sábado, 9 de julho de 2011

NOCTURNO



Apartemos-nos, apartemos-nos pois não andamos mais que a fingir passos em frente, olhando de lado em espelhos baços, apartemos-nos pois aqui não mora o desassossego.
Desconjuctura-me, necessito de fontes mais precisas de prazer, a languidez do teu corpo já não oferece o tal abrigo merecido, deixa-me, prescindo do teu brilhante intelecto para me dedicar ao estudo das coisas mundanas.
Fingimento, é este o constrangimento que me faz neste momento avançar para a dissolução, prefiro dissolver-nos do que ver-me diluído na pasmaceira dos dias, não sou poeta, não faço rimas, não ouço a lua, faço da noite apenas uma passagem, como se fosse um túnel para reencontrar de novo o sol.
Fazes-me lembrar a noite, por isso desdenho continuar a alimentar a tua deslumbrante beleza lunar.
Passo a vida embriagado por palavras, perdido no emaranhado de abraços em que me teimas prender, quero ser livre, quero ser Ícaro e se necessário voar direito ao sol, se for esse o preço, fá-lo-ei, não duvides, a minha existência já meio amadurecida está para além de quaisquer dúvidas ou incertezas.
Ris-te, eu sei que te ris aí ao fundo no escuro, no teu nicho de prazer, brincas neste momento com as tuas mãos, sinto-o.
Riste porque sabes o destino de Ícaro, riste-te porque a noite volta sempre e eu como a maré, volto ao mar, ao teu mar.
Sorris pacientemente porque sabes que volto, permites-me estes assomos de rebeldia, jogas com tudo isto para aumentares o teu jogo de prazer, sei-o bem, demasiado bem para a minha própria sanidade.
Tens razão, sempre a maldita razão, volto ao teu conforto lunar, à tua poesia erótica, ao teu romantismo obscuro, volto porque sei-me feito da mesma massa embora iludido que poderia ser de outra, mais solar, mais brilhante.
Não nos apartemos mais então, que termine esta farsa, entrega-me o teu corpo para dele fazer vaso da minha paixão, isso, liberta-me dos sonhos pois deles não preciso, liberta-me da ilusão pois ela sempre me traiu, sim, é o teu corpo que desejo, os teus braços lunares e os teus olhos de inocência.
Julgava eu não ter em mim a poesia, a rima certa que compõe o soneto, enganado de novo pelo sufoco de querer ser diferente.
Amordaça-me com o teu fogo, prende-me aos grilhões e dá-me prazer, lê-me Sade pois a noite é ainda apenas uma criança inocente
Continuamos a olhar de lado em espelhos baços certos que deles nada vislumbramos, é melhor assim, dar passos falsos em frente do que morrer parado entre a noite e a madrugada.

Bruno:Carvalho
2011

(Este texto não está consoante o novo acordo autográfico por opção do autor)



1 comentário:

dyphia disse...

já não me lembro do quando te li pela ultima vez, mas foi bom voltar a ler-te e perceber que a tua escrita me envolve.

Como sempre um texto magnifico. Parabéns meu amigo

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