IMORTALIDADE

De dentro para fora, de dentro para fora, assim ia e vinha o desejo, a imortalidade diluída na vida e essa mesma vida diluía-se no tempo.
A definição de imortalidade nunca tinha sido tão aplicável como naquele momento, as areias moviam-se dentro da ampulheta talhando o vidro com a sua indefinível assinatura.
Ergui o copo a contra-luz, aprecio muito esse momento, aquele em que luz se despenha no rubi do vinho, ergui-o várias vezes, como se a areia não se estivesse a escapulir na ampulheta, o tempo escasseava, mas aquele ritual era maior que o próprio tempo.
Levei o copo aos lábios e antes de beber enchi os pulmões com o aroma do vinho, momento maravilhoso quando todos aqueles aromas que o meu olfacto treinado havia aprendido a conhecer entraram pelas narinas indo alojar-se no cérebro, mais uma memória impressa, para momentos futuros, afinal de contas moro na imortalidade, aquilo que faço torna-se naquilo que sou.
Bebi o primeiro gole, deixei o vinho circular na boca, por debaixo da língua, entre os dentes, antes de o deixar escorrer devagar pela garganta, conseguia separar todos os sabores, naquele dia também consegui separar o teu, ele insinuava-se algures, meio tímido mas mesmo assim reconhecível.
Ergui o copo na tua direcção, um brinde à minha honra. Afinal de contas aquele era um momento único, uma passagem, uma passagem para um outro qualquer lado, tu sorriste, estavas a adorar, estavas a adorar cada gole que dava naquele vintage, e mostravas o teu contentamento com aquele sorriso cínico que só muito tarde conheci.
A areia essa ia esvaindo-se dentro da ampulheta, a areia tinha esse dom, não dava para contar segundos, não dava para ver o tempo como se ele fosse corpóreo, a areia caia grão a grão mas sem precisão, como não sabia quanto tempo me restava continuei a apreciar o meu ritual, aquele ia viria a ser conhecido finalmente.
Acabei de beber o último gole quando na minha quase inconsciência te notei aproximar, assim seria, um beijo novamente como sinal de traição, não poderia estar mais orgulhoso, ensinara-te bem, o aluno vence o mestre, é o epílogo perfeito para um qualquer filme noir.
Agora via um novo mundo abrir-se no meu mundo, sem hinos, louvores ou glórias, apenas com o bater de uma porta, um copo de cristal a despedaçar-se no chão e um veneno disfarço por um beijo a mergulhar no vinho ingerido.
Imortalidade?

Não há nada que veneno misturado com paixão não consiga destruir.

Bruno:Carvalho

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