segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ALPENDRE


Ali ficava ele desde que se conhecia, todas as terças e quintas, sentado no alpendre a ver o tempo passar, com os seus dedos ossudos enrolava com destreza os cigarros, tabaco da mesma marca já há trinta anos.
Cada minuto parecia passar ao sabor de mais uma baforada de fumo, como este se dissolvia no ar, também a sua vida parecia misturar-se com as horas que passava ali.
Aprendeu a conhecer as pessoas na rua, sabia quais viviam há muito ou pouco tempo no bairro, assistiu a partidas para a guerra, a incêndios e roubos, serenamente ali sentado quase não se apercebia que ao fim de cada sétimo dia findava uma semana, ao fim de um trigésimo ou trigésimo primeiro findava um mês que no fim de mais onze ciclos iguais definhava mais um ano.
E assim passou a sua vida naquele rotina de observação cujo o único objectivo era não ter objectivo algum, passou a língua pela mortalha, rolou o cigarro na ponta dos dedos e acendeu, com a mesma destreza de quando havia começado.
Naquela manhã de quinta feira, sentou-se na cadeira de baloiço, enrolou o cigarro e deu a primeira passa, algo diferente se passou, tossicou primeiro ligeiramente e depois disso com cada vez mais intensidade, o ar parecia escapulir-se a cada tossidela, levantou-se alarmado, correu para a cozinha e bebeu um gole de água, aos poucos foi acalmando, a tosse foi desaparecendo, até que finalmente desapareceu, fico ali ofegante, foi à casa de banho e ao olhar para o espelho quase não se reconheceu, dos olhos vermelhos escorriam lágrimas, as faces estavam vermelhas, um vermelho doentio quase roxo, molhou a cara com água fria e trémulo dirigiu-se para a cama e deitou-se.
Sentia-se fraco, a quebra da rotina desorientou-o, sentia-se em pânico, as mãos suavam, o corpo tremia descontroladamente, tentou respirar pausadamente, devagar aos poucos acalmou-se e adormeceu.
Dos sonhos turvos discerniu paisagens desconhecidas, passou-lhe diante dos olhos lugares apenas reconhecidos da tela da TV, sentiu a maresia naquela praia tão bela que vira no domingo passado no documentário sobre a natureza, sentiu nas suas mãos a relva tenra de um estádio de futebol, sentiu a multidão e a vibração do espectáculo, sentiu o seu corpo balançar ao ritmo daquela sua música preferida, olhou em volta e viu corpos descontrolados como seu e em cima do palco viu o seu artista preferido. Viu-se depois no topo da falésia, aquela falésia onde se sonhou apaixonado, onde se imaginou amado e feliz com aquela pessoa que brevemente iria pedir para sair, tinha este plano desde um segundo ano de contemplação, vieram-lhe as lágrimas aos olhos, sentia-se vivo, livre, sensação estranha e tão fora de si, estremeceu e acordou aos soluços... dos seus olhos agora amarelados brotou um novo discernimento, uma nova certeza mordaz, finalmente tinha apreendido a sensação de ter estado trinta anos parado no tempo, tanto contemplou o mesmo que se tornou ele mesmo, a sua vida não tinha recordações para além do fundo da rua trinta e um, as pessoas que recordava não eram mais que os vizinhos Silva e Sousa, nunca havia provado a maresia, nunca havia sentido um toque, nunca havia amparado uma lágrima, ao mesmo tempo outra certeza se formou, esta mais assustadora, esta mais real, esta mais definitiva, apercebeu-se do quanto era tarde demais para tentar ver para além do portão da D. Rosa...
Aturdido deixou-se cair de novo na cama, com dificuldade entrou uma nova golfada de ar no peito, fixou o tecto...
Luís passava todos os dias na rua trinta e um antes de ir para o trabalho e todas as terças e quintas via o velho Antunes sentado na sua cadeira de baloiço, invejava a paz e tranquilidade daquele homem, queria que a sua vida fosse assim parada, sem stress, sem correrias, imaginava as paisagens que aqueles olhos já teriam visto, as sensações que durante toda a sua vida teria recolhido, imagina as mulheres que devia ter amado, ambicionava ser como ele, sempre desejou parar para lhe falar mas nunca teve a coragem.
Nesta quinta feira porém algo estranho se passava pois a cadeira de baloiço jazia ali no alpendre solitária, o espanta espíritos retinia com a brisa da manhã, mas do velho Antunes e do seu cigarro matinal nem sinal, decidiu então fazer daquele o dia que ganharia coragem para falar com aquele velho sapiente.
estacionou na berma e dirigiu-se para a casa, subiu os degraus devagar, gritou para dentro da casa chamando o velho pelo único nome que conhecia, porém de dentro nenhuma resposta lhe foi retribuída, atreveu-se a entrar, divisão a divisão foi chamando pelo velho, entrou na biblioteca e passou os olhos pelos velhos livros corcomidos pelo tempo, o pó acumulava-se em cada canto, pegou numa das estatuetas prostradas numa das prateleiras imaginando de onde teria vindo, de certo de mais uma das viagens do velho Antunes, pousou-a distraidamente, esta tombou, ele porém não a levantou não notando na inscrição made in china embutida na base...
Subiu as escadas rumo ao andar superior, mais uma vez chamou o velho, mais uma vez obteve silêncio, entrou no quarto e lentamente abeirou-se da cama, pediu desculpa pela intromissão, o susto quase o fez tombar quando fixou o olhar vítreo do velho Antunes também este fixo no tecto amarelecido pelo tempo...
Chamou o 112, nada mais havia a fazer, enquanto se dirigia para a rua para esperar os socorristas foi pensando no quanto justo poderia ser o descanso de aquele homem com uma vida cheia, inconsciente da verdade admitiu-se ainda invejar uma vez mais a vida emocionante do homem que deixou que o tempo consumisse o seu próprio tempo.

Bruno Carvalho

Foto por: Pedro Soares

2 comentários:

rute disse...

Está bem escrito e desenvolvido.
Peca por um final pouco surpreendente.
Mas very nice, though!
E...os finais são sempre as partes mais complicadas de escrever ;)

dyphia disse...

brilhante!!! cada vez tenho mais certeza que fiz a coisa certa quando te inscrevi na minha lista de escritores favoritos...

parabéns meu amigo.

beijos enormes e cheios de carinho

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