sábado, 19 de dezembro de 2009

O LÍRIO (parte I)


Só eles conheciam aqueles caminhos salpicados pelo luar. Caminhavam seguros como se os seus olhos estivessem de facto adaptados ao escuro, ele caminhava apoiado no braço dela, amparado do outro lado pela bengala.
Retornavam sempre aquele sítio, todos os anos, naquele dia, voltavam para recordar, naquela falésia deixaram há muito a sua inocência, voltavam como para revalidar um compromisso, um pacto que há muito os juntou e que apesar das diversas ameaças nunca haviam quebrado. Um pacto muito mais poderoso do que um de sangue, um pacto de silêncio.
A sua amizade foi sempre vista como um sortilégio, apanhados no meio do pantanal rural de uma terra pequena sofreram do ostracismo de quem nunca teve por hábito sentir, vivia-se de ilusões, de aparências, como se mostrar ao vizinho que se era muito feliz fosse de facto suficiente para se convencer a si próprio que o era.
Portanto tudo o que era estranho era discriminado, tudo o que era real era banido, como se as pessoas daquela terra quisessem viver para sempre na imensa pequenez do seu cérebro atrofiado.
Conheceram-se numa noite como aquela, a lua cheia salpicava o céu estrelado de Abril, a noite era ainda fria, ele estava perto da ponta da falésia sentado numa rocha, havia trazido a lanterna forte que havia comprado para aqueles passeios nocturnos, nos joelhos estavam pousado o grande caderno onde fazia os seus esboços, adorava desenho, nunca tinha tido formação mas tinha nascido com aquele dom, naquela noite tinha saído para capturar no papel aquele luar formidável a incendiar o mar tranquilo.
Era tarde, estava já a terminar o desenho quando ouviu a curta distância um restolhar na vegetação rasteira, da moita de acácias saiu uma rapariga jovem, vinha aos tropeções e chorava convulsivamente, saiu a correr e estancou na ponta da falésia.
Ele poisou o caderno e instintivamente correu para perto dela, assustou-a e ela desequilibrou-se quase caindo no abismo.
- Olá, desculpa ter-te assustado, se calhar é melhor não ficares muito aí na ponta, podes escorregar e cair...
- Quem me dera cair mesmo! - gritou por entre os soluços provocados pelo choro.
- Tu não és a Amélia, a filha do sr. Pedro?
- Sou e depois, o que interessa isso? Eu quero é morrer! - disse ela quase num murmúrio.
- Ei, calma calma, o que se passa, decerto não vais querer fazer isso, anda dá-me a mão, vem para aqui podemos conversar - aproximou-se devagar...
- Afasta-te, vou saltar!
Ele estancou e disse-lhe
- Pronto. parei, vou sentar-me aqui, podemos falar assim ao longe...
Hesitantemente ela deu um passo a trás e sentou-se numa pedra, com a cabeça enterrada nas mãos recomeçou a chorar. Por fim disse
- A minha vida não faz sentido, porque não me deixam ser quem sou, porque não me deixam sonhar? Eu só quero ser feliz...
- O que se passa? Conta-me?
- Falei hoje com o meu pai e pedi-lhe para estudar piano na conservatória, adoro piano, adoro aquela sua sonoridade, adoro sentir as teclas debaixo da ponta dos meus dedos...
- Que bom, deves tocar muito bem - disse ele sorrindo-lhe
- Toco o pouco que sei, o pouco que vou aprendendo sozinha, a minha tia tem um piano e costumo ir lá várias noites tocar.
- E que disse o teu pai?
- Disse que tocar piano é para gente rica, que devo pensar é em arranjar emprego na fábrica da vila, ganhar dinheiro para criar uma família, arranjar homem e casar... Mas eu não quero! Prefiro morrer!
Eduardo levantou-se e aproximou-se mais um pouco, poisou a mão no ombro dela e puxou-a para lugar seguro.
- Calma, não tomes decisões precipitadas, estou certo que terás a tua oportunidade de estudar música... - Conhecendo bem o sr. Pedro, ele no fundo sabia que isso era quase impossível, mas aquele era um momento desesperado e uma mentira era necessária.
- Quando? Quando for velha e este fogo que em mim arde se apagar? quando tiver um rancho de crianças ao meu cuidado e o meu pequeno emprego das nove às cinco? Prefiro acabar já com esse sofrimento futuro...
- Calma, o futuro ainda é muito longínquo, talvez consigas convencer o teu pai...
Ela levantou devagar a cabeça e enfrentou o olhar dele.
- Vê só o resultado de um simples pedido educado...
Só então ele viu, o seu olho esquerdo estava rodeado de uma mancha carmim, começava a inchar...
Instintivamente ele abraçou-a enquanto novamente uma torrente de lágrimas corria desenfreada dos seus olhos...

(Continua)


Bruno:Carvalho


foto por: Carlos Sillero

2 comentários:

_Sweetinha_ disse...

A historia do piano... humm.... Kisses

Abelha Charlatona disse...

Lindo :§

quero ler mais xD

beijinho*

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