ESMERALDA

Vai e vem, vai e vem, as ondas despenham-se nos meus pés deixando neles um rasto cândido de espuma, perante a frescura da água os meus dedos enterram-se na areia, espasmos invadem o meu corpo deixando na pele o aroma salino do mar.
Deambulo no areal com o olhar fito algures no horizonte, na imensidade esmeralda daquele oceano tento vislumbrar algo impreciso, fecho o casaco à agrura do Inverno, apoderado pelos sonhos perdidos que vão e vêm nas ondas fico em silêncio, um minuto, uma hora, um tempo impreciso...
Viro as costas, o vento fustiga-me as costas como fizesse um pedido para não ir, volto ao passadiço, incerto do caminho a seguir, dali fito de novo ausente de mim o mar que se espraia por esses horizontes adentro, as gaivotas que flutuam na aragem, as nuvens que se fundem com a neblina, que deixam no meu cabelo gotas de cristal.
Absorvo firmemente a maresia como se quisesse preencher com ela o vazio em mim, abraço-me, o frio embala os meus passos rumo a sul, viajo sem rumo, sem esperança, sem medo, sem objectivo último. Viajo perdido porque jamais me encontrei, o túmulo que se aproxima, a morte que clama pela minha presença, caminho ausente do mundo como se tivesse sido engolido por uma indiferença atroz.
A incredulidade voraz de um afastamento precoce, flutuo no tempo, nas asas do vento, uma ave esguia que perdeu o sul, que perdeu para sempre o calor.
Fiz-me Inverno, para ocultar o inferno que grassa em mim, o conflito eterno o futuro incerto, fiz-me ausência para disfarçar a indiferença que me envolve, um rosto vago que vela do outro lado da janela.
O mar chama por mim com vozes fantasma na manhã, abraço-me, preciso sentir-me, como se dessa forma tivesse a certeza de ter existido, ao longe as ondas esmagam-se no cais, vagas de tudo e de nada, de amor, de morte, de tragédias de vidas colhidas na flor da idade.
E tivesse sido eu o tal aventureiro que se fez ao mar apenas com a sua bravura e uma esperança incontida, pudesse eu ter navegado para além do horizonte e naufragado no denso azul esmeralda.

Bruno:Carvalho
2011


Foto por: José Ramos

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