SEPHYR E HELENN

À beira rio por entre os salgueiros e os chorões nasceu uma lenda, um mito eterno transformado em história de amor.
De boca em boca passou a história trágica de Sephyr o querubim caído e Helenn, a fada rainha.
Numa história de bem e mal, o mundo formou-se das fundições das estrelas, numa explosão incandescente de energia, os deuses moldaram a terra à sua imagem, e majestosas montanhas, esplendorosos mares e encantadores vales nasceram de um nada que era tudo.
Porém cometeram o erro da omnipotência, votaram as suas criações ao desterro e manipularam-nos com desdém, fartos do tratamento hipócrita os querubins quebraram as correntes que os ligavam à divindade e desceram à terra, o primeiro, Sephyr, trouxe com ele a luz, e as trevas da ignorância abriram no mundo dos homens.
O seu coração vinha cheio de ódio, raiva e sede de sangue, na terra achou terreno fértil para plantar as suas sementes, tornou o Homem mais forte, comprou-lhe a alma em troca de poder e os seres humanos mostraram a sua verdadeira natureza.
Os deuses plantados nos seus terraços celestiais observaram estupefactos o caos que agora dominava o mundo, algo haveria de ser feito, decidiram então tomar a mais drástica das medidas, expôr ao mundo a sua mais bela e inocente fonte de inspiração, Helenn, nascida deusa, propôs-se tornar-se mortal para salvar o mundo, desceu também ela do reino das nuvens, quando pisou porém o solo, a sua natureza inocente foi-se corrompendo, a cada dia Helenn definhava falhando redundamente o plano divino, mas quis o destino que a beleza tocasse um coração de gelo, Sephyr viu Helenn definhar, algo em si mudou, algo em si renasceu fazendo-lhe lembrar o seu passado divino, pela primeira vez em milénios sentiu a sua raiva desvanecer-se, compadecido da fragilidade de Helenn, Sephyr pegou-lhe nas mãos e ousou olhar-lhe nos olhos, foi esse momento que nasceu o Amor, os seus olhos colaram-se à pele um do outro, naquele monte foi semeada nova semente, dela nasceu um grande carvalho, aquele carvalho que agora servia de pouso aos seres humanos e animais.
Afinal sempre haveria esperança para o mundo.
No entanto Sephyr nunca perdeu o mal que o havia corrompido, agora alimentado pela esperança e pelo Amor, lançou-se numa guerra sem cartel contra os humanos, forçou-os a arrependerem-se, forçou-os a tornarem-se o que não eram, puros.
Furiosos com a traição do seu mestre e senhor, os humanos armaram uma cilada a Helenn, aproveitaram a sua ainda recente humanidade e atraíram-na através da sua compaixão e carinho por tudo que era vivo, inconsciente que se dirigia para o seu túmulo Helenn correu desenfreada naquela manhã de neblina para a beira do rio, ouviu o choro de uma criança, uma criança que se afogava, porém ao chegar não viu mais do que sete homens empunhando arcos, retesando os seus fios estes dispararam sete flechas, todas elas penetraram o corpo esbelto e formoso de Helenn, incapaz de compreender o ódio humano, Helenn nem sequer lutou, baixando os braços caiu na erva recém nascida, e aí ficou ofegante à espera do fim.
Os homens correram felizes pelo seu feito, o sangue inocente havia regado a terra e a sua vingança havia sido cumprida.
Tendo partilhado entre ambos a semente do Amor Sephyr e Helenn haviam ficado para sempre ligados pelo coração, portanto quando Helenn definhou em direcção à sua morte, Sephyr sentiu uma grande dor e cambaleou na cabeça da batalha, os homens viram nisso sinal de fraqueza e forçaram o ataque, na confusão que se seguiu Sephyr foi atingido por uma seta envenenada, esta cravou-se-lhe no peito e este tombou, a batalha havia sido perdida e abandonado no campo de batalha o Querubim Caído não era agora mais que um peão perdido.
Porém não havia chegado ainda a sua hora, abriu os olhos e ergueu o olhar aos céus, estes choravam pela morte de Helenn, levantou e lutou contra a morte que o consumia, voou contra o vento e procurou a sua amada, ao longe viu um rio que se tornava cada vez maior e ao contrário do azul o vermelho era a cor que dominava o seu caudal.
Encontrou a Helenn esvaindo-se em sangue juntou à margem, ainda respirava embora a vida se tivesse escapado completamente do olhar, pela primeira e única vez Sephyr chorou, a lágrima caiu no lábios de Helenn, esta consciente da presença dele abriu os olhos, e pela primeira e última vez beijou-o.
Presos por aquele único beijo, deixaram-se cair na margem daquele rio, naquele sitio nasceram um salgueiro que representava a força de Sephyr e um chorão que representava a fragilidade de Helenn.
Dali em diante o mundo viveu no frágil equilíbrio entre Bem e Mal, uma vezes vencendo o primeiro outras o segundo, no meio desta guerra eterna os homens degladiaram-se mais mil vezes até descobrir a Paz, este novo sentimento que haviam conhecido tornou-os mais brandos e racionais, uns oscilaram mais para a facção de Helenn e ofereceram a sua vida ao serviço dos outros, à justiça e divindade. Outros atraídos pela sede de poder abraçaram Sephyr e viveram na loucura, na sede de sangue e na guerra.
Porém a maioria foi bafejada pelo Amor, por isso sob a protecção de ambos viveram no equilíbrio, conscientes que não eram eternos, viveram a vida como ela foi feita para ser vivida.
Diz-se que Sephyr e Helenn ainda por este mundo vagueiam, na forma de espiritos irrequietos em busca de paz, poderá ser verdade, poderá ser só mais uma lenda, mas uma coisa é certa, após Sephyr e Helenn e o nascimento do Amor nada mais foi o mesmo no reino humano. Por isso com o tempo os deuses foram esquecidos, não sendo agora mais que memórias de um tempo em que os homens não conseguiam julgar-se pelo que eram.
Bruno:Carvalho
2010

Comentários

Araúja Kodomo disse…
Texto interessante, gostei :) *

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