ALFAZEMA

E ali estava ela, na banca de jornais com a sua blusa justa de um branco imaculado semi-transparente que deixava transparecer o preto do seu soutien, a sua silhueta era exactamente aquela que julgava lembrar-se não sabia bem de onde.
Um sorriso abriu-se quando se aproximou, ele manteve a sua postura de burocrata sério, sisudo e educadamente pediu o Jornal de Economia, deu-lhe o dinheiro e tentou prolongar um pouco o toque mas sem dar muito nas vistas, o seu rosto continuou impávido, mas o sorriso dela aumentou de intensidade. Será que ela notou alguma coisa? Embaraçado disse um repentino obrigado quando ela lhe devolveu o troco, virou costas e entrou no grande edifício de escritórios onde trabalhava há já 15 anos.
Demasiado tempo. Ultimamente não sabia o que se passava com ele, talvez o incidente o tenha transformado, talvez o tiro lhe tenha trazido mais de que um coma profundo e dois anos sem memórias. Mas a memória daquela simples rapariga que antes de tudo acontecer era a empregada de limpeza do seu escritório a mesma que ele gozou várias vezes com os seus tão másculos companheiros, de um patinho feio havia nascido um lindo cisne, aquela rapariga parecia-lhe agora bastante familiar, não o sentia simplesmente na cabeça, mas em toda a sua pele, como se no par de anos do seu apagão humano ela tivesse estado presente.
Era um disparate claro, não sabia sequer o seu nome, disso ele lembrava-se perfeitamente, nunca para ela havia falado, no entanto aquela sensação de inquietude não parecia desaparecer, parece que ao olhar para aqueles olhos se apercebia de tudo o que tinha perdido, não era um sensação incómoda, simplesmente uma sensação nova.
Nessa noite deitou-se algo ansioso, deu voltas e voltas na cama demasiado grande para uma pessoa só, no seu espaçoso apartamento parecia que se moviam sombras conhecidas, como se o coma estivesse de volta, só que desta vez parecia tomá-lo de olhos abertos e pleno de consciência. Sentou-se na cama e abriu a gaveta da mesinha de cabeceira, dela retirou um lenço amarelo de linho, a primeira coisa que havia encontrado junto à sua almofada naquele quarto frio de hospital onde havia passado dois anos na penumbra e na letargia de uma existência vegetativa.
Acordara confuso, não consegui estabelecer qualquer ligação entre ele e aquele simples lenço amarelo, nele ainda restava um ténue perfume a alfazema, a primeira coisa que fez ao regressar à vida fora apreender aquele odor maravilhoso e tinha-o feito como se fosse a primeira vez.
Aquele lenço não fazia de forma alguma o estilo da sua ex-mulher, não, era demasiado simples para a sofisticada Selene, o pensamento nela fez-lo desejar adormecer de novo.
Acordou na manhã seguinte com um sentimento de ressaca, mas não era uma ressaca alcoólica, era uma outra que ele não conseguia explicar, doía-lhe a cabeça, metade pela falta de descanso a outra metade pela força para se lembrar o que significava aquele lenço...
Tomou os cereais, vestiu o fato e a gravata, agarrou a pasta e saiu para mais um dia, porém aquele dia não parecia ser um dia qualquer, enquanto caminhava para o carro essa sensação parecia não o abandonar.
Tomou café na pastelaria habitual, saiu de novo para comprar o jornal como era seu hábito antes de mergulhar no mar de processos que se acumulavam na sua secretária, ao virar da esquina e ao vê-la de novo ficou tonto e encostou-se à parede, parecia que uma rajada de vento o impelia para trás, no entanto o tempo estava sereno e solarengo, desse dia ela trazia uma blusa preta, o sorriso continuava lá, contagiante, quente, familiar, mas o que vez cambalear fora o lenço amarelo que prendia os seus cabelos negros, sobre o seu rosto um pequeno fio de caracóis caia-lhe sobre o olho esquerdo, sentiu-se ofegante e trémulo. Que raio se passa? Murmurou entre dentes.
Tentou caminhar o mais confiante e sereno possível na direcção da banca, ela viu-o aproximar e sorrindo deu-lhes os bons dias tratando-o pelo nome, mas como sabia ela o seu nome? Era uma desconhecida, nunca havia trocado mais de duas ou três palavras com ela.
Tocou no lenço que jazia no bolso das suas calças, de repente o mesmo cheiro a alfazema subiu-lhe ao olfacto, era demasiado forte para vir do seu lenço... Parou estarrecido enquanto uma súbita onda de prazer tomou conta do seu corpo ainda trémulo.
Nesse dia pediu-lhe mais que o jornal habitual, algo o fez formular um convite para café, naquele dia, depois de almoço, a leveza e a naturalidade como ela aceitou o convite deixou-o ainda mais longe de si, parecia noutro mundo, paralelo.
Entrou no escritório algo confuso e desconfortável, tudo parecia em silêncio apesar das pessoas quase gritarem aos seus ouvidos.
