terça-feira, 18 de agosto de 2009

SEMENTES


Quando era criança tinha um passatempo, adorava plantar sementes, cuidá-las e depois com o tempo vê-las crescer.
Os meus amigos gozavam-me, chamavam-me nomes esquisitos, diziam que parecia uma menina, mas eu simplesmente gostava de ver aqueles seres crescerem e desenvolverem-se. A mesma coisa com os animais, quando a minha avó me punha os pintos apenas com dois dias na palma da mão, o meu coração disparava e eu afagava com cuidado aquele pequeno ser, com receio de o apertar de mais, ali ficava a sentir o pequeno coração a palpitar e sorria, sim na minha infância eu sorria, como não houvesse um amanhã.
Fui crescendo, habituado a sentir a vida como algo insubstituível, aprendi a respeitar que todos os seres precisavam de carinho, todos sem excepção.
Na minha adolescência continuavam a chamar-me nomes estranhos, eu não me importava, a vida sorria-me e eu sorria à vida que mais poderia querer.
Um dia descobri a maior das sementes e plantei-a no maior dos jardins, o meu coração.
Conheci o amor, ou antes, conheci a paixão, naquela altura no meu coração cheio de sorrisos e vida, aquela semente germinou forte e saudável.
Ela chamava-se Florbela, ignorando a ironia da situação, fui-me entranhando na sua natureza, o seu cabelo ruivo, reflectia o sol daquele dia ameno de Primavera, aquele dia pareceu o mais quente do ano, agora sorrio ao lembrar aquele dia.
Eu tinha decidido ser jardineiro, aquele apelo das sementes, das plantas a crescer, tinha sido mais forte do que o futuro entre números e dinheiro que o meu pai me vaticinou como certo. Por causa disso saí de casa cedo, parti com futuro incerto mas com vontade de estar longe daquela opressão doentia, precisava de ar, de jardins e cores vivas.
Estava a arranjar um dos canteiros do jardim municipal quando a vi, levava as mão de lado tocando, nas pétalas dos meus gerânios, passeou de flor em flor, até que distraidamente arrancou as pétalas de uma das minhas rosas encarnadas.
Fiquei furioso...
Disse-lhe
- Desculpe, menina, a rosa fez-lhe algo de mal?
Ela olhou-me embaraçada e por um momento as suas faces encheram-se da cor dos seus cabelos, ali naquele sitio e com aquela luz parecia também ela uma rosa.
- Desculpe - disse timidamente
A verdade é que não conseguia ser agressivo mesmo que toda a razão me apoiasse, por isso disse apenas um atabalhoado...
- Ok, mas não volte a repetir a gracinha...
Naquele momento no entanto tudo o que queria é que ela voltasse e repetisse a gracinha.
- Desculpe ter-lhe falado assim tão bruscamente, mas é que as minhas flores são como tesouros para mim, detesto vê-las perder o brilho antes do tempo.
- Não faz mal, a culpa foi minha, vinha tão distraída que nem pensei no que estava a fazer - retomando o caminho virou-se para trás e sorrindo disse - não voltará a acontecer.
Algo no seus olhos me dizia que não seria a última vez que a veria.
Voltei ao meu canteiro e ao meu mundo secreto. Naquele momento, noutro jardim dentro de mim, o portão abriu-se.
Passou-se uma semana, a Primavera, fazia florir o meu jardim, enquanto que os constantes passeios de Florbela faziam as minhas sementes romper a terra.
Aos poucos fomos falando mais, começando pelo clima, acabando na política e no volley que ambos parecíamos gostar tanto.
Aqueles momentos perpassam pela minha mente agora, enquanto que ao longe observo a minha mulher de cabelos de fogo a recolher as primeiras rosas da época.
Continuo a sorrir, as flores continuam ainda a florescer nos meus olhos, embora agora as veja apenas e não as sinta.
Depois de um beijo e de um sorriso, pousou as flores no meu regaço e deu-me uma a cheirar, aliás como era seu apanágio todas as manhãs, virou a minha cadeira de rodas para dentro e entrámos na nossa casa forrada por pétalas pintadas.
Vivia agora na minha prisão, imposta no momento em aquela bala perfurou as minhas costas e se alojou na minha coluna, sorrio ainda, a vida ainda pulsa em mim, apesar de agora não a sentir fisicamente, no entanto vivo-a todos os dias através do olhar de Florbela, através do seu beijo doce e daquele etéreo odor que que todas as manhãs me faz passar por entre as barras da prisão.
Choraria naquele momento se o tempo não tivesse levado já todas as lágrimas, no entanto permito uma ou duas, porque por vezes a felicidade é mostrada através de estranhas coisas.
E valeu a pena?
Sim valeu a pena, valeu a pena salvar a mais bela das flores do meu intimo e interno jardim.

Bruno Carvalho

foto por: Antonio Felix

2 comentários:

dyphia disse...

vale sempre a pena salvar aquilo q mais amamos, nao vale?

beijos

mais um magnifico texto

~J disse...

oh, que bonito! :)
Brunito!!! Como vais?
Muito obrigada pelas tuas palavras :). Eu estive de férias, daí a minha resposta tardia.

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