PRISÃO

Um por dois, dois metros quadrados, é esta a área da minha cela, da minha prisão.
Com vista para um mundo complexo e estranho, arrasto-me com prisão atrás, um peso morto, um espaço obtuso sem barras nem correntes, mas com algo muito mais paralisante, medo.
Uma parede invisível de incertezas e desconhecido, uma barreira intangível que me impede de dar um passo em frente, tantas vezes o faz que quando finalmente o consigo dar, descubro que o fiz à beira do abismo.
Esse abismo infelizmente surge disfarçado numa forma que nunca pensávamos que o fim do mundo seria assim, um nada, um grande nada disfarçado de tudo.
O conforto, as palmadas leves nas costas, as palavras doces cheias de vazio, do meu púlpito um por dois, declamo discursos de inane coragem, como se as parcas palavras que escrevo de facto fizessem algum sentido.
E enquanto o mundo gira num tempo só dele, eu perco as pessoas, perco o me fez nascer, o objectivo último, viver.
E o sangue torna-se água, num copo agora vazio e que jamais voltará a encher, tornamos-nos híbridos, não somos nem nós nem os outros, somos uma mistura, uma nova espécie perdida do vazio, despida de objectivos de vida, morremos, todos os dias um pouco mais.
E enquanto a natureza se revolta e tenta nos fazer ver que de facto somos insignificantes ao que ao Universo diz respeito, nós seguimos cegos, agarrados ao dinheiro que pretensamente nos faz felizes, teimamos em não querer ver, como se assim enterrados de cabeça na areia pudéssemos evitar a destruição, aquela que há muito sabemos nos ter sido destinada.
Não poderia ser de outra forma, o ser humano nasceu para destruir, a si próprio, à sua espécie, às outras espécies, e num final redentor ao próprio meio em que vive.
Mas desvio-me do que à minha cela diz respeito. Perco-me na subjectividade para me esconder da objectividade de me julgar, um auto-exame, uma tomada de consciência, e enquanto recebo os pequenos avisos que o meu corpo sujeito aos excessos de tantos anos começa a vomitar, tento romper a barreira invisível e saltar para o mundo, o meu mundo, descubro que afinal não estou a tentar tanto assim.
Por isso de imediato a a cela parece querer alargar-se para receber novo prisioneiro, eu agarro-me a esse novo objectivo, aprisionar na minha própria prisão outra pessoa, uma pessoa que tanto quero ver livre que me convenço que a minha prisão é a liberdade que ela sempre esperou ter.
A consciência desperta, pois apesar de tudo e inexplicávelmente o sol continua a nascer, parece indiferente ao que gira em torno dele, mas aqueles que estão presos sabemos que ele não brilhará para sempre e que cada raio é uma bênção, pois para nós a escuridão é simplesmente a verdade que sempre abraçámos.

Bruno:Carvalho
2010

Comentários

Narcolepsia disse…
Como eu te queria confortar... beijo

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