domingo, 31 de maio de 2015

LUA DE INVERNO

Olha lá no céu a lua que sorri
Por entre esta fria noite de Inverno
Limpa a escuridão do teu caminho
Apaga o cansaço do teu olhar.

Adormece no seu berço iluminado
Sonha com os anjos
Para que venham amparar o teu sono
Numa dança eterna de prazer.

Olha! Ela vela o teu leito
E nela verás os contornos do meu rosto
Que ele te ampare as lágrimas
Que ele te dê forças para continuar.

Bruno:Carvalho

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O Limpa - Palavras


Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:

a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papeis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

ÁLVARO MAGALHÃES
O Limpa-Palavras e Outros Poemas


segunda-feira, 25 de maio de 2015

O ANJO DE VERMELHO

Um fim de tarde norma do trabalho para casa, numa carruagem de metro apinhada de gente, quando te vi pela primeira e última vez.
                Vestias um casaco vermelho vivo, o teu cabelo era negro como a noite e eras linda, o teu olhar estava fixo num ponto longínquo na janela oposta ao lugar onde te sentavas, talvez fixasses a interminável fila de prédios, talvez fixasses um ponto da tua imaginação, talvez fixasses o nada… de qualquer modo sorrias, um singelo sorriso, formavas umas covinhas tão giras nas bochechas que fui incapaz de sorrir também.
                Peguei no caderno e comecei a desenhar-te, observava-te incapaz de desviar o olhar, num momento ou outro tive de o fazer pois por breve instantes os nossos olhares cruzaram-se e envergonhado baixei os meus disfarçando vergonha, mas logo os fixava de novo, eras linda, não de um tipo de beleza exuberante e vaidoso, mas uma beleza sóbria e simples, uma beleza que englobava tudo o que a rodeava.
                Desenhei a forma como colocavas o cabelo por trás da orelha, era adorável, a forma como ajeitavas os óculos de armação negra que emolduravam na perfeição os teus olhos castanho claros, era doce e bastante sensual, a certa altura apanhei-me a desenhar sem os olhos no papel.
                Naquele quadro bucólico eu era um desconhecido no meio de desconhecidos mas de um momento para o outro desejei ser o homem merecedor daquele sorriso, desejei ser quem o pudesse guardar e dormir com ele, beijar os lábios que o formava, tocar a face que o libertava de forma tão natural…
                Continuavas ali, tão inconsciente de tão incisiva observação, a minha estação aproximava-se e por isso terminei o desenho, levantei-me e ofereci-to, dei-lhe o título “A menina que um dia vi no metro”, sorriste-me uma última vez, nunca mais te vi…

Bruno:Carvalho

Maio 2015




Se Tu Viesses Ver-me...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 
A essa hora dos mágicos cansaços, 
Quando a noite de manso se avizinha, 
E me prendesses toda nos teus braços... 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 
A tua boca... o eco dos teus passos... 
O teu riso de fonte... os teus abraços... 
Os teus beijos... a tua mão na minha... 

Se tu viesses quando, linda e louca, 
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 
E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca... 
Quando os olhos se me cerram de desejo... 
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" 


sexta-feira, 22 de maio de 2015

DOÇURA

Da pureza, da beleza, da singela harmonia
a tua doce e quase imperceptível poesia
marcada ao de leve nos meus lábios
registada em fogo nos livros dos sábios.

Separados à nascença a inocência e a nostalgia
rasgado o véu entre a ciência e a magia
está a definição do que é e não é amor
do que é digno ou não da minha dor.

Na perspectiva de ser um momento
faço-me firme e feroz e ouso ser todo o tempo
riem-se os anjos da minha inocente bravura
conscientes no entanto de ser digno da tua doçura.

