domingo, 5 de julho de 2009

TEMPO

Pousou o relógio em cima da mesa e saiu.
Hoje iria correr sem tempo, livremente, deixar-se embalar ao ritmo do cansaço e do bater do coração.
O tempo naquela manhã não era uma prioridade, aliás em todo aquele dia queria despir-se daquela sensação de ter sempre aquele objecto no pulso, e de constantemente olhar para ele.
Começou a corrida devagar, ritmo lento, mais passo acelerado do que corrida, meteu-se pelo caminho terroso rumo ao bosque, o terreno inclinou-se forçando-o a moderar ainda mais o passo, entrou no bosque de bétulas e parou junto de uma delas para recuperar o fôlego, encostou-se ao tronco e deixou-se deslizar pela casca macia rumo ao chão.
Sentado olhou para cima, para o topo daquela árvore que tinha sobrevivido ao tempo e até mesmo ao espaço, pois tudo naquele sitio tinha ainda um sabor selvagem, ainda não conspurcado pelos dedos gananciosos da humanidade.
Notou nos ramos que se agitavam ao sabor do vento, sem tempo, num movimento perpétuo dado pelas imprevisibilidades da brisa, aspirou o aroma, escutou o restolhar das folhas umas contra as outras, fechou os olhos, quando os voltou a abrir, levantou-se e prosseguiu a corrida.
Para além do bosque havia um pequeno lago de águas calmas e cristalinas, naquela época do ano as aves migratórias faziam delas poiso obrigatório, dando aquele pequeno espelho um aspecto ainda mais agitado, pois duplicava a população de aves sendo a concorrência maior.
Notou num casal de cisnes negros, estes eram residentes permanentes, habituado a vê-los tantas vezes até um nome para ambos inventou, Dalila e Sansão, assim eram os nomes daqueles pacíficos cisnes. Notou neste dia porém uma diferença na forma de duas miniaturas de pêlo cinzento, navegavam junto aos pais, atentos a todos os movimentos. Parou para apreciar a cena e sorriu.
E ali ele ia subida após subida, nas descidas mais rápido, ia correndo sem tempo sem qualquer pretensão a não ser correr, exercitar os músculos, encher o peito de ar, observar a natureza e sentir a força dos elementos. Mas mesmo sem relógio o tempo passa e aproximava-se já o sol do seu zénite, quando entrou de novo em casa.
Distraído viu as horas no relógio pousado na mesa, sorriu, era mais forte que ele aquela obsessão pelo tempo.
Vinha suado mas completamente satisfeito, a sua sensação de bem estar amplificou-se quando Sofia a sua companheira lhe deu um beijo caloroso de boas vindas.
- Humm, que boa recepção - disse-lhe ele - Vou tomar um banho queres vir? - e fez um sorriso maroto.
- Isso é um convite muito interessante -beijou-o novamente - Aceito...
De repente a porta das traseiras bateu com estrondo na parede, o silêncio estilhaçou-se enquanto um grito estridente enchia a divisão.
- Papá, papá, vi um esquilo, papá, era grande
- Calma calma pequeno explorador, conta lá isso - e abraçou o filho esquecendo-se que estava de facto todo suado.
O pequeno Filipe contou com excitação o seu encontro imediato com o esquilo, os seus olhos verdes, herança da mãe, brilhavam de excitação, os seus caracóis de um vermelho quase fogo, eram a sua própria herança, após a narração de uma aventura cheia de pequenos sorrisos e risos histéricos acalmou, olhou para a cara de espanto dos pais, e baixou a cabeça com vergonha.
Sofia pegou-lhe no rosto e beijou-o na testa.
- Vá vai lá outra vez atrás do teu terrível esquilo que o teu pai tem que tomar banho.
- Sim mamã - e saiu disparado rumo ao jardim de novo.
- Bem onde íamos mesmo? Parece que me tinhas convidado para um banho...
- Ah, sim sim recordo-me disso, e num gesto pegou-a ao colo e levou-a rumo à casa de banho.
Debaixo do chuveiro enquanto percorria suavemente a linha das costas da mulher, imaginou o quanto o tempo o tinha escravizado ao longo dos anos. naqueles últimos meses após ter visto a morte tão perto, fizeram-lhe ver o quanto o tempo por vezes é tão insignificante e ao mesmo tempo importante pois momentos como aquele tinham de ser vivido intensamente.
Fora-lhe dada uma segunda oportunidade, agora apreciava cada riso do seu filho como se fosse o último, cada beijo da sua mulher como fosse o primeiro e o mais intenso, tinha-os, tinha a sua vida, porquê tanta pressa?
- Em que pensas? - perguntou-lhe Sofia
- Em nada amor - e ao mesmo tempo que a beijou brindou-a com um sorriso
- Amo-te Sofia
- Também te amo muito!
E ali ficaram abraçados a sentir a água escorrer pelos seus corpos, plenamente satisfeitos, plenamente conscientes de não serem apenas um momento no tempo, mas serem sim muito maiores do que o próprio tempo.
Cada novo dia era uma benção, uma nova oportunidade de desfrutar do momento, assim sem pressa de outro dia, assim sem saudades de um futuro distante e ainda disforme.

Bruno Carvalho

Foto por: nuno chacoto

2 comentários:

poteta disse...

tao sereno... transmite uma sensação de calma, e de completo...

sabe bem ler :)

e obrigado por passares no meu estaminé e deixares comentario! sabe bem saber que ha alguém a ler

dyphia disse...

sem palavras p descrever o que senti ao ler este texto...
agradeço-te simplesmente a homenagem
beijos

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