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A mostrar mensagens de Dezembro, 2011

MORTALHA

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Depositaram a mortalha sobre o defunto e deixaram-no ali só, inconsciente da sua morte. No meio da sua inconsciência uma luz entra por onde nunca deveria entrar, estranhamente o quarto continua escuro. Está frio. Não pode ser um quarto, o defunto lembra-se deles como quentes e acolhedores... Estende os braços, em cruz. Os dedos roçam levemente numa superfície terrosa, uma pedra ali, uma semente acolá... O defunto arrisca levantar a cabeça, a mortalha desliza-lhe pelo peito.  Existe de facto uma luz omnisciente, a primeira luz talvez, a primeira ferida que reabre no lado esquerdo do seu corpo moribundo. Ergue-se. Da tumba talvez... A hipótese quarto está há muito afastada. De pé a mortalha aninha-se sobre os seus pés. Olha para cima, a terra dá-lhe pelo peito. Apoia-se na cruz de ferro e sobe à superfície. A estranheza fria do gelo que cobre a relva sob os seus pés infiltra-se em todo o corpo. Está de pé. Os braços ainda abertos formam com o resto do corpo ainda uma cruz. Baixou-os. Era apena…