Bruno:Carvalho
Maio 2015


sexta-feira, 15 de maio de 2015

UM DESCONHECIDO

Não me conheces, não sabes porque te escrevo...
Mas descrevo-te, o teu sorriso contém mais mistérios que todos os contidos no Universo, é feito de eulogias cantadas e poesias declamadas, o teu sorriso é maior que o mundo, mais brilhante que as estrelas.
E porque o faço? Porque te escrevo?
Porque o teu sorriso está em tudo o que vejo, no sorriso de uma criança, na sabedoria de um ancião, na beleza de um desabrochar de uma flor, na limpidezz singela de um regato que corre montanha abaixo para se juntar ao mar num abraço ansiado.
Também o teu olhar me faz escrever-te, nele o meu reflexo, como se de um espelho se tratasse, nele sei quem sou, reconheço-me, eu tão sortudo de te poder ter nas minhas palavras, nos meus lábios, nos meus sonhos e fantasias.
E o teu corpo, um abrigo tão meigo, tão cheio de graça. O teu no meu, o amor a deslizar nas ondas invisiveis de um eterno romance. És a minha epopeia épica de sentidos.
És o norte, o sul, o este e oeste, bussola dourada que me guia sempre pelo caminho certo, sem vacilar, sem olhar para trás, perco o medo de cair, de me perder na escuridão da noite, sem esperança, sem perspectiva.
És o tempo, todo o meu tempo. O meu paraíso perdido finalmente desbravado, descoberto, infinito, a maravilha intemporal, uma viagem espiritual.
És a minha alma e não me conheces, não sabes quem sou e o que sinto.
Imagina se soubesses que sou teu desde o inicio dos tempos, imagina tudo o que poderia ter sido e tudo o que poderá ser.
Escrevo-te, descrevendo-te. Sorriso, alma e corpo, tudo em mim, tudo em ti.
As minhas fragilidades desconjuradas, fragmentadas como se eu fosse um puzzle desde sempre incompleto, com uma peça perdida com a forma do teu amor, a única peça que alguma vez me completará.
QWue nos conheçamos um dia, que eu consiga finalmente através de ti conhecer-me também.

Bruno:Carvalho
Maio de 2015

quarta-feira, 13 de maio de 2015

É Preciso Aprender a Amar


Que se passa para nós no domínio musical? Devemos em primeiro lugaraprender a ouvir um motivo, uma ária, de uma maneira geral, a percebê-lo, a distingui-lo, a limitá-lo e isolá-lo na sua vida própria; devemos em seguida fazer um esforço de boa vontade — para o suportar, mau-grado a sua novidade — para admitir o seu aspecto, a sua expressão fisionómica — e de caridade — para tolerar a sua estranheza; chega enfim o momento em que já estamos afeitos, em que o esperamos, em que pressentimos que nos faltaria se não viesse; a partir de então continua sem cessar a exercer sobre nós a sua pressão e o seu encanto e, entretanto, tornamo-nos os seus humildes adoradores, os seus fiéis encantados que não pedem mais nada ao mundo, senão ele, ainda ele, sempre ele. 

Não sucede assim só com a música: foi da mesma maneira que aprendemos a amar tudo o que amamos. A nossa boa vontade, a nossa paciência, a nossa equanimidade, a nossa suavidade com as coisas que nos são novas acabam sempre por ser pagas, porque as coisas, pouco a pouco, se despojam para nós do seu véu e apresentam-se a nossos olhos como indizíveis belezas: é o agradecimento da nossa hospitalidade. Quem se ama a si próprio aprende a fazê-lo seguindo um caminho idêntico: existe apenas esse. O amor também deve ser aprendido. 

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência" 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

REI DO NADA

Sou rei dos impossíveis, das meias verdades, das obscuridades, da falta de esperança e do medo. 
Sou a imagem sem reflexo no espelho, a paz descarnada, o caos dentro da tempestade.
Sou quem pensar ver tudo, mas de todos o mais cego, sou o mendigo das portas fechadas, o salteador das janelas partidas.
Sou o declamador voraz de despedidas ausentes, acenos de adeus perdidos ao fim da tarde, sou o eclipse, aquele que no sol vê apenas escuridão.
Sou a inconsequência, o desterro e a desesperança. 
Sou o espantalho esquecido no meio da seara, a neve fria de um Inverno eterno...
Sou a probabilidade certa de nada acontecer, sou vazio, todo o nada reunido num coração apenas, rasgado e gelado.
Sou a perenidade da dor e a descrença do amor, a serpente que trouxe a tentação, o rei da perdição.
Sou o rancor, a raiva o ódio e a certeza da perdição, sou a luxuria dos dias inacabados, o poeta, o pintor e o pêndulo.
Sou a vida disfarçada de morte...
Sou tudo isto mas bem no fundo nada sou.

