segunda-feira, 14 de março de 2011

LUNAR

Malditos dias solarengos, se há-de sempre ser assim ao menos que não nos acenem com melancólicos dias de chuva, que raio de mau gosto, fazem-no como se burros nos tratássemos atrás das cenouras que neste caso são os tais dias de Inverno ou Outono.
Livra! Que nos deixem sossegados na noite eterna, que nos deixem sossegados à luz lunar, por mais pálida ou inconsequente que seja, deixem-nos carpir, chorar como fossemos feitos de lágrimas.
Se haverá para sempre sol e calor, que haja também noite, que nos lembre a chuva e o cheiro que ela deixa na terra seca.
Não podemos ser, dizem-nos ao ouvido, não podemos existir insistem, como se donos de tudo fossem, como se criadores da vida fossem, detesto-os, conspurcaram o mundo, o nosso mundo paralelo sustentado num ténue fio de perfume, o perfume dos versos, o aroma das cantorias.
Sim, podemos ser, nem que sejamos apenas a sombra do seu arrependimento, ou ruínas corroídas pelo tempo. Deixem-nos sonhar com dias de chuva, mesmo que nos convençam que são apenas mau tempo, tempo horrível, como a tia que passa todos os dias à frente da minha tasca e olha para dentro com desnorte e nojo.
Lá vai ela toda embaladinha naqueles vestidos rosa choque, unhas arranjadas e cabelo oxigenado, com as sandálias a batuque no passeio vai para por ali abaixo rumo à areia, para torrar ao sol e dizer no outro dia às amigas que tem um escaldão maior do que o delas.
Digo por vezes à rapaziada que merecemos ser filhos da noite, vagabundos meio ébrios pela poesia, pobres boémios perdidos nos sonhos da vida que nunca será mais que realidade, vivemos de ilusão e por amor à chuva, à liberdade e à paixão.
Chamam-nos loucos como se loucos fossemos, se a loucura se define por amar e querer amar cada vez mais e amar tudo como pertencente a nós próprios, então sim, somos loucos, mas o que chamar aos mil e um corpos panados de areia que passam horas debaixo de um sol escaldante? A loucura já não é de certo o que era...
Tudo muda digo por vezes aos rapazes a seguir ao porto da praxe, antes de mais uma fuga, uma evasão da prisão do que querem nos fazer acreditar que é, mas não é, nós sabemos e provamos através do luar que há muito mais do que nos pretendem mostrar.

Bruno:Carvalho
2011

1 comentário:

Indy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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