OFÉLIA


Envolvido pelo perfume suave da tília solta das árvores do jardim, empunhando o jornal do dia, fumava um cigarro acabado de fazer, um ritual sagrado cada passo meticulosamente ensaiado para sair um cigarro perfeito.
Assim se dizia, fumar mata. Mas que existe na vida que não mate? Até o estar sentado no alpendre numa noite estrelada sem luar admirando as estrelas mata, pois, é mais um segundo, um minuto, uma hora que passar rumo à tal coisa chamada morte.
Aspirava cada passa do cigarro com um prazer desmesurado, aliás fazia-lhe confusão que algo tão bom pudesse matar, mas enfim, o povo sabe, o povo não se engana... Longe da vista longe do coração...
Ali sentado no banco desbotado outrora vermelho, abriu as páginas recicladas do jornal grátis distribuído no comboio, passava cada página como se passasse apenas o tempo, quem o visse pensaria exactamente isso, mas ele fazia muito mais que isso, era outro ritual, fazer algo que o fazia morrer mais depressa na busca por aqueles que fumando ou não, não quiseram esperar muito mais tempo.
Do berço à tumba vai um passo pequeno dizem uns, outros bastante mais convencidos por preces suspiradas para um céu umas vezes enevoado, outros limpo diziam coisas diferentes e estranhas. Na sua parca experiência com a religião e na sua inocência sobre o delicado assunto, sempre achou que com o céu limpo talvez essas pequenas preces, (aparentemente assim eram chamadas), chegassem onde quer tivessem que chegar mais facilmente.
Para ele tudo aquilo era por demais relativo para sequer reter a sua atenção, entre a subjectividade de um olhar lânguido de uma senhora de talvez uma quarentena de anos para um senhor doutor, pela aparência, nos seus já sessenta, de um sorriso inocente de uma bela jovem que há pouco havia desabrochado ou do irritante choro de uma criança reguila, pouco mais se passava.
Desfolhou o jornal de uma ponta à outra, o cigarro chegou ao filtro, cuidadosamente apagou-o no chão, tirou do bolso uma pequena caixa de latão e colocou a pirisca lá dentro, disso o haviam convencido e de certa maneira educado para que se se quisesse matar mais rápido não o fizesse com o planeta também, esse tão pouco culpado, feito réu atroz por uns e vitima inocente por outros, nestes últimos outros incluía-se ele.
Levantou-se à hora marcada, sempre àquela hora destinada, afinal nada acontecia por acaso, como poderia? De jornal debaixo do braço seguiu pela alameda das flores, pequenos lírios silvestres cresciam em torno das cerejeiras. Por vezes os políticos lá tinham algumas boas ideias, plantar cerejeiras era uma delas em vez das inócuas plantas ornamentais tão comumente utilizadas.
No sítio certo, à hora marcada como esperado, como ansiado há bastante anos, foi abalrroado por Ofélia (assim esperava ele) aquele nome havia dormido com ele todos aqueles anos, por vezes algo frustrado havia transformado Ofélia em poemas, em músicas, em odes de esperança embrulhados em melancolia.
Mas aparentemente ali estava ela, pelo menos tinha os olhos, o cabelo, os olhos que sempre havia conhecido nas suas deambulações pelos momentos onde tentava acelerar a morte com cada trago de nicotina para dentro de si, um pequeno pequeno receio urdia ainda dentro de si, que esta fosse a era errada, este mundo o sitio impróprio, por isso, todos os dias no decorrer desse momento de auto-mutilação misturado com um sentimento estranho de epifânia, procurava no jornal grátis do comboio das duas horas pelo necrotério, na esperança talvez que Ofélia fosse apenas um sonho gerado pela monotonia do seu desesperado sentido de existência.
O perfume era o mesmo, lembrou-se quando uma vez se livrou do tabaco de enrolar, nesse dia sentiu aquele perfume, tendo este ficado sempre impresso na matriz do seu corpo, este seu corpo que agora que reagia a esse aroma transformando-se ele todo numa cratera vulcânica, um Vesúvio renascido.
O choque foi duro como esperava que fosse, os seus óculos voaram para o rio e afundaram-se lentamente envolvidos por um cardume feroz de peixes esfomeados, dali porém não iriam levar nada, o seu nariz explodiu em dor e dele pingou uma gota de sangue, uma só.
O sorriso de Ofélia pegou-lhe a sensação de fogo liberto, um fogo fátuo, inextinguível, quando os seus olhos se encontraram, ela pediu desculpa e virou-se de novo para o seu anafado namorado.
Contou dez, dez vezes em que ela se virou para trás enquanto caminhava rumo à foz, pela expressão que viu na face dela, sabia que o seu sorriso estava a surtir efeito, riu baixinho, do chão apanhou algo, escrito num pequeno guardanapo estava um número de telemóvel rabiscado, rasgou-lhe instântaneamente a face um sorriso largo, na parte de trás uma frase estava escrita...

"Desculpa, tentei minimizar ao mínimo o choque, mas os óculos eram um sacrifício necessário."

Um pequeno smiley fechava a frase.
Colocou o papel no bolso da gabardina coçada, tirou do bolso o tabaco de enrolar e as mortalhas e deixou-as no caixote de lixo mais próximo, agora já não precisava de morrer mais depressa, pois da tela do seu destino, pintado por mãos corajosas havia Ofélia saltado para o mundo, e à hora e dia marcados haviam-se conhecido, como nunca pudesse ter sido de outra forma.
A sua decisão de poupar o planeta ao sofrimento supérfluo havia dado uma recompensa, eternamente grato o Universo conspirou finalmente para os juntar.

Bruno:Carvalho
2010

Foto por: Bruno Neves

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