sexta-feira, 29 de agosto de 2014

LUNA

Acordei com o miar dos gatos no telhado,
A noite ia ainda jovem,
A luz lunar infiltrava-se por entre os buracos dos estores,
E eu entre a vigília e o sono ancorava no esquecimento.

O teu corpo ao meu lado transpirava emoções
Dos meus lábios brotavam sabores diversos, fantasias suspiradas
Os amores soprados por quimeras perdidas
Embriagado pelo teu olhar, afoguei-me no teu sorriso.

Virei o corpo no mar de pétalas espalhadas nos lençóis
A luz das velas marejava o silêncio tranquilo
No copo o vinho tornou-se rubi,
Cor de sangue do fogo que nos consumia

Naquele abraço eterno alimentei as chamas
A nossa solidão, uma ferida curada pela noite
Da primeira luz derramada alimentei o prazer
Do primeiro sangue oferecido alimentei a desgraça

E quando ambos metal e carne se encontraram
Beijei os teus lábios e provei a morte
Rasguei o véu, abri o estore, deixei a lua entrar
Da luxúria do desejo desabrocharam cumplicidades

Amarrei a saudade à cama
Os gatos já não miavam
Luna havia partido

E ambos metal e carne suspiraram um último adeus.

Bruno:Carvalho


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

DE TI

Sempre gostei de ver as tuas fotos, talvez porque ao olhá-las assim tão ferverosamente achasse que pudesse sorver toda alegria dos teus sorrisos, como se ao tocá-las te tornasses mais real e estivesses tão perto que te pudesse abraçar.
                Confesso não ser fácil lidar com esta distância tão próxima mas ao mesmo tempo longa, como se a linha do canteiro de flores do jardim fosse tão grande como um abismo e que aos poucos se afastava. Pois é, não é nada fácil querer-te assim em mim e ao mesmo tempo perder-te desta maneira.
                Ao tempo o que é do tempo, embora o meu tempo tenhas sido tu, e os anos falam por si, como se a primeira luz da manhã fosse a vela ao lado da nossa cama, o pardal no beiral a música baixinha no escuro e a relva do quintal os nossos lençóis.
                Lembro-me de te querer como fogo que precisa de oxigénio para crescer, lembro-me de te amar como a mulher, a única mulher que alguma vez fez sentido na minha vida.
                O primeiro beijo é sempre o mais apetecido e aquele nosso naquele jardim à beira rio foi tão inocente quanto delicioso, é bom, quando do nada e sem qualquer expectativa surge o tudo e a plenitude. Sim, lembro-me do teu beijo.
                Lembro-me também das tuas palavras feitas de doçura tão fervente, palavras cândidas escritas em papel de seda, e desenhos como tatuagens que marcam a pele do poeta sonhador que sou eu.
                A esperança, ah essa desdita lembrança de a ter, quando a tenho, tenho-te, quando a perco definho lentamente no fio escarlate que corre nas minhas insónias.
                Noites mal dormidas entre sonhos teus e acordares de vazio, o teu corpo no meu num sonho febril e o meu acordar a abraçar o vazio.
                Confesso que para mim o tempo não passa e a eternidade nunca será demasiada para esperar-te, amar-te não me faz mais velho ou mais esquecido é algo que vive comigo há tantos anos…
                Pois é minha querida, como uma lembrança aquele coração envolto em rosas, uma marca no peito que sobrevive ao desânimo.
                Lembro-te ainda porque esquecida não estás, espero-te meu amor porque a ferida ainda transborda de sangue e a distância ainda não conseguiu cicatrizar o que a paixão provocou.

Bruno:Carvalho

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A LADRA DE SUSPIROS

Roupas rasgadas, corpos dançantes num quarto docemente iluminado pelas chamas trémulas de mil e uma velas. 
Um suspiro disfarçado de êxtase, o meu corpo colado ao teu, como se de um só te tratasse, lençóis a voar no espaço vazio.
Somo nós ali, eu embriagado pela tua beleza, tu ciente desse teu poder sobre mim, um feitiço, uma palavra e o meu corpo desfalece…
Lembro-me do mel, do mel a escorrer-te entre os seios, pela barriga, rodeando o umbigo e depois escorrendo mais abaixo onde eu sofregamente o apanho com a minha língua carente, tudo isto antes de desfalecer e a minha vontade se estilhaçar em mil e um pedaços.
Os teus cabelos de luar, varrem-me as palavras da boca, como se de repente ficasse mudo, preso no teu olhar, e o teu sorriso lá, tão teu, tão nosso.
Eu e tu, numa dança incessante de prazer, paixão contida durante anos finalmente libertada, e testemunhas, apenas as velas, os lençóis, as paredes e os anjos que velam os nossos corpos fundidos.
Suspiro, atrás de suspiro, sinto que mos roubastes todos, no entanto tantos ainda tenho para te dar, e beijos, e loucuras, e sôfrega paixão e inocente atracção.
Amanhece, um sol pálido de verão e deixas-me de novo, cansado, saciado, impotente… Adormeço, pois logo volta a noite e outro sonho febril me trará a minha doce ladra de suspiros incontidos.

Bruno:Carvalho 



DON'T BOTHER

Don't mind me, just wandering around drawing circles in the air Don't mind me, nothingness is just a state of mind Don't bo...