terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

VALSA


Sentiu-se a correr no fio da espada, como gostava ele de correr no limite, à espera de vir o vento que o orientasse para um ou outro lado do fio.
Estudava atentamente a anatomia de um adeus quando percebeu que não fazia sentido estudar algo tão estranho e sem sentido, sentia por vezes que este tinha uma melodia, mas decerto seria só ecos da sua fantasiosa imaginação.
Imaginava-a todas as noites e isso nunca escondia, sonhava, podia dizer mesmo que sonhava, sonhava com os seus lábios colados nos dela como se o amor se tivesse feito cola, sonhava com as suas mãos no corpo dela como se a paixão fosse navio a navegar em águas revoltosas, sonhava com o seu olhar como se a esperança fosse mesmo de cor verde, naquele caso porém ela parecia-lhe castanha.
Sonhava, imaginava, fantasiava, alguém o poderia condenar por isso?
Como se fosse preciso pagar para isso, como se fosse um pecado medonho ansiar o corpo dela junto ao seu, o bater do coração dela na palma da sua mão nervosa.
Era um sonhador portanto, vivia naquele limiar entre o filme romântico e a tragédia grega, entre a vivacidade de Vivaldi e a melancolia de Bach, vivia entre o choro e ao mesmo tempo entre o riso. Alimentava-se de esperança embora fosse essa mesma esperança que o teimava em derrubar, dia após dia, noite após noite.
Fazia amor com a ilusão dela, na cama vazia, nos lençóis revoltosos tão cuidadosamente perfumados, acendia as velas, desfolhava rosas, fazia tudo isso porque precisava, por precisava acreditar que estava vivo. Dançava a valsa abraçado ao seu corpo moribundo.
Debaixo do chuveiro frio, reflectia para que lado do fio cair agora, permitia-se sangrar pois a dor que lhe queimava a pele sobrepunha-se à dor que lhe incendiava a alma.
Chamar-lhe-ão fraco, mas como poderá ser assim tão fraco quando está disposto a sacrificar a alma por um amor que lhe roubaram logo à nascença?
Um beijo, um beijo apenas para florir mais um sorriso e afastar de vez a melodia triste de um adeus prometido.

Bruno:Carvalho
2010

Foto por: Filipe Gil

1 comentário:

Abelha Charlatona disse...

Quem me dera escrever como tu :)

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