sábado, 19 de março de 2011

AMARELO

Viu-a ali, consumiu-a ali, ao longe, como se uma barreira invisível se tivesse erguido entre ambas. Um arrepio desceu-lhe pela espinha quando tocou ao de leve no seu braço esquerdo, tantas recordações... deuses, quantas memórias...
Baixou o olhar, não consegui olhar para aquele verde, aquele olhar de jade que se misturava no esmeralda do mar, tinha sido ali o primeiro beijo, ali mesmo, arrepiou-se de novo, um flash passou-lhe pela cabeça e deixou cair uma lágrima.
O seu cabelo rompia tímido sob o lenço amarelo que ela lhe tinha oferecido no último aniversário... Estava ali a sua metade, estava incompleta sempre tinha estado e agora sabia que estaria para sempre, não havia volta a dar, perdera a única razão de ser feliz, resignou-se mesmo quando os lábios dela ainda estavam colados no seus, quando os dedos dela ainda rasgavam lembranças de prazer na sua pele, fora livre, uma vez, uma vez apenas, demasiado risco, demasiada loucura para arrastar rio abaixo uma vida construída com tanto custo.
Desmoronou-se tudo, todas as suas crenças, tudo o que imaginava que era, afinal não se conhecia, não conhecia nem um porcento do seu corpo, só quando Beatriz a beijou pela primeira vez descobriu o quanto podia ser feliz, mas nada disso importava agora, estava ali, onde havia escolhido estar, olhou-a uma última vez antes de fechar o vidro do carro, enquanto o namorado entrava do carro e lhe dava um beijo que parecia de gelo no rosto, viu a sua vida esfumar-se, tão perto e agora para sempre longe, pôs o carro em andamento e passou por Beatriz que com o sorriso gracioso que aprendera a amar, beijava de novo com paixão um rosto diferente, não o seu, agora banhado por lágrimas de um arrependimento tão seu, um reconhecimento do que podia ter sido e nunca será, poderia viver assim?
Condenada a um desterro emocional saberia a resposta a isso no dia do seu nonagésimo aniversário quando fitou pela última vez o tecto frio do seu quarto de hospital, dos seus olhos correu uma última lágrima, colado no seu último suspiro planava Beatriz com o seu lenço amarelo que sorria sentada à beira mar...

Bruno:Carvalho
2011


1 comentário:

Ayl disse...

Amarelo...

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