sexta-feira, 13 de junho de 2014

PÂNTANO

É a tua vez de jogar.
Movimenta as peças no tabuleiro, refaz a estratégia.
Um novo jogo começa não necessariamente onde o outro terminou…
Não existe antídoto para uma vitória, dispostos no terreno somos meros reflexos jamais sonhados, nunca planeados, pensamentos destroçados ao sabor da vontade própria.
Do alto da nossa presunção pensamos que nos movemos confiantes, que aquele é o passo mais certo a dar a seguir ao outro anterior que nos pareceu algo dúbio.
E ficamos de alguma forma invadidos, o nosso corpo como território selvagem desbravado por invasores, descobridores da nossa natureza, nesse momento o amor fica ali, pairando como um fantasma esquecido no campo de batalha.
Um dado novo, uma nova constante entra na equação.
Estarrecidos por aquela nova revelação ficamos inconscientes de que todo aquele novo sentimento nasceu de facto da crueldade daquele sabor amargo que sentimos por vezes na boca e não de qualquer gesto altruísta.
Movemo-nos mais facilmente no pântano que se tornou a nossa insignificante vida, por isso aqui continuamos afundados, ignorantes que ali ao lado, à distância de um pequeno passo, corre um rio solto, em forma de sorriso, em forma de palavra atirada descontraidamente sem qualquer outro objectivo ou sentido a não ser o de expressar carinho.
Ali ficamos felizes por estarmos longe da corrente, sem sabermos que somos feitos de corrente, de tempestade, de mutabilidade.
Podemos ser um momento no tempo, uma carcaça com prazo de validade, mas o que nos preenche, o que somos de verdade, não tem validade, não é um momento no tempo mas todo o tempo.
E que chegue depressa o Inverno que os céus desçam em forma de tempestade, para que a lama endurecida pelo sol possa ser dissolvida e nos liberte, pois o jogo recomeça a cada derrota e com o cheiro da terra molhada nota-se já um suave aroma a vitória.

Bruno:Carvalho



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