quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

LINHA

Em câmara lenta.
Tudo parece estar a regressar em câmara lenta, como se uma linha se tivesse desenhado entre mim e eu próprio, vejo-me finalmente com os olhos de outra pessoa e no entanto parece-me tudo tão familiar.
Os cigarros, as drogas para me porem longe do pânico, as mesmas que me fazem deixar de sentir quase tudo, o mesmo banco do jardim virado para o rio, os mesmos versos ensopados de revolta e mágoa, mesmo aqueles que escondo sob uma máscara de pretensa felicidade.
Caminho à velocidade normal mas mesmo assim não me consigo apanhar do outro lado da linha, não me reconheço numa vida tão minha, através destes novos olhos simplesmente apreendo o sentimento tão próprio e ali fico de novo aos círculos, perdido, abandonado, perdido de mim mesmo sem nunca me esquecer o que fui.
Nem numa casa de espelhos com mil um reflexos de mim próprio consigo esquecer-me, há sempre aquele sentimento de não saber quem sou.
Tudo parece desvanecer-se por entre o fumo, conforme um novo sopro assoma aos meus lábios entro numa espécie de mundo paralelo para me aperceber que estou vivo, também quando a lâmina trespassa a carne ou quando aquele dor irritante me enche o peito, em todos esses momentos sinto que estou vivo, só porque toda essa dor substitui outra mais profunda.
Quando uma ferida sara e passo os meus dedos pela cicatriz e me lembro de como a sofri, apercebo-me que o tempo passou e eu nada fiz para o parar, para aproveitar, todos aqueles momentos sorvidos pela pressa de sentir.
O que me fez tão vazio?
Apenas um receptáculo, um casca vazia à deriva, sem saber como me realizar, como ser feliz, como ser verdadeiro, o que me fez tão insignificante?
O que me fez tão egoísta?
Quando pela primeira vez decidi que olhar para dentro era a melhor solução?
O que me fez tão vago, tão disforme que preciso de me destruir para me sentir querido?
As mesmas perguntas pairam no ar, conforme eu me tento agarrar, enquanto eu tento acelerar a câmara lenta para finalmente atravessar a linha e me apanhar no outro lado, para finalmente gritar de olhos nos olhos e soprar vida para o espaço vazio dentro de mim.
Num duelo final, sou eu contra mim, armas disfarçadas de misericórdias, enquanto arquitecto o meu maior e mais intenso de acto de egoísmo.
E mesmo na ponta do abismo não me deixo de sentir demasiado ligado ao que sou para dar o passo em frente.
Assim faço-me ignorante aos alertas vindos do outro lado da linha, como se ela fosse feita de tijolos e não de ar, torno-me surdo porque não me convém ouvir a verdade, que por detrás de um olhar triste estará por certo algo mais profundo que o meu ego.
Quando é que me convenci que a inacção é o segredo da cura?
Quando é que decidi lamentar-me em vez de lutar?

Bruno:Carvalho
2010

2 comentários:

Ayl disse...

Demasiadas perguntas.
Concentra-te numa de cada vez ;)

Narcolepsia disse...

Tanto que temos cá dentro que incomoda, perturba, destrói, confunde... precisa ser deixado para trás para poder ver o quanto há também de bom.
Tu és muito para mim.

DON'T BOTHER

Don't mind me, just wandering around drawing circles in the air Don't mind me, nothingness is just a state of mind Don't bo...