terça-feira, 8 de março de 2011

FA(R)DO

Passeava de noite, admirava os cabos adormecidos que uniam os postes, as luzes brilhavam, uma ou outra ali perto, fundia, ele passava sempre ali, ali onde a noite não era mais que o seu nome.
Por entre o fumo do cigarro seguro por entre os dedos meio molhados pela humidade, dizia versos soltos, murmurados ao silêncio, no jardim conhecia cada flor pelo seu nome, deu-lhes um nome, uma face, um sabor, a cada uma delas diferentes no entanto tão semelhantes deu o sabor de um beijo.
Nem sempre a noite era benevolente, às vezes chovia, outras a geada cobria as superfícies húmidas, noutras a neve cobria o cascalho do caminho, mas nem sequer uma noite ele falhava.
Recordou-se que precisava daquilo para viver, precisava de dizer aqueles adeus vagos a quem passava, precisava murmurar sozinho, perdido em divagações em monólogos distorcidos, a mente já não era sua, tentava a todo o custo segurar a alma, depois de a perder nada mais restaria e nada mais valeria a pena.
Ele sabia que os cabos dormiam de noite, não como pessoas, mas sim como fantasmas alerta, por isso ele passeava apenas à noite, de dia a claustrofobia do barulho, o caos dos olhares de esguelha, o odor cadavérico dos corpos, tudo o enojava, queriam enterrá-lo vivo, por isso de dia ele dormia, uma duas horas apenas, nunca mais que isso, nunca se permitia fechar os olhos por muito tempo, poderia não voltar a abri-los.
Nesse par de horas tudo acontecia dentro de si, os seus gritos meio emudecidos pela multidão assustavam quem passava, o corpo contorcia-se num espasmo eterno, parecia lutar com o invisível e nos seus ouvidos, estrondos ribombavam, um após outro, acordava sempre ofegante, sempre a tremer, sempre sozinho.
Pandora a pequena cachorra que achara no lixo era a sua única companhia, naquelas horas de semi-sono, deitava-se quieta e alerta a olhá-lo, velava, vigiava sem saber o quê...
Sim os cabos dormiam, sim senhora, estava louco nunca tinha dúvidas disso, via-o nos olhos de quem passava, nos da Dona Hortilia sublinhados com rimel, nos no padre Ortêncio carregados de falsa compaixão disfarçada de nojo, nos do pequeno Saúl, que gozava com ele todos os dias, no entanto havia um par de olhos que nunca soube ler o que diziam, apesar da sua sapiência, da sua cultura, dos milhões de versos que escrevera e lera, não conseguia ler aquele olhar, era maior que ele, que alguma coisa viva, os olhos do mimo que se imobilizava no meio do jardim eram os seus únicos aliados, nele por vezes parecia reconhecer alguma solidariedade, algum entendimento, mas era algo fugaz, algo que passava com o piscar dos seus olhos.
E ali ficava todas as noites, órfão de sentido, refém de uma guerra que nunca mais terminaria dentro de si, as pessoas passavam por ele sem o ver, apenas mais um que não valia a pena sequer salvar, enquanto cambaleava de cansaço com Pandora nos seus braços, acordava de vez em vez sobressaltado pelo bater das moedas no chapéu cinzento do mimo.
Os seus olhos pareciam agora e finalmente emanar algo, brilho talvez, um sorriso aflorou no seu rosto, assistir ao nascimento de uma estátua seria o epitáfio da sua desdita vida, era o fado que cantavam ao longe ele porém só sentiu o fardo do esquecimento abater-se sobre si.
Sim os cabos dormiam, mas a morte chegava bem acordada.

Bruno:Carvalho
2011

2 comentários:

dyphia disse...

ola meu amigo!

Sempre com uma escrita brilhante e com um bom gosto musical magnifico.
já sentia saudade de te ler...

beijinhos desta amiga distante e nem sempre presente como devia

Narcolepsia disse...

Esta música é linda!

DON'T BOTHER

Don't mind me, just wandering around drawing circles in the air Don't mind me, nothingness is just a state of mind Don't bo...