O almoço chegou, pouco comeu, sentia-se ansioso como fosse ainda um adolescente e não um homem já com uma trintena de anos. Caminhou acelereradamente para o local do encontro, de certa forma quase desejava que ela não aparecesse, algo estava demasiado errado com ele, ele não se lembrava assim, lembrava-se frio e calculista, demasiado apegado ao seu status e à sua conta bancária para sequer se dar ao trabalho de olhar para qualquer outra pessoa, o mundo era ele, era o centro, que se passava?
Marcara um local inconscientemente, foi o primeiro que lhe veio à cabeça quando estava demasiado enfeitiçado pelo sorriso dela e por aquele insistente aroma a alfazema, agora quando chegou e se sentou na esplanada à beira lago, aquilo tudo parecia-lhe estranhamente familiar, uma sensação de dejá-vu inundou-o, pareceu que se deslocava noutra velocidade que o resto das pessoas, um flash, uma memória, vieram-lhe sons de risos aos ouvidos, a mão pareceu ser tocada, mas não havia ninguém à volta...
Ela apareceu com vestida com a mesma blusa negra, com os três primeiros botões desabotoados salientando-lhe os seios, entre as suas pernas o seu sexo endureceu, tentou descontrair-se para não cair no embaraço, o mesmo lenço amarelo encontrava-se agora à volta do seu pescoço contrastava com a alvura da sua pele pálida como uma planície coberta de neve, os seus caracóis negros flutuavam na leve brisa, os óculos que agora trazia pareciam realçar o verde dos seus olhos.
Sentou-se serenamente e deu-lhe um beijo na face, tão naturalmente como se conhecessem há muitos anos, outro flash, outra memória, conhecia aquele beijo e quando ela o beijou nos lábios reconheceu o seu sabor, neste momento entrou em pânico, incrédulo foi incapaz de formular qualquer palavra que fosse, foi sendo invadido por uma enxurrada de memórias, primeiro começou como uma pequena sensação de comichão na sua cicatriz, depois foi subindo até ao seu coração, este acelerou passando das 50 batidas às 100 num piscar de olhos, embriagado pelo prazer e por algo mais que ainda não conseguia saber o que era pegou-lhe na face e beijou-a profundamente.
Nesse momento tudo passou a fazer sentido, estava num sonho que sabia ter sido a sua vida antes da sua quase morte.
Levou-a para o seu apartamento e enquanto desenfreadamente tiravam as roupas um ao outro, as peças que faltavam ao puzzle foram sendo colocadas no lugar, conhecia aquele corpo, conhecia a doçura daqueles seios, conhecia o quente que habitavam entre as pernas dela, conhecia a imagem que estava reflectida no seu olhar, reconhecia o nome que ela no meio do prazer sussurrava ao seu ouvido, penetrou-a gentilmente, os corpos foram fluindo numa dança que ele sabia agora já ter dançado, atingiram o clímax ao fim de quase uma hora, juntos, unos, como tinha sido antes do eclipse da sua alma.
Adormeceu sereno nos braços dela. No silêncio simplesmente interrompido pela pacifica respiração  e pelo bater compassado do seu coração finalmente o pano que escondia o palco que tinha sido a sua vida foi descerrado.
Lembrou-se do café do lago, lembrou-se de caminhar de mãos dadas com ela, enquanto a brisa fresca daquela noite de verão os inundava, lembrou-se das suas palavras, entre elas recordou principalmente felicidade e amor. Lembrou-se também do tom cruel de um disparo, a sua cicatriz doeu de novo, lembrou-se de cair na relva molhada pela orvalhada da noite, lembrou-se que o seu sangue se misturava com as calmas águas do lago e lembrou-se acima de tudo do beijo, do último beijo, misturado com o sabor férreo do seu sangue estava um doce trago a mel, lembrou-se do cheiro a alfazema e lembrou-se da escuridão que o envolveu.
As lembranças que tivera tido ao longo daqueles dois anos de coma e que julgava serem resultado de um qualquer estado pós vida fizeram sentido, as palavras murmuradas como se do fundo de um poço saíssem, os toques na sua mão e no seu rosto, o monótono apitar das máquinas que o prendiam por um fio à vida, estas últimas lembranças fizeram-no apertar-se ainda mais contra o peito dela...
De repente a monotonia do bip bip, transformou-se na cacofonia de um longo bip, a ele vieram vozes aflitas, sentiu-se afundar por fim no abismo que há muito o seduzia a deixar-se cair, pensou: finalmente a paz... De repente um puxão tirou-o de vez do lamaçal, acordou ofegante e deu um grito de liberdade, o tecto branco do quarto de hospital fê-lo semicerrar os olhos, a primeira coisa que sentiu foi um toque suave a seda na sua mão e um cheiro intenso a alfazema.
Vida!!!
Aquele nome pulsou na sua boca seca e deixou nele não uma nova cicatriz mas antes uma pequena tatuagem para sempre desenhada no seu corpo.
Finalmente Vida havia vindo resgatá-lo.

Bruno:Carvalho
2010

Comentários

Indy disse…
Intenso... como se nos encontrássemos lá... :)

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