IMPERFEITO

Aqui continuamos nós a sonhar a vida perfeita que não existe, aqui andamos nós, de mentira em mentira, de ilusão em ilusão, tentando em vão preencher o vazio com novos vazios, inconscientes de quem somos, do que queremos ser, ignorantes...
A vida passa friamente célere desprezando a nossa pouca ambição de viver.
Agarro-me à minha imperfeição porque assim sei que sou eu, olho-me no mesmo espelho partido porque sei que aquele rosto estilhaçado é o meu.
Não me conheço apesar de olhar no tal espelho, arrasto-me na multidão tentando ser normal, tento camuflar-me no sistema, só para fazer de conta que pertenço a alguma coisa.
Porque amamos? Do que nos vale?
Não passa tudo de um jogo de espelhos, luzes que mudam constantemente, num minuto julgamos amar uma pessoa, no outro apercebemos-nos que simplesmente estamos a tapar um vazio que nunca mais poderá ser tapado.
Foi mais um momento que passou e quando passa não existe caminho de retorno, fica apenas só mais uma impressão na nossa memória, um espinho cravado na nossa garganta que dói quando pronunciamos a palavra Amor...
Julgo-me fiel, quando a minha fidelidade está perdida lá longe no passado, na escuridão, amo uma memória, consciente de tudo isso apenas desejo a solidão. É um castigo, um castigo merecido para quem rasga assim a alma de uma pessoa...
E eu sou isto, um punhado de pó, um sinal ferrugento que não merece ser pintado de novo, um proscrito, infiel, egoísta, desmoronado, inquieto, nu... Vazio...
As minhas mentiras sufocam-me, torno-me receptáculo de dor, pois quero que ela apague qualquer recordação do amor, não quero! Não preciso! Que se afaste!
Que me deixe a carpir lágrimas daquilo que julgava ser mas que nunca poderei ser, que me deixe despido na frieza do desespero...
Pois a noite por aqui há muito que caiu, o sol não voltou a nascer, e os meus olhos habituaram-se à escuridão.
Que se afastem de mim os que ambicionam paz pois por aqui só encontraram guerra, uma guerra interna que me há-de consumir para sempre!
Parto.
Parto vazio como cheguei, amargo, velho, cansado...
Parto despojado de olhar, com a cicatriz de um beijo e uma alucinação de algo que alguns haviam chamado Amor, mas que eu apenas conheço por dor...

Bruno:Carvalho
2011


Comentários

Indy disse…
Obrigada pela atenção assídua ao Momentos e ao Caminho ;) E agradeço os comentários.. Sabe bem! :) Sabe bem saber que alguém lê e sente... :) Também passo aqui, sempre, e quero dizer-te que gosto muito, mesmo muito!! Tão envolvente.. tudo o que escreves! Continua, que continuarei a ler-te :)
***
Narcolepsia disse…
Não existe nada imperfeito ou perfeito na perspectiva global. As cicatrizes podem derivar de momentos de muita felicidade, ou pelo acto da sua busca. Existem sempre várias facetas numa questão, é preciso saber ver o bom. Se há dor, talvez seja por se ter tido a oportunidade de conhecer o amor :) e o ter deixado ir, ficando apenas a mágoa no seu lugar.

Mensagens populares deste blogue

RE(CANTOS)

A QUEDA