sábado, 30 de janeiro de 2010

DELÍRIO


Que bela musa que por aqui passa. Lambuza-me todo como de mel fosse feita. O meu coração pára como se andasse muito acelerado, não anda, mas imaginemos que sim, pois de imaginação somos feitos por isso dela podemos viver.
Ela olha mas não vê, incoerente nos seus passos faz-se Dulcineia como se eu de facto fosse D. Quixote (uma coisa é certa porém, posso ser confundido, pois também eu luto contra moinhos de vento)...
Então Dulcineia chegou cheia de ares de domingo de manhã, aroma a lavanda, sorriso de amoras e vestida de sol, uma manhã gloriosa, poderia um homem simples querer mais?
Eu porém para ali não estava virado, sempre fui feito de melancolia por isso para a noite sempre estive mais virado, perguntei se poderia trocar o sol pela lua, mas Dulcineia convicta como era, recusou, disse que a noite era demasiado fria, já o dia a enchia de calor ardente.
Compreendi o seu ardor, porém desconfio que o seu motivo de tanta ardente paixão seja outro menos pudico, porém lá está, que sei eu? uma vil criatura da noite sem poiso para largar alegorias.
Na beleza Dulcineia nada ficava a dever às novas deusas veneradas pelos devotos fieis actuais, aquelas que vêm escarrapachadas em pedaços de papel mais ou menos coloridos ou então naquelas caixas de flashes brilhantes que nos arrepiam os olhos, os meus de pobre poeta começam já a não tolerar tais devaneios caleidoscópicos.
Pensei então, que Dulcineia era deusa e fi-la musa minha, como se ela pudesse pertencer a alguém, com os meus olhos habituados à escuridão notei que a sua passagem arrastava um manto de estrelas, fiquei arrasado, arrebatado pelo seu amplo sorriso...
Ri-me desvairado, só a minha longa solidão a minha ausência de companhia mesmo a minha podia justificar tais desvarios, tais delírios emocionais, o corvo sem asas da vizinha já crocita como se rindo da minha hipotética sanidade.
Mas voltemos à minha doce Dulcineia, a musa de ocasião, belo negócio esse nunca imaginado, uma bolsa de musas para gente desinspirada ou aspirantes a Pessoa, no entanto a conjectura económica a nada disso ajuda, até infelizmente a inspiração não escapa à crise...
Porque se escapasse nada justificaria este cinzentismo tão desconfortável, aquele mesmo que por vezes aplaudo de pé, como se fosse uma honra pertencer a qualquer coisa, por mais merdosa que seja, enfim, perdoem-me os meus leitores menores pela minha linguagem menos adequada, os anos já pesam no discernimento...
Guardei a Dulcineia no bolso, tinha-me esquecido, por isso a súbita excitação dos últimos dias, por isso o ardor no fundo da barriga, não era só inspiração à solta, era algo mais carnal.
Enfim finalmente senti algo menos platónico pois isto de filosofar a torto e a direito já não traz grandes resultados, todos actualmente já temos um pouco de Platão, de Pessoa, de Maquiavel e de Jesus, porém o que nós em particular amantes Byronianos ainda somos mais marcadamente é Ícaros desvairados repetidamente indo contra um sol que há muito desapareceu, e por mais asas que queimemos, mais ossos que partamos ou quedas que damos, continuamos a tentar como se de sanidade tivéssemos sido privados.
Enfim agora somos polivalentes como o mundo de competição actual nos impele a ser. Deixámos de nos distinguir, para passarmos a ser uma mole repetidamente e infelizmente chata.
Pois eu ficarei aqui por mais uns tempos a observar a minha impotência, a tentar acreditar que ela é de facto fruto de factos externos, porém um dia as correntes que me ligam ao marasmo iram rebentar e depois demente me chamarão, quando mergulhar em sangue novo para renascer outra vez.

Bruno:Carvalho
2010

2 comentários:

Rute disse...

Que texto fantástico! Dos melhores que escreveste até hoje!!!!

Abelha Charlatona disse...

Realmente, está lindooo!

E diferente sos outros, mais solto :)

um beijo**

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Don't mind me, just wandering around drawing circles in the air Don't mind me, nothingness is just a state of mind Don't bo...