sábado, 17 de dezembro de 2011

MORTALHA

Depositaram a mortalha sobre o defunto e deixaram-no ali só, inconsciente da sua morte.
No meio da sua inconsciência uma luz entra por onde nunca deveria entrar, estranhamente o quarto continua escuro. Está frio. Não pode ser um quarto, o defunto lembra-se deles como quentes e acolhedores...
Estende os braços, em cruz. Os dedos roçam levemente numa superfície terrosa, uma pedra ali, uma semente acolá...
O defunto arrisca levantar a cabeça, a mortalha desliza-lhe pelo peito. 
Existe de facto uma luz omnisciente, a primeira luz talvez, a primeira ferida que reabre no lado esquerdo do seu corpo moribundo.
Ergue-se. Da tumba talvez...
A hipótese quarto está há muito afastada. De pé a mortalha aninha-se sobre os seus pés. Olha para cima, a terra dá-lhe pelo peito. Apoia-se na cruz de ferro e sobe à superfície.
A estranheza fria do gelo que cobre a relva sob os seus pés infiltra-se em todo o corpo. Está de pé. Os braços ainda abertos formam com o resto do corpo ainda uma cruz. Baixou-os. Era apenas uma posição incómoda...
À sua volta outros corpos despertam, se calhar aquilo era mesmo um quarto, frio, mas de qualquer forma um quarto.
A luz sempre ali, um pequeno raio que sai da fechadura da porta. Roda a maçaneta, empurra, dá passos, demasiados passos para quem está inconsciente da sua morte.
O defunto segue a sangrar do lado esquerdo pelo corredor, afinal de contas está apenas a viver mais um dia dia da sua morte. 
Uma vida de morte.
Uma primeira luz, uma última ferida...

3 comentários:

Araúja Kodomo disse...

Amei o texto, está fantástico *

Indy disse...

Sempre a mesma intensidade! :) Beijinhos

Narcolepsia disse...

Sorry...

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