SANGUINE

Vê o sangue que me tinge as mãos. a mortalidade que me escapa entre os dedos, vê a majestade da noite, o luar que se esconde por entre as nuvens, uma lua de Inverno num sonho de Janeiro transformado em inferno.
Observa as sombras que me corrompem, como elas se insinuam no meu coração, as correntes que me prendem a um futuro longínquo, a tristeza inunda-me a cada segundo, rasga-me a pele, vira-me do avesso, das minhas entranhas sai o nosso amor, sanguíneo, visceral.
Na cadência da mudez das palavras jamais ditas, embalo-me na obscuridade para me descobrir de novo, preciso do silêncio, da noite, preciso de um retiro de mim, uma viagem espiritual, preciso de voltar a encontrar-me pois não sei onde me perdi...
E faço desde já uma vítima, o amor que nos uniu, o amor que nos transcendeu, sacrifico-o, para o meu bem principalmente para o teu bem. As pedras da caçada foram testemunhas de um adeus nunca ansiado mais por demais esperado.
Faltam-me as forças para pedir que me perdoes, peço-te que me apagues celeremente apesar de saber o quanto isso te será difícil.
É o sangue nas minhas mãos que me tinge de vergonha.
Dos meus lábios outrora saíram beijos, agora saem apenas palavras amargas ensopadas em raiva, temo-me, do que possa dizer, do que possa fazer, preciso de te deixar ir, pelo meu amor por ti, pelo nosso amor.
Faz-se silêncio, a hora não é de aplausos e risos, deito-me na desolação de mais uma noite, para mais um pesadelo, para mais uma insónia.
Pulsa em mim o Inverno, a escuridão clama a minha presença, vou aninhar-me no seu colo, na esperança de renascer de novo das cinzas mas consciente que elas misturadas com as tuas lágrimas poderão não passar de lama, onde ficarei atolado, onde criarei raízes, onde poderei por fim definhar, longe dos que amo, pois não merecem que os arraste para o abismo.
É tão breve o adeus que a tua voz ténue quase desaparece na imensidão deste quarto vazio que me envolve.

Bruno:Carvalho
2011

 

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