sexta-feira, 10 de julho de 2009

FACA

Ontem adormeci com o pensamento na minha cabeça que a minha vida é um fracasso, um conjunto de incongruências e mal entendidos. Apesar do esforço para não gritar lá adormeci sob pena de o corpo ficar demasiado cansado para se levantar se por acaso o sol nascesse de novo nesta manhã.
Minutos antes a olhar para a superfície polida da faca pensava soturno sobre o efeito daquele metal entrar na carne, será que sangraria?, Saberia dizer se estava vivo, quando a dor entrasse sob a pele e todo aquela adrenalina disparasse o corpo para uma forma de êxtase quase demente?
Pousei a faca, apesar de o desejo ser quase insuportável.
Afinal o sol nasceu mesmo esta manhã, e como havia dormido apesar do pensamento nefasto, o corpo não acordou cansado, mas acordou da mesma forma funesta, o suave nevoeiro não apaga a sensação pegajosa do calor, este cola-se à minha pele e tudo o que apetece é vomitar, não sou aquele espasmo físico de alivio, mas também vomitar tudo o que sou e fui até ao momento.
A percepção que se calhar estou prestes a rebentar, leva-me ao motivo como conseguimos por vezes disfarçar de tal forma o mau estar que nos convencemos estar bem, e ali andei no fio da espada inconsciente que poderia cair para um dos lados.
E caí de novo para o lado errado.
Quando acordo assim aterrado pelo peso da solidão, tudo o que me resta nas seguintes horas é aguardar, esperar o sentimento não se amplie, esperar que de facto alguém vai notar e que afinal não sou assim tão invisível, que afinal não estou assim tão sozinho, que afinal sou eu que não vejo, que apesar de ter muito continuo a pensar não ter nada.
E assim ontem apeteceu-me rasgar a pele só para ver à medida que o sangue escorresse para o chão que nele corria também vida.
Enquanto a humidade das lágrimas aflora já aos meus olhos, olho pela janela para o horizonte baço, ciente que sou só um momento no tempo, e que apesar de tudo nada pode ficar pior do que está.
E quando o silêncio apaziguador da morte vier, rápido e limpo, não ficará memória sobre a terra de uma negra sombra com forma humana, tudo ficará desfeito, mesmo as palavras tão apaixonadamente escritas numa folha branca, abandonada na escuridão de um quarto sem janelas.

Bruno Carvalho

Foto por: Pipia

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