domingo, 29 de agosto de 2010

GAIVOTA

- É um albatroz!!!
- Não é nada um albatroz, é uma gaivota!
- Não, é um albatroz...
- Os albatrozes são maiores, não vês que é tão pequena...
- Ok ok, talvez seja mesmo uma gaivota, de qualquer forma é muito bonita
- Sim, de facto, ser de uma outra espécie ou de outra espécie não lhe retira a bele..... hummm - Adoro quando me surpreendes assim com um beijo
- Ai adoras? Sou magnifica confessa, não me consegues resistir...
- Adoro também o teu sorriso, já te disse isso?
- Hummm, acho que não, ihihihi...
Pendurados num balcão sobre o mar ali ficámos atentos ao desenrolar da peça que se desenrolava à nossa frente, toda a a beleza inocente da natureza, a força do mar a quebrar-se nas rochas debaixo de nós, as gaivotas quase paradas no ar, sustidas pela força do vento, o frio reconfortante a vir com a brisa de norte, entrava no espaço entre nós, como que nos quisesse separar apenas para nos juntar com mais força e com calor.
Tomei a tua mão rugosa na minha calejada pelos anos.
Ali ficámos suspensos no tempo, um tempo que já não era nosso, ali ficámos no sítio onde sempre quisemos ficar, uma vida, uma longa vida partilhada, iniciada com um beijo teu numa quente tarde de Verão.

Bruno:Carvalho

2010


terça-feira, 24 de agosto de 2010

OLHOS BEM FECHADOS

Ela disse-me para fechar os olhos à noite, ao invés abri-os e olhei para o espelho, para os seus mil e um fragmentos.
Ela disse-me que dormisse, como fosse possível dormir quando a saudade aperta tanto ao ponto da dor física.
Ela disse-me para ter esperança, coragem, força num futuro, como se fosse possível eu garantir esse futuro, vivo do presente.
Estendido na cama sem lençóis fechei os olhos só para ter o prazer dos abrir de novo, provar e comprovar a vida, analisar através das rachas do tecto as curvas da vida, as imperfeições do ser.
Fico perdido, toldado pela miragem do teu corpo sobre o meu, sinto o cheiro da tua pele a infiltrar-se no meu corpo, fazendo-o entrar em ebulição, um rebuliço interno, nunca desfeito, nunca tentado, nunca ousado.
Ancoro nos sonhos pois estou farto de naufragar na incerteza, na incerteza do que queres ser, do que ousas ser para mim. Pois eu sou tudo em ti, a aragem da manhã, o abrigo da noite, a luz prateada do luar, e cada vez que o brilho de uma estrela choca com o brilho do teu olhar, eu expludo num beijo magnânimo, a oitava maravilha, o teu corpo fundido no prazer extasiante do meu.
Disseste-me para fechar os olhos e dormir, eu ousei dormir, apenas para sonhar-te nua na minha noite de luar, no campo vazio de um qualquer vale encantado, sozinhos sibilando aos ouvidos do espíritos, abraçados à frescura da natureza, despimos a última pele falsa, para vestir para sempre a verdadeira.
Com os olhos fechados ou abertos vejo sempre uma coisa, o teu olhar ofuscante do outro lado do espelho.
Bruno:Carvalho
2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SAUDADES