Bruno:Carvalho
Maio de 2015


domingo, 10 de maio de 2015

EM TI

No que penso eu?
Quando deitado ao teu lado e percorro gentilmente as curvas do teu corpo, penso o quanto sou feliz e sortudo por te ter.
Quando estou sozinho, penso o quão incompleto estou, porque estás longe, porque a distância dói tanto.
Quando sonho, sonho-te, inteira, completas-me como nunca ninguém mais o fez.
Quando choro, olhos as estrelas e penso no quanto elas valem para mim, estás nelas e como com o céu encoberto sei que estão lá, também na minha vida quando estou mais triste sei que estás nela.
No que penso eu, quando te digo e te escrevo, quando te descrevo nestas palavras que parecem tão pequenas e insignificantes?
Penso que estás algures a lê-las e tenho a certeza que nada disto pode ser apenas uma ilusão ou um sonho distante...
Só penso em ti, sou te quero a ti, só por ti espero, só a ti consinto que me levantes da letargia, que deixo que tenha a coragem de encurtar distâncias e ansiar encontros.
Só sei que quando finalmente te tiver frente a frente será impossível conter toda a paixão que transborda do meu coração.
Em quem penso eu?
Em ti.
Raios de luz, noite e dia, sol e lua, céu e estrelas, és-me tanto que quase não é suficiente.


Bruno:Carvalho
Maio 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Como Te Amo

Como te amo? Não sei de quantos modos vários 

Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos; 

Amo-te com o fervor dos meus sentidos gastos; 
Amo-te com o fervor dos meus preitos diários. 


É puro o meu amor, como os puros sacrários; 
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos; 
É grande como os mares altisonos e vastos; 
É suave como o odor de lírios solitários. 



Amor que rompe enfim os laços crus do Ser; 
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura; 
Um amor tão leal que aumenta no sofrer; 



Amor de tal feição que se na vida escura 
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver, 
Muito maior será na paz da sepultura! 



Fernando Pessoa

terça-feira, 5 de maio de 2015

ELA

Ele viu-a ali.
Trocaram olhares, trocaram sonhos, trocaram sentimentos. Sentimentos que só por si sós não necessitam de palavras, ele viu-a ali parada na meia-luz daquele entardecer, a lua cheia levantava-se na linha do horizonte.
Ele afundou-se naquele profundo olhar e enquanto se deixava enfeitiçar a paz invadiu o seu corpo.
O sentimento de antecipação crescia, as mãos suavam, o corpo tremia de excitação, tudo o que necessitava era de um beijo, um só beijo para curar toda aquela ânsia, todo aquele querer.
O tempo parou quando a mão dela tocou a sua face, um novo mundo eclodiu da paixão libertada, quando os seus lábios tocaram os dele aquele abraço tornou-se dança, uma dança eterna num eterno salão de estrelas.
As palavras saiam abafadas por risos de felicidade, os suspiros implodiam conscientes do prazer, quando finalmente os seus corpos afastaram-se e de novo os olhares cruzaram-se, nenhum deles se questionou quem era aquele estranho à sua frente, porque aquele sentimento era a prova que sempre se haviam conhecido, quando ela sorriu ele ternamente levou os seus lábios ao ouvido dela e num suave murmúrio sussurrou:

"Por onde tens andado?"

Bruno:Carvalho



domingo, 3 de maio de 2015

UNFORGIVEN

Always unforgiven...


