CAFÉ

Ainda te permites pensar que alguma vez as coisas poderão ser diferentes?
Ainda esperas mesmo sabendo que nada vai mudar? Louco!
As vozes dentro da sua cabeça subiam de tom, a cada minuto que passava, frente ao espelho fitava o reflexo do seu olhar, um deserto de emoções mas ao mesmo tempo um mar revoltoso de sentimentos prestes a explodirem.
Estás sozinho... Não compreendes? Sempre o estarás... ahahaha
NÃO!
O silêncio foi quebrado pelo estilhaçar do vidro quando seu punho embateu em cheio no reflexo do seu rosto. Baixou o rosto enquanto o sangue deslizava da sua mão para o chão.
As lágrimas saíram silenciosas, pois naquele momento não eram necessárias palavras, pegou numa toalha e embrulhou a mão, abriu o armário e retirou o estojo de primeiros socorros para tratar a dezena de cortes. Feito o trabalho, mirou de novo o espelho, o seu rosto reflectia-se agora em mil pedaços diferentes.
Saiu para a rua, a noite estava fria, puxou as pontas da gola do sobretudo para abrigar o pescoço da brisa cortante. Deambulou por horas pelas ruas desertas, o vento soprava forte, adicionando uivos à cacofonia distante do pouco trânsito, em volta dos seus pés as folhas mortas rodavam como pequenos tornados, parecia impedir-lhe que avançasse como se previssem a desgraça.
Subiu a pequena colina rumo ao castelo, gostava sempre daquele local para reflectir, para pôr a as ideias no sitio, embora naquele dia mais do que nos outros as vozes não permitiam o arrumo destas.
Dirigiu-se à torre norte e subiu às ameias, e ali ficou, fragilmente equilibrado sobre o abismo, de mãos nos bolsos do sobretudo, o vento frio infligia dor no seu rosto, e a mão ferida começava agora a latejar, sinal do nascimento de nova dor.
- Bela noite para saltar não?
Sobressaltou-se desequilibrando-se e quase caindo no vazio.
- Assustei-o? - A voz era aveludada, doce mesmo.
- Costuma andar aí na noite em silêncio a assustar pessoas? - perguntou algo irritado, virando-se para ela.
Da penumbra saiu uma mulher, vestia de negro, o cabelo negro e os olhos escuros faziam-na parecer irreal, como fosse um fantasma, fumava um cigarro aromático, o cheiro a baunilha invadiu-lhe o nariz, tossicou ligeiramente.
- Então, vai saltar ou não? - Perguntou num tom ligeiro de desafio
- O que lhe interessa? - respondeu ele soturnamente.
- Nada, perguntei por curiosidade apenas - riu-se baixinho.
Ele desceu das ameias e sentou-se nelas virado para ela, sorria deliciada.
- Vim apenas clarear as ideias, tem um cigarro?
- Andou ao murro às paredes - disse-lhe enquanto lhe estendia o cigarro olhando para a sua mão ligada.
- A um espelho mais especificamente.
Ela riu-se.
- Assustou-se com o que viu?
- Não - respondeu lentamente - Assustei-me com o que não vi...
Um silêncio incomodativo caiu entre eles.
Levantando o rosto, e com um sorriso no rosto perguntou-lhe.
- Quer ir beber um café?
Ela sorriu e disse
- Porque não? Hoje parece que não tenho mais ninguém para assustar.
Riram-se os dois e desceram as escadas, depois a colina, desceram em silêncio assimilando cada pormenor de cada um sem no entanto proferir palavra, avaliavam-se.
Entraram na avenida junto ao rio.
Ele quebrou o silêncio.
- Acredita em acasos?
Ela olhou-o curiosa.
- Dificílmente poderei acreditar depois de hoje.
- Porque diz isso?
- Pensava na inutilidade da minha vida quando estava em cima das ameias daquela torre e o vi do outro lado. Porém quando o vi tudo fez sentido, estava mesmo disposta a dar o passo em frente, mas naquele momento apercebi-me do quanto a vida de facto ainda faz algum sentido. Acha que alguma coisa acontece por acaso?
- Não de facto nada acontece por acaso... - respondeu-lhe baixo e pausadamente e por uns minutos ficou pensativo...
- Mas ainda não nos apresentámos formalmente, não nos podemos tratar meramente como sombra um e sombra dois - riu-se divertida.
- De facto.
- O meu nome é Maria
- Prazer em conhecer-te Maria, eu sou o Samuel - e estendeu-lhe a mão.
O toque foi breve, mas deu para ambos estremecerem internamente. Algo desajeitadamente e meio corado disse.
- E se fossemos então a esse cafézinho, com este frio vem mesmo a calhar.
Entraram no café e deixaram para trás a noite e o vento frio, no entanto naquele momento estavam ambos longe de estarem frios. Dentro deles ardiam um lume brando recentemente aceso.
O tempo passou, o café passou a chocolate quente, as tímidas palavras transformaram-se em alegres diálogos e longas risadas, o corpo aquecido agora juntava-se à alma em brasa. O serão ia longo por isso era tempo de regressar, prostrados frente a frente diante da porta do bar, falaram ao mesmo tempo.
- Bem, prazer em conhecer-te - Soltaram uma gargalhada sonora
Partindo do distante aperto de mão arriscaram ambos o abraço, relaxaram ao perceber o quanto estavam ambos soltos e leves, quentes...
- Bem Maria, espero que não continues a assustar por aí o pessoal a meio da noite
- Temo que os meus passeios nocturnos tenham acabado - pensativamente disse - sim definitivamente acabaram.
- Adeus Samuel
- Adeus Maria
Enquanto regressava a casa sentia-se completamente cheio, com o tempo apercebeu-se que as vozes haviam desaparecido, por isso resolveu verbalizar em voz alta o que sentia
- Sozinho dizias? Estou muito longe de estar sozinho!

Bruno Carvalho

Foto por : Thiago Reis

Comentários

R disse…
Bonito texto! :)
Sozinhos? bem...não diria sozinhos...
~J disse…
Que bonito, Brunito :)
É tão bom quando nos sentimos cheios...

btw, estive no sábado com livros teus nas mãos :P

beijinhos*
Bruno Carvalho disse…
Espero que tenhas gostado deles :P
beijinhos
~J disse…
tenho a certeza que quando fores vais adorar :). Sintra deve ter esse poder de nunca sair da cabeça para quem lá vai :))

beijinho

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