domingo, 12 de setembro de 2010

MEDO

Era rotineiro, desde que se lembrava estava sempre naquela esquina a fumar um cigarro às 18h00 em ponto, tinha a ténue memória de os ver passar sempre de mão dada, talvez não fosse assim há tanto tempo.
Sempre soube que se havia apaixonado no momento que a havia visto, mas nunca tinha avançado, o medo tolheu todos os seus esforços por ser alguém numa vida que pouco mais era que um conjunto esfarrapado de acções.
Daquela vez havia de fazer tudo bem, sempre que cruzavam os seus olhares ela sorria e ele derretia-se, sentia aquele arrepio maravilhoso apanhar-lhe a espinha, envolvendo o seu coração, ficava alerta, ficava vivo.
Sentia ainda um pouco dessa excitação mesmo agora naquela escura cela escrevendo nas folhas brancas do papel daquele caderno encarnado.
Certo dia porém algo quebrou a rotina, ela não tinha passado, algo em si despertou, como um alarme invisível o seu coração disparou a cem à hora, durante o resto do dia ficou enjoado e durante a noite não dormiu, teve pesadelos, suores frios.
No outro dia porém ela voltou a passar, mas vinha mudada, o olhar que se cruzou com o seu não vinha cheio de luz, mas cheio de desespero e tristeza, em volta do seu olho esquerdo uma equimose negra contrastava com o seu olhar sempre belo, ele a seu lado, beijava-a e sorria...
Apagou o cigarro, cerrou os punhos, tentou dar um passo em frente mas algo o travou naquele momento, nunca soube o quê, agora tristemente sabia, tinha sido o medo...
Desta vez faria o que devia ser feito.
Pelas 17h00 do dia seguinte seguiu-o pelo caminho, conhecia cada recanto do antigo caminho do olival, envolto em canaviais em ambos os lados era um sitio ideal para emboscadas, naquele final de tarde chuvoso de Inverno, a noite já havia caído, foi célere, quando ele passou junto à fonte ele saltou do escuro e com a sua navalha fez um corte conciso na garganta do seu alvo, desapareceu tão brevemente como tinha aparecido.
às 18h00 lá estava na mesma esquina, viu-a ao longe, corria para ele, finalmente algo iria acontecer de bom na sua vida, o seu coração acelerou quando ela chegou perto dele e ele sentiu o seu perfume, no entanto misturadas na chuva que cobria o seu rosto vinham lágrimas...
- Socorro, ajuda-me!! Alguém matou o meu irmão!! - Gritou desesperada.
Ele correu conduzido pela mão dela, junto à fonte o seu enlace foi no entanto quebrado, tudo pareceu decorrer em câmara lenta a partir desse momento, o cigarro caiu-lhe das mãos e apagou-se de vez no chão molhado, pessoas embateram contra ele, tudo o que se lembrou no momento foi fugir, virou-se e fugiu, no entanto ainda viu o olhar dela, transpirava tristeza e desapontamento...
No dia seguinte foi entregar-se na esquadra, aguardava agora julgamento numa cela poeirenta que haveria de ser a sua casa por muitos anos.
No desses dias de espera teve uma visita inesperada, ela veio vê-lo, o seu olhar nada transparecia, chego em silêncio, sentou-se na cadeira do outro lado da mesa e olhou-o fixamente nos olhos, ele não suportou aquele olhar, todo aquele ódio no olhar de quem amava era demasiado para ele, friamente disse-lhe.
- Sabes o que sinto agora por ti? Pena... é tudo o que sinto agora, todo o amor que me consumia ao ver-te transformou-se em ódio! Odeio-te! - Cuspiu-lhe na cara e levantou-se.
Fora a última vez que a vira.
Passados já dez anos desde aquela noite, passava agora para o papel toda as suas memórias, iria sair por bom comportamento, iria escrever tudo o que sempre havia sentido naquele cadernito vermelho, depois pegaria nele e queimá-lo-ia, esqueceria o passado para tentar uma nova redenção.
Chegou o dia da liberdade, da sua liberdade, respirou fundo e fez-se ao caminho, como era de esperar ninguém estava à sua espera, ninguém à excepção de um olhar que sempre havia guardado, a seguir à curva do café do Mar, deparou-se com o seu olhar, amadurecido por mais dez anos de vida, estava agora no seu maior esplendor, mas não viu só o seu olhar, viu também um cano escuro de uma arma apontado à sua testa, não houve tempo para muito mais, ouviu um estrondo e caiu no pó, finalmente ao pó regressava, depois veio a escuridão e antes de um último suspiro ouviu ainda um outro estrondo e sentiu algo cair em cima de si...
Depois veio a morte embrulhada na hipótese de redenção, a sensação de vazio que nem o maior dos amores poderia preencher.

Bruno:Carvalho

2010

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