CORRENTE


Indiferente à velocidade da corrente fez de tudo para se aguentar nela, simplesmente porque não poderia ser de outra forma.
Indiferente ao desassossego fez-se sombra num dia de sol, pegou em cada pedaço de si e colou-se com desprendimento, uma calma disfarçada de tempestade, uma paixão disfarçada de dor.
Velando o sono da sua muda companhia, fez-se grito imortal, uma ode ao silêncio, aquele silêncio cru que tantas vezes provara.
E pudera a vida ser um mistério a desvendar, pudera ser um segredo escondido, um fio da teia do destino, pudera ele ter sido um mau actor, pudesse o pano ter caído e nova peça ter começado.
Vive de memórias, aquelas suas, aquelas nunca suas mas sonhadas por ele, vive de hipóteses, meros desejos despejados no papel, escritos por tinta invisível.
Preso na sua cela com vista para o mundo, deixa-se vencer sem nunca ter tentado lutar, pela facilidade de culpar os outros, pela descrença que tudo possa ser diferente.
Traíu sua memória sabendo no entanto que ela não é mais que uma pequena poeira numa tarde de inverno, lavada pela chuva, gelada pelo frio.
No seu peito bate um coração sombrio, numa cadência doentia vai marcando o compasso para o esquecimento, uma pequena marcha fúnebre num eterno dia de Inverno.

Bruno:Carvalho
2010

Comentários

Mensagens populares deste blogue

RE(CANTOS)

A QUEDA