terça-feira, 26 de novembro de 2013

O AMOR

          Um murmúrio no escuro, uma mão presa a outra, segura e frágil ao mesmo tempo, corpos a dançar num espaço exíguo, amantes certos que haverá mais alguma coisa para além desta existência vazia.
            Um olhar terno no berço de um beijo eterno, um abraço perene que teima em deixar marcas, o amor que se vive na pele, que se entranha na alma, a forma voraz pelo desejo, num mar de lençóis e suor, um misto de dor e prazer, ao mesmo tempo sagrado e profano, a heresia de ter o outro só para si num egoísmo saudável de nada mais querer, só querer amar.
            A fragilidade de uma devoção que se quer ao mesmo tempo racional e passional, a incerteza que advém de uma separação que se sabe capaz de acontecer, viver no fio da espada só para saciar a ânsia de ser feliz.
            Mas, às vezes perde-se tudo, o sangue gela-se nas veias, só queremos morrer, pois todo o sentido de uma existência incompleta e vazia assusta só de pensar quanto mais sentir, saber que se deu tudo por alguém e no fim nada mais há para conquistar, perde-se o encanto pelas coisas belas e o mundo rodeia-nos cinzento e insignificante, perdemos um pedaço da nossa alma, perdemos a coragem de acreditar, esvai-se a fé por algo, torna-se frio o nosso ego, só pensamos em odiar, em vomitar tudo o que de bom nasceu em nós e esperamos segundo a segundo por outro minuto de desprezo pela vida, pelos deuses, por nós e acima de tudo pelo outro.
            O medo da separação assusta, como um fantasma que nos assombra os sonhos, cada noite na solidão torna-se um tormento pois sabemos que o sol trará mais um dia sem amor, perde-se a esperança, essa esperança tão querida que nos impele para novas descobertas, que nos dá coragem para arriscar mesmo tendo a certeza que vamos perder.
            Mas, por vezes ela não acontece, então aí temos a sensação de imortalidade pois sabemos que no fim quando o beijo fatal da morte beijar os nossos lábios alguém estará a nosso lado, para um último olhar, uma última palavra, o final que todos ansiamos, um corpo ao lado do nosso preenchendo a solidão de um momento trágico que é a passagem desta vida para outra. E depois quando o espírito se solta da nossa velha carcaça procuramos outra, outro amor, outro caminho a percorrer, mas no nosso coração vai uma pequena marca, a lembrança de um beijo que se aprendeu a saborear, de um toque que aprendemos a reconhecer como fosse da nossa própria mão, fomos um, um seremos outra vez em espírito.
            Na batalha infernal do amor por vezes deixamos minar a nossa fidelidade pelo sentimento vil do ciúme, do orgulho e da mentira, por mais puros que tentamos ser somos humanos e logo fazemos erros, aí a força da confiança, da certeza que do outro lado está alguém que nos compreende faz sanar todas as complicações, pois esse estranho sentimento que é o amor e que não se explica sobrepõe-se a todas as manhas deste mundo cruel, a todas as armadilhas.
            Por vezes depois de uma separação pensamos que tudo mais acabou escondemos-nos por detrás de uma cortina de tristeza, como uma máscara, pensamos que não podemos mais amar, como resultado ficamos tão distraídos com a nossa miséria que não vemos que a felicidade não nos abandonou só deixou cair a máscara, e mostra-se noutro rosto, por vezes dizemos que está a custar passar, temos a certeza que seremos felizes com essa outra pessoa mas o medo ultrapassa-nos e ficamos retraídos com o medo de sofrer outra vez, mas viver não é sofrer? Como podemos deixar escapar essa possível felicidade só com o medo de sofrermos, e por vezes bem no sabemos que connosco também sofre a outra parte, um amor desfeito pelo medo, nesses momentos vence este mundo cruel e tantas vezes ele vence e com ele vence o desespero e a tristeza, a inquietação transforma-se em medo, verdadeiro medo de viver.
            Por vezes basta uma simples palavra, um passo no escuro, entrar na noite escura sem saber se será bom ou mau, só com a força de um amor que de certo irá florescer, temos de ter essa certeza pois só dessa forma viver tem sentido.
           
            Vivemos em suspensão, no sonho, vivemos nesses sonhos a lembrança, imaginamos o sabor de um beijo, de um toque de uma mão na nossa pele, um abraço no escuro que nos fará adormecer em paz e é de paz precisamos.


Bruno:Carvalho


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