segunda-feira, 12 de abril de 2010

AMÉLIA


Entrou sorrateiramente no quarto junto com a luz que se infiltrava por debaixo da porta. A sua fragância obscureceu o ar que se acumulava do lado de fora das janelas baças. O frio, aquele sentimento tão familiar infiltrou-se pela sua carne, envolvendo as veias, os músculos até aos ossos, ao âmago de si.
A sua alma iluminou-se instântaneamente como vivesse para aqueles momentos, como se aquilo fosse o motor da sua quase inesperada vida.
Quando se levantou do poeirento cadeirão ficou parado a escrutinar a humidade formada pelo ar obscurecido nas janelas, a sua gravata desalinhada, a camisa branca suja junto aos cotovelos, as calças rasgadas nos joelhos, tudo nele indicava pertencer aquele quadro rústico.
As balas voaram de encontro ao seu desejo suícida, a primeira rasgou-lhe superficialmente a camisa no braço esquerdo lançando sangue no ar, a segunda passou-lhe rente à orelha direita sem lhe acertar no entanto, a terceira alojou-se na perna direita, após esta cambaleou e embateu na mesa esta virou espalhando os restos secos e pútridos de comida pelo chão também ele tão imundo.
Sacou da arma e disparou um único tiro, este acertou em cheio na testa do seu antagonista, despedançando-lhe o cérebro que se espalhou pelas paredes semi-destruídas.
Levantou-se, a adrenalina fervia-lhe ainda o sangue, não se sabia alegre por estar vivo ou desiludido por não estar morto.
A coxear saiu pela porta agora escancarada, o sol embateu directamente nos seus olhos e ele baixou a cabeça em resposta, do bolso tirou o pequeno medalhão e abrindo-o, olhou para a foto meio amarelecida de Amélia.
Quando levantou a cabeça viu-a à sua frente, aquele seu sorriso de longe pouco inocente, aquele olhar penetrante que tanto havia amado, finalmente tinha-a encontrado.
Sentiu os lábios dela descolarem-se dos seus, por uns momentos não percebeu a sequência dos acontecimentos, deitado no pó da beira da estrada, sentiu o peito a arder mas não era um fogo fáctuo, era um ardor, algo que o incomodava, lembrou-se em pequenos flashes, o estoiro, a dor, o vermelho ardente a espalhar-se pelo peito e o suave gosto ferreo do sangue na sua boca, aquela mesma que agora era abandonada pela lingua esfomeada de Amélia.
Ela sorriu e ele despediu-se do sol, mesmo que que este apenas o ferisse, despediu-se do pó, ao pó voltava nisso o padre José nunca o havia enganado na catequese de domingo de manhã. Despediu-se do amor mesmo que este tenha sido apenas mais um enigma na longa corrente de segredos e mentiras que tinha sido a sua inoperante existência.
Quando mirou por uma última vez o céu apenas fixou de novo os olhos dela.
Inspirou, uma última dor, depois o nada...
Acordou transpirado, a ferida na sua perna cheirava já a infecção, o suor misturou-se com a imundice do chão, tinha perdido a noção do tempo, ouviu sirenes, ouviu vozes mas em nenhuma delas reconheceu a de Amélia, aquela doce voz que o havia transformado em realidade ao dar-lhe um tiro directo no seu peito amargurado.
Tentativa nº1: Falhada...


Bruno:Carvalho
2010
foto por: Flávio Morais

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