SIBILA

Chamavam-lhe Sibila mas ela preferia poetisa dos tempos passados, presentes, futuros. Males de amores, temores, suores. Males de dinheiros, trapaceiros, azeiteiros. Males de saúde, mau olhado, burlado.
Tudo lhe pediam para ver, perscrutar as neblinas cinzentas, os fumos perenes do tempo esquecido.
Via auras, dizia que as via distintamente à volta de alguém, havia quem se ria, havia quem a achava graça, havia quem lhe rogasse pragas, maiores ainda que aquelas que tentava desfeitear.
Deram-lhe a vocação, pediam-lhe agora o retorno do seu investimento, de palavras dos seus lábios nascidas mudavam-se vontades e verdades, mudavam-se amores e paixões. Das suas mãos mais ou menos calejadas pelo trabalho brotavam energias e quem as via, murmurava maravilhas, milagres feitos outros sonhados.
Infelizmente de Sibila nada tinha, via apenas com olhos de ver o que realmente via, dizia tudo o que havia para dizer, nada era profético, talvez poético, acima de tudo sincero.
Fazia que as pessoas acreditassem em tudo que já acreditavam mas que tinham medo de assumir.
À noite sentia o luar, envolta no olhar da noite aquecia-se com o xaile, de caneca de chá de mirtilho numa mão, segurava com a outra o livro em braille.
Diziam que era Sibila mas simplesmente queria ser aquilo que ninguém lhe dizia ser.
Mulher bonita, frente ao espelho despida, sentia o que o seu corpo era, imaginando ser apenas humana, nem troiana nem espartana, apenas uma mulher num corpo de ferro, com olhar de vidro mas inundado de vida.
Diziam que era Sibila mas do seu futuro queria apenas sentir o muro, sinal que algo havia a vencer, antes lutar que morrer.

Bruno:Carvalho
2010

Comentários

Araúja Kodomo disse…
Muito bom, bem escrito :)
Ayl disse…
Muito bom!

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