sábado, 1 de agosto de 2009

CONFINADO

Sentia-se aprisionado numa cela formada por paredes invisíveis.
Uma sensação de indescritível medo turvava-lhe o pensamento, lá fora a escuridão permanecia, como se todas aquelas correntes negras ainda jorrassem das suas mãos, dos seus olhos. como se a sua vontade ainda estivesse pregada à vontade férrea de se perder no desconhecido.
Seguia incólume como se de facto conseguisse seguir a própria sombra, mas a verdade era que era a própria sombra, não um predador, mas a presa.
Cada nova dor tornava-se uma tomada de consciência, corria como se o limite do mundo estivesse ali ao alcance de um passo, corria crente que uma queda seria um pretexto para um novo começo, mas o fim do mundo continuava a fugir, e ele continuava assim a correr e a tropeçar em falsos recomeços.
As paredes invisíveis ameaçaram ceder, encurtar o espaço entre elas e o corpo em movimento.
E um momento perpétuo começou a ser notado, o sol recomeçou o seu ciclo, um sol frio toldado pelo conforto gélido de um último adeus.
A sua pele tornou-se translúcida, as veias transportavam muito mais que sangue, um fogo parecia viajar pelo seu corpo, aquelas correntes inquietas desaguavam todas na sua cabeça, e de repente tudo explodia, um milhão de faíscas, cada uma vista como se fosse uma nova palavra, uma nova definição, um novo conceito numa vida que parecia há muito estagnada.
Ciclo após ciclo, tudo parecia desvanecer-se, até por fim, envolta numa explosão de um brilho pálido a cela apareceu de paredes despidas corroídas pelo tempo, na parede norte uma única janela permitia descortinar o aspecto vazio e desolado daquela prisão do tamanho da palma da mão.
Cerrado o punho, esmagada a solidão, rompeu a noite um novo dia, talvez aquele fosse por fim o tão propalado novo inicio.

Bruno Carvalho

Foto por: VaReTaS

Sem comentários:

EXORCISMO

Exorciza os demónios da minha alma Os fantasmas inumanos que consomem a minha carne Liberta-me, perdoa-me. Exorciza o meu corpo com...