“Death Of Love”

Can you feel it?
It’s the righteous death of love
I burn my eyes for your demise
Your soul still lingers, still dwells in this place

Can you feel me?
It’s the bitterness of solitude
I decipher riddles to hold back oblivion
Your body still anchors my heart

Can you taste freedom?
Your wings unfurl in the midnight sky
They call you an angel, I call you disgrace
I foreshadow fire, I burn within

Can you see it?
Bleakness comes in these dreadful hours
Sorrow disguises my cold embrace
I raise my mask, I long to be forgotten

Applause, in stillness
Love is dying

Bruno:Carvalho


sexta-feira, 1 de maio de 2015

...


It's always raining in my head

It's always cold in my bed
It's the absence of  hope

It's the noose in the edge of the rope...

B:C


TREMORES

Andava por ali distraído como se o que devia sentir não coubesse numa palavra só. Deambulava na areia branca com o oceano a lamber-me os pés, como se estivesse ciente do meu dilema.
                A chuva miudinha por seu lado mergulhava gentil na minha cabeça, era uma boa sensação, como se toda a água do mundo me pudesse lavar das dúvidas e da incerteza do que fazer e dizer.
                Perdi-me nas horas, contigo no pensamento o tempo passava depressa, contigo em mim, lado a lado num abraço terno o tempo não passava de todo. Sentei-me na areia molhada de costas para a terra e olhar fixo do horizonte marinho, entrei em meditação profunda na esperança de me encontrar algures dentro de mim.
                Inesperadamente veio o primeiro tremor, a lembrança do teu beijo, depois um segundo, o teu olhar no meu, um terceiro, os nossos corpos entrelaçados, depois vieram tantos que perdi a conta e dei por mim a tremer descontroladamente, cabeça repousada na terra, lágrimas misturadas com a maresia e os meus braços a segurar o vazio.
                Foi a sensação mais agonizante que alguma vez tinha sentido, toda a sensação de ser incompleto mesmo que me tenha de facto encontrado inteiro dentro de mim, todo peso da tua ausência e da minha eternidade. Só, despido, moribundo, entregue às agruras dos elementos e à noite escura que se imiscuía devagar no que me rodeava e em todo o meu ser.
                Tremia, de frio, de medo, de saudade, de perda e desconsolo.
                Acordei já noite escura de um sonho febril, noutra parte do areal, levado pelas marés, forcei-me a levantar, dar uns passos rumo a casa, à mesma que antes era cheia de riso, aroma, sabor e harmonia teus, agora vazia, abandonada por tudo o que era bom e preenchida por vozes e fantasmas passados.
                Não me dei ao trabalho de me despir, mesmo que a roupa molhada me estivesse a congelar os ossos, não fazia diferença, o meu coração jazia já frio, abandonado de sensações ou emoções, envolto num Inverno passado mas sempre presente.
                Acordei de manhã como se tivesse num sonho dentro de outro, qual o sentido de tudo aquilo? A cama estava inundada de penas e pétalas de rosas murchas, o cheiro era uma mistura de prazer e dor.
                Levantei-me, saí, corri pela areia, desvairado, com a loucura no olhar e a mágoa no coração, tropecei e mergulhei nas ondas, pedi-lhes que me levassem, que o vento me libertasse finalmente, que a gaivota comesse os meus olhos pois não queria ver mais nada, mais ninguém, ao não ser tu e tu estavas tão longe agora…
As memórias de tempos alegres, risos e beijos incontidos entravam e saiam da minha cabeça, como troçando de mim, como se os deuses achassem que não tinha sofrido já o bastante.
Não me lembro de mais nada enquanto ser corpóreo e humano, apenas me vi do alto flutuando ao sabor das ondas, de olhar vazio fixo do céu cinzento, tinha porém o sabor acre a sal e sangue na boca.
                Sob a minha forma de espírito perdido, vi uma última coisa, tu a saltares na água e a abraçares o meu corpo sem vida, era tarde demais, o destino vinha resgatar-me mais uma vez, até um dia meu amor, pensei eu, na minha última réstia de humanidade.


Bruno:Carvalho
Maio 2015




EXORCISMO

Exorciza os demónios da minha alma Os fantasmas inumanos que consomem a minha carne Liberta-me, perdoa-me. Exorciza o meu corpo com...