sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

REFLEXOS

Por um momento julgava ter herdado a loucura dos meus antepassados. Olhava nos olhos da vergonha, do medo, do orgulho, da inocência, do destino.
Quando olhava pela janela da alma vislumbrava outros mundos dentro do meu mundo. A paisagem alterava-se ciclicamente e com ela a mole humana que a preenchia, e eu no lado de dentro ou de fora conforme a perspectiva, observava, a minha missão era observar.
No princípio, aquele trabalho agradava-me, ver o que os outros não viam, testemunhar verdadeiros feitos, feitos inimagináveis que a sociedade humana era capaz dos maiores feitos. No entanto, era também responsável pelos piores.
A certa altura vi os céus ficarem negros, um sol escondido por detrás duma nuvem. A sombra desceu sobre a areia do deserto, o sufoco veio em forma de nuvens venenosas e o fogo ergueu-se da terra para reclamar o que lhe pertencia. Vi gigantes tombarem, arrastando o ar com braços verdes, sem pernas e sangravam, um sangue branco que ensopava a terra.
Depois vi a massa azul do oceano ser engolida por almas de plástico, vi as criaturas serem engolidas pela sua fúria, vi grandes tubos fumegantes que arrancavam o horizonte, vi coisas vivas sufocarem.
A minha mente sucumbia sob o peso de todas estas visões, mas depois vi ainda o homem que ria, do outro lado da janela, uns olhos vazios, cheios de ganância, cheios de egoísmo.
A loucura! Senti os seus dedos perfurarem-me o corpo, caí de joelhos sobre o mármore frio, o meu peito atrofiava, o ar entrava em golfadas contaminadas. Forcei-o a levantar-se, a enfrentar de novo aquele olhar e foi então que vi o seu primeiro olhar de surpresa. O medo deixara de me percorrer e sorri. O reflexo embateu na janela que se abriu.
Vi, então, homens que cuspiam fogo, pessoas abraçando-se de medo criaturas rindo de prazer. No meu âmago começou a formar-se um grito, crescia a cada vez que olhava numa direcção diferente, enchi o peito de ar e libertei a minha voz.
Soltou-se no mundo, naquele e nos outros, o sol rasgou a escuridão, as asas do vento expandiram o sufoco, as águas brotaram e do chão brotou de novo vida. Um pequeno gigante ergueu-se, nos seus braços as flores novas de uma nova alvorada.
Suspirei, deixei na terra uma nova oportunidade.
Fechei de novo a janela.
Mirei o meu reflexo e virei as costas.
A loucura desaparecera!

Bruno:Carvalho
2010

1 comentário:

Narcolepsia disse...

Essa loucura só pode durar um momento. Depois quero o meu Bruno de volta ;)

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