Queria tanto dizer-lhe o que era aquele fogo que tanto ardia, queria explicar-lhe que aquela filosofia, que aquela apatia não era mais do que um fantasia num mundo sem cor.
Queria tanto estar com ela, dentro dela, lá onde o calor se funde e os medos são amordaçados, queria tanto dormir sobre o seu peito, adormecer com o batimento do seu coração, com o sentimento da sua emoção.
As mãos tremiam-lhe porém ao pôr no papel as palavras que não podiam ser escritas, apenas ditas, proferidas com AMOR para poderem curar feridas abertas. Sentia a empatia dissolver-se no silêncio mas queria poder agarrar o vazio e quebrar a distância.
E o FOGO ardia, lentamente um fogo fátuo, que do topo de um mastro iluminava a maré sombria, da escuridão se fazia um caminho, apenas um destino.
E a ÁGUA em breve se tornou companheira indesejada, enquanto o fogo tão intensamente ardia, a água fria despia-o de medos, uma purificação gelada, um abraço de arrepios para mostrar-lhe a cor da vida.
Da água renasceu, um baptismo de fogo e coragem, deu à costa, com raízes invadiu a TERRA, e dela fez casa, no solo fértil plantou o amor que há tanto guardava numa pequena lágrima perdida no canto do olho, fez-se rebento novo, depois jovem planta, por fim sábio tronco, abriu os seus ramos, espalhou sementes.
E na Primavera do tempo, quando novas flores emergiram da casca do Inverno, abriu asas e voou, pois de AR era feito, de ar e de sonhos, de beijos prometidos, de abraços amarrados.
Queria dizer-lhe que aquele lugar tão seu era verdadeiro, para além da mentira de um mundo vazio existia um lugar só deles.
Decidiu dizer-lhe.
Que os seus olhos eram mares, os seus lábios borboletas, as suas mãos papagaios de papel que desenhavam no seu corpo ondas de prazer.
E disse-lhe que a amava, e quanto a amava.
A distância obliterada pelo desejo fez-se sussurro no ouvido e o medo fez-se beijo.
Bruno:Carvalho
2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O fim de uma história é sempre o inicio de outra.
Mais ou menos elaborada, com muito ou pouco substrato, movemos-nos como ondas de história em história como as páginas de um livro disposto à brisa matinal.
E procuramos.
A busca incessante pelo sentido de ser, a busca pela libertação daquilo que realmente nos prende, daquilo que é mau em nós e que nos faz mal mas que ironicamente nos custa mais a livrar.
E buscamos a verdade, como se de facto ela existisse, como se ela não fosse mais do que a minha ou a tua versão da história, caminhamos eufóricos como políticos em eterna campanha eleitoral.
Nesta equação mais ou menos difícil somamos aquele denominador comum, a esperança, sempre em busca dela, por mais remoto que o farol que vemos através do nevoeiro esteja, esperamos sempre que esteja ali, apenas a uns míseros quilómetros e assim vamos de dia em dia, náufragos esperançosos da margem, mas saudosos do mar, pois na vastidão azul perde-se a humanidade, somos nós contra o céu, somos nós como ondas indo e vindo, puxados pelo luar vagueamos como marés, um ciclo eterno.
E de dor e morte já estamos todos empanturrados, vacinados pelo amor contra a desesperança, caminhamos olhando em frente, usando a cabeça lá no alto do nosso corpo, bem erguida como sempre deveria ter estado, olhos em frente, no horizonte, no nada, em ti.
Mas o que é um sonho?
Uma memória esquecida num inconsciente que não é mais do que todos os nossos sentimentos somados.
Bruno:Carvalho
2010
HEVEIN
"New Hope"

terça-feira, 10 de agosto de 2010

WHICH THE BEST UNFORGIVEN?

Aqui está a minha escolha!
1º Unforgiven III (Death Magnetic)

2º Unforgiven II (Reload)
3º Unforgiven (Metallica)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

LEONOR

Mexe-lhe nas pequenas mãos, embala-as carinhosamente, afaga-as imaginando um momento único, uma sensação de vida que flui daqueles pequenos olhos, a inocência liberta-se no ar como incenso derramado num momento mágico, quase religiosamente olhamos a pequena Leonor com os olhos e o coração cheio de amor.
Verás o quanto a beleza não é apenas uma imagem escultural num espelho, conhecerás a lua e os seus segredos, descreverás fadas e unicórnios, dos teus lábios brotarão poesias.
E nós aqui estaremos doce Leonor, submersos pela tua inocência emergimos por uns momentos da ganância opressiva deste mundo.
Pois hoje nasce mais uma vida, a tua vida, o nosso interminável contentamento.

Dedicado à minha pequena e adorada sobrinha Leonor
Bruno:Carvalho
2010
ION
"Adoration"

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

SIBILA

Chamavam-lhe Sibila mas ela preferia poetisa dos tempos passados, presentes, futuros. Males de amores, temores, suores. Males de dinheiros, trapaceiros, azeiteiros. Males de saúde, mau olhado, burlado.
Tudo lhe pediam para ver, perscrutar as neblinas cinzentas, os fumos perenes do tempo esquecido.
Via auras, dizia que as via distintamente à volta de alguém, havia quem se ria, havia quem a achava graça, havia quem lhe rogasse pragas, maiores ainda que aquelas que tentava desfeitear.
Deram-lhe a vocação, pediam-lhe agora o retorno do seu investimento, de palavras dos seus lábios nascidas mudavam-se vontades e verdades, mudavam-se amores e paixões. Das suas mãos mais ou menos calejadas pelo trabalho brotavam energias e quem as via, murmurava maravilhas, milagres feitos outros sonhados.
Infelizmente de Sibila nada tinha, via apenas com olhos de ver o que realmente via, dizia tudo o que havia para dizer, nada era profético, talvez poético, acima de tudo sincero.
Fazia que as pessoas acreditassem em tudo que já acreditavam mas que tinham medo de assumir.
À noite sentia o luar, envolta no olhar da noite aquecia-se com o xaile, de caneca de chá de mirtilho numa mão, segurava com a outra o livro em braille.
Diziam que era Sibila mas simplesmente queria ser aquilo que ninguém lhe dizia ser.
Mulher bonita, frente ao espelho despida, sentia o que o seu corpo era, imaginando ser apenas humana, nem troiana nem espartana, apenas uma mulher num corpo de ferro, com olhar de vidro mas inundado de vida.
Diziam que era Sibila mas do seu futuro queria apenas sentir o muro, sinal que algo havia a vencer, antes lutar que morrer.

Bruno:Carvalho
2010

EXORCISMO

Exorciza os demónios da minha alma Os fantasmas inumanos que consomem a minha carne Liberta-me, perdoa-me. Exorciza o meu corpo com...