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A mostrar mensagens de Agosto, 2009

BRIGADA FANTASMA

Por vezes surgem bandas assim, que nos dão voltas e voltas e nunca nos deixam no mesmo sitío.

ALPENDRE

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Ali ficava ele desde que se conhecia, todas as terças e quintas, sentado no alpendre a ver o tempo passar, com os seus dedos ossudos enrolava com destreza os cigarros, tabaco da mesma marca já há trinta anos. Cada minuto parecia passar ao sabor de mais uma baforada de fumo, como este se dissolvia no ar, também a sua vida parecia misturar-se com as horas que passava ali. Aprendeu a conhecer as pessoas na rua, sabia quais viviam há muito ou pouco tempo no bairro, assistiu a partidas para a guerra, a incêndios e roubos, serenamente ali sentado quase não se apercebia que ao fim de cada sétimo dia findava uma semana, ao fim de um trigésimo ou trigésimo primeiro findava um mês que no fim de mais onze ciclos iguais definhava mais um ano. E assim passou a sua vida naquele rotina de observação cujo o único objectivo era não ter objectivo algum, passou a língua pela mortalha, rolou o cigarro na ponta dos dedos e acendeu, com a mesma destreza de quando havia começado. Naquela manhã de quinta feira, …

SEMENTES

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Quando era criança tinha um passatempo, adorava plantar sementes, cuidá-las e depois com o tempo vê-las crescer. Os meus amigos gozavam-me, chamavam-me nomes esquisitos, diziam que parecia uma menina, mas eu simplesmente gostava de ver aqueles seres crescerem e desenvolverem-se. A mesma coisa com os animais, quando a minha avó me punha os pintos apenas com dois dias na palma da mão, o meu coração disparava e eu afagava com cuidado aquele pequeno ser, com receio de o apertar de mais, ali ficava a sentir o pequeno coração a palpitar e sorria, sim na minha infância eu sorria, como não houvesse um amanhã. Fui crescendo, habituado a sentir a vida como algo insubstituível, aprendi a respeitar que todos os seres precisavam de carinho, todos sem excepção. Na minha adolescência continuavam a chamar-me nomes estranhos, eu não me importava, a vida sorria-me e eu sorria à vida que mais poderia querer. Um dia descobri a maior das sementes e plantei-a no maior dos jardins, o meu coração. Conheci o amor,…

CALOR

Está quente, muito quente. Por mais que tente sequer organizar ideias para poder conjugar palavras para formar um texto, não consigo... Por isso deixo esta senação de vazio, o vácuo que se acumula com a opressão deste calor de Verão, que venha o meu querido Outono e de seguida a doçura do Inverno.
Bruno Carvalho

SILÊNCIO

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Habituei-me às tuas não respostas, habituei-me ao teu silêncio sem sentido, habituei-me a viver culpado, como se fosse meu o poder de mudar as coisas. Arrastei-me nos dias, nas horas, na esperança que um dia tudo fosse diferente, acreditei que aquelas palavras tão docemente ditas eram de facto verdadeiras, mas não eram... Perdi uma parte de mim enquanto estive aqui preso dentro desta cela imunda, rasguei tudo de bom que tinha para lutar por um sentimento que afinal de contas nunca foi mais do que uma mera brincadeira de crianças para ti. Mantive-me à tona, na sombra, no silêncio, ingenuamente pensando que um dia irias precisar de mim, no entanto tudo o que fizeste foi ignorar-me, transformaste-me num farrapo, mas agora digo-te.Nunca mais! Condenei o teu silêncio mas agora sei que nunca poderia ser de outra forma, pois não tens a coragem, não tens o que é preciso para dialogar, para ti as pessoas parecem peças inanimadas num tabuleiro de xadrez. Por vezes ali ficas sob a pele de vitima, ci…

ANSEIO DO CORAÇÂO

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Estou cansado de dizer adeus, estou cansado de fugir. Quero ficar contigo, preciso de ti, preciso de saber o que ainda me prende aqui, a ti, a este amor nascido com a morte do Verão, maturado em dias irreais, rasgado e de novo colado, mas no fundo aquele veio essencial nunca foi quebrado. Por uma vez desejava que um anseio do meu coração pudesse ser real, desejava que por uma vez só as tuas palavras fizessem sentido, uma vez só, para eu saber qual o sabor de ser feliz. A solidão paira sobre mim, a dor, aquele sentimento tão familiar, faz já parte de mim, aprendi a ser infeliz e a viver assim... Mas porque é que tudo tem de ser assim? Serei assim tão invisível? Será que tento demais? Será que estou cego e que em vez de amar estou a odiar... Não vou fugir mais, não tolero que o mundo dite as minhas regras, pois amor é amor, é um sentimento, não uma regra, um conjunto de instruções, os seres humanos não possuem livros de instruções, possuem sentimentos, não são autómatos são seres de carne e o…

BLANK

A forgotten word ripped of a blank page...
Sometimes silence tells so much more than words...

SENTIDOS

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Sentia o teu corpo junto ao meu, o teu coração batia sob a minha mão, beijei ao de leve o teu cabelo, inspirei o teu aroma, provei dos teus lábios a doçura que há muito me havia conquistado. Quando rolei nos lençóis fixei o tecto branco levemente brilhante pelo luar que se escapava pelo estore e ali fiquei, a inspirar o momento. Acordaste, os teus olhos meio turvados pelo sono encheram-se de um brilho intenso, o mesmo brilho que me havia enfeitiçado, fizeste duas covinhas deliciosas no rosto quando sorriste, e aquele sorriso era tudo para mim. Aquele teu pequeno e singelo sorriso havia sido ao longo da minha atormentada vida um bálsamo, uma promessa de paz, uma luz na escuridão, um pequeno fio de esperança que me segurava tenuemente à vida, significava que as coisas poderiam melhorar, que apesar de todos os mal entendidos e de todos os tropeções e quedas poderia existir um futuro, um futuro para nós. Deitaste a cabeça sobre o meu ombro e suspiraste levemente, incapaz de me mover para não…

CONFINADO

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Sentia-se aprisionado numa cela formada por paredes invisíveis. Uma sensação de indescritível medo turvava-lhe o pensamento, lá fora a escuridão permanecia, como se todas aquelas correntes negras ainda jorrassem das suas mãos, dos seus olhos. como se a sua vontade ainda estivesse pregada à vontade férrea de se perder no desconhecido. Seguia incólume como se de facto conseguisse seguir a própria sombra, mas a verdade era que era a própria sombra, não um predador, mas a presa. Cada nova dor tornava-se uma tomada de consciência, corria como se o limite do mundo estivesse ali ao alcance de um passo, corria crente que uma queda seria um pretexto para um novo começo, mas o fim do mundo continuava a fugir, e ele continuava assim a correr e a tropeçar em falsos recomeços. As paredes invisíveis ameaçaram ceder, encurtar o espaço entre elas e o corpo em movimento. E um momento perpétuo começou a ser notado, o sol recomeçou o seu ciclo, um sol frio toldado pelo conforto gélido de um último adeus. A su…