusta. Só quero que saibas que não sou o inimigo, preciso que acredites em mim, nunca fui homem de muitas palavras e para mim uma basta para te definir, amor... eis a palavra que te dá sentido.
Quando na passada quarta-feira te vi, a minha máscara de indiferença caiu e todo começou a fazer sentido de novo, o teu sorriso, um sorriso que num segundo valeu mais do que mil palavras.
De nada vale tentar enganar-me neste momento necessito de ti e do teu sorriso, és uma pessoa importante e eu amo-te.
Estou cansado, preciso dormir... talvez o conforto desta certeza me embale por fim num sono profundo onde os sonhos não existem, talvez assim encontre um pouco de paz, e desfaça por fim esta insónia cruel.


Bruno Carvalho


Foto por: Filipaandrade

quarta-feira, 1 de julho de 2009

OBSCURIDADE

Aqui continuo eu percorrendo os mesmos passos, dizendo as mesmas palavras, seguindo o mesmo caminho rumo a nenhures.
Aqui continuo eu aprisionado quando me julgava livre, aqui continuo eu a lembrar, quando queria apenas esquecer.
Aqui continuo eu ao sabor do vento, perdido nos altos e baixos de uma vida demasiado previsível, aqui continuo eu pequeno quando me julgava maior do que esta dor.
Busco a racionalidade e o controlo sobre mim, encontro só a previsibilidade de deixar me arrastar vez após vez por um sentimento perdido à partida.~
De quem a culpa senão apenas minha?
Digo que quero esquecer mas as palavras soam-me vãs, digo que odeio mas o meu corpo diz-me outra coisa diferente, digo que sou forte mas pareço cada vez mais vazio, uma sombra, um pálido reflexo do que sou.
Neste momento enquanto o Verão se arrasta com a sua letargia, espero em vez de procurar, o ponto final.
Termino ainda todos os sonhos com reticências, à espera que alguém me diga que tudo isto é fantasia e que a realidade de facto é muito mais brilhante do que esta obscuridade na qual estou permanentemente mergulhado.
Amor e Dor, inseparáveis até na morte.

Bruno Carvalho

Foto por: Marta G.

EXORCISMO

Exorciza os demónios da minha alma Os fantasmas inumanos que consomem a minha carne Liberta-me, perdoa-me. Exorciza o meu corpo com...