sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

REFLEXOS


Enquanto percorria o caminho enchia o bolso de pequenas pedras, uma para cada passo. à sua frente a cidade de vidro espalhava os raios de sol pelas redondezas, a paisagem bucólica parecia retirada de uma tela de um artista.
Ao entrar nas suas ruas, sentiu-se entrar numa sala de espelhos, o seu reflexo apareceu eu diversas posições, aqui ali num espelho fragmentado estilhaçava-se em mil pedaços, mil pequenas imagens de si, ego incluído.
Aqui e ali ouvia as conversas de quem passava, silencioso pensava como toda a gente tinha opinião para tudo, mesmo para aquelas coisas que nem sequer entendiam.
No jardim cimeiro daquela cidade feita de vidro, sentou-se num banco e colocou as pedrinhas uma por uma alinhadas com rigor, formou palavras, poesias nunca declamadas, aquela tela merecia poesia, mesmo que o poeta fosse um mero vagabundo perdido na sua pequena e insignificante vida.
Sempre silencioso mirou as palavras que havia formado no pó barrento do caminho, sorriu, aparências desnudadas numa cidade de telhados de vidro, adorava aqueles passeios, adorava ouvir as todas as opiniões sobre todos os assuntos que os seus peculiares companheiros de espécie proferiam tão sabiamente.
Era tempo de escolher um lado, ele sabia-o, porém sabia-lhe bem adiar o inevitável, enquanto o fazia sentia-se seguro e bastante confiante, porém se alguém fora daquela cidade luminosa o visse reflectido naqueles espelhos teria uma visão bem diferente, veria uma mera sombra, uma pálida imagem de um ser humano preso a si mesmo, enclausurado numa cela feita por si.
Não havia porém ninguém com a coragem suficiente para lhe dizer, por isso ali permanecia dia após dia, num conforto ilusório e numa segurança relativa.
O sol descia atrás do horizonte, transformando o espaço urbano num pequeno inferno pintado de cor de fogo, virou as costas, atirando as pedras sobrantes através do espaço, caíam silenciosas no abismo como nunca tivessem existido, como nunca tivessem sido utilizadas para escrever palavras de desânimo num jardim qualquer numa destas nossas cidades de telhados de vidro onde toda gente tem opinião sobre tudo, mas ninguém sente realmente o que diz.

Bruno:Carvalho

1 comentário:

Abelha Charlatona disse...

é verdade, toda a gente sabe dizer sempre qqlqer coisa, mas sentir não sente :)

pati*

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