quarta-feira, 10 de março de 2010

O ESPANTALHO E A MUSA


Ele percorria lentamente os estranhos jardins do seu não menos estranho mundo, as raízes vermelhas das rovélias floresciam já em todo o seu esplendor, no ar os esquilos bébés voam de novo, sinal que a primavera havia chegado.
Sentou-se no pequeno lago no centro do labirinto de rochedos recentemente plantados, a frescura da água ensopou-lhe não sou a roupa com o corpo em si, sentia-se bem, um pouco estranho, mas era assim, um estranho num sonho estranho.
Sentiu uns passos ressoarem no terreno lodoso, na outra ponta do labirinto e completamente perdida viu a fada, não estranhou, haveria algo mais estranho naquele mundo de que uma flor nascer de raízes apontadas ao céu?
Levantou-se de repente e saltou as paredes do labirinto, afinal de contas era pequenas pedras recentemente plantadas, ainda não tinham 33 centímetros, arrancou uma rovélia com grande violência e quando se aproximou da fada e depois de quase a atropelar, ofereceu-lhe aquela linda raiz vermelha.
A fada assustou-se, teve medo de ser um troll, por vezes andavam por aí, musculosos mas de cabeça oca, eram criaturas sem dúvidas das mais burras naquele estranho mundo. Porém o ser que via à sua frente era um lindo espantalho, a sua palha estava lustrosa, o seu chapéu preto de abas largas encimava uma cabeça assimetricamente perfeita, as suas roupas esfarrapadas demonstravam o seu excelente gosto na moda, era atraente.
O espantalho fez o que sabe melhor e tentou espantar o pardal da ponta do seu nariz de madeira, se tivesse o dom da palavra naquele momento nenhuma poderia ter saído, não só por a sua boca ser constituída por botões de camisa, mas porque a beleza daquela fada era por demais sentida, muito para além de vista, até porque aquela cara perfeita e simétrica era deveras feia.
Ela sorriu ao ver a rovélia, como o espantalho não podia falar ela esboçou um sorriso e poisou um beijo redondo nos seus botões de camisa.
No bucólico entardecer daquele estranho mundo a chuva voltou de novo para abençoar aquele peculiar encontro, do chão brotou uma violenta tempestade, a fada abraçou-se ao seu espantalho, aquele que a iria livrar do frio, do medo, da insegurança de sentir apenas linda e não bonita, como toda a gente normal era.
Encostou o seu corpo com as asas encolhidas às roupas incríveis do seu recém encontrado salvador, debaixo das abas largas do seu chapéu negro encontrou o espaço preciso para receber aquela chuva abençoada.
O irritante pardal saltou do seu nariz quando a glória da chuva invadiu aquele jardim, sentiu-a perto de si, a sua palha vibrou com um arrepio, uma sensação de frio a percorrer-lhe a espinha de pau, e que delicioso era aquele frio, sentiu as asas delas fazerem-lhe cócegas, cócegas essas que não tinha de todo, mas era no entanto interessante senti-las na mesma.
O espantalho poeta, actor falhado de guiões agrícolas mais ou menos insalubres, havia encontrado a sua musa, em forma de fada, musas à antiga eram difíceis de encontrar, os patéticos seres que o tinham criado e se que estranhamente se denominavam por humanos, há muito as haviam extinguido, assim como o fizeram com a beleza, com a natureza, com a frescura da noite, com o bom senso e com a razão. Espalharam pelo mundo espantalhos como ele para afugentarem de si o sentido da vida, para afastarem a paixão.
O nosso espantalho sorriu um sorriso imaginado e com renovada paixão poisou os seus botões em forma de boca nos lábios dela.
Por esta altura tudo o que era pardal há muito tinha optado por ficar distante daqueles dois, algo lhes dizia que naquele jardim algo havia mudado, umas estranhas plantas haviam surgido, ao contrário das raízes das rovélias despontavam agora umas coisas espinhosas com uns bolbos carnudos e coloridos na ponta, os mais velhos lembravam-se das histórias que lhes haviam piado há muitas gerações em noites de sol, histórias que versavam de rosas, sim as rosas haviam voltado.
As pedras recentemente plantadas sugiram de repente sufocadas por pequenos braços verdes, desaparecendo rapidamente debaixo daquele manto verdejante.
O espantalho ouviu com os seus ouvidos imaginados aplausos, as rosas aplaudiam a sua performance, apercebeu-se que aplaudiam não o seu miserável papel mas sim a sua vida. A sua fada musa esvoaçou à sua volta, ele rodopiou com o vento, estatelando-se nos lençóis de rosas, sentiu-se ser invadido por um novo tipo de felicidade, sabia que havia dado vida a um novo jardim, realizado, esperançado e amado, com a sua fada junto ao seu corpo de feno fechou os seus olhos imaginados.
Do centro do jardim brotou então uma macieira uma pequena macieira que dos seus ramos explodiram mil flores brancas. Amedrontados os estranhos seres daquele estranho mundo mantiveram-se à distância, aterrorizados pela beleza os seres ditos como humanos pegaram em machados e marcharam para derrubar a esperança brotada daquele jardim. No fim do caminho porém encontraram uma firme fada, estoicamente a defender o que era seu, confiantemente a defender o que amava.
Quem poderá alguma vez derrotar os que se fazem de loucos para se salvar da loucura humana?

Bruno:Carvalho
2010


"MOONSPELL"
"Crystal Gazing"

"Why is everything to be denied?
That could make life a little bright."
Fernando Ribeiro

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