O ANJO DE VERMELHO

Um fim de tarde norma do trabalho para casa, numa carruagem de metro apinhada de gente, quando te vi pela primeira e última vez.
                Vestias um casaco vermelho vivo, o teu cabelo era negro como a noite e eras linda, o teu olhar estava fixo num ponto longínquo na janela oposta ao lugar onde te sentavas, talvez fixasses a interminável fila de prédios, talvez fixasses um ponto da tua imaginação, talvez fixasses o nada… de qualquer modo sorrias, um singelo sorriso, formavas umas covinhas tão giras nas bochechas que fui incapaz de sorrir também.
                Peguei no caderno e comecei a desenhar-te, observava-te incapaz de desviar o olhar, num momento ou outro tive de o fazer pois por breve instantes os nossos olhares cruzaram-se e envergonhado baixei os meus disfarçando vergonha, mas logo os fixava de novo, eras linda, não de um tipo de beleza exuberante e vaidoso, mas uma beleza sóbria e simples, uma beleza que englobava tudo o que a rodeava.
                Desenhei a forma como colocavas o cabelo por trás da orelha, era adorável, a forma como ajeitavas os óculos de armação negra que emolduravam na perfeição os teus olhos castanho claros, era doce e bastante sensual, a certa altura apanhei-me a desenhar sem os olhos no papel.
                Naquele quadro bucólico eu era um desconhecido no meio de desconhecidos mas de um momento para o outro desejei ser o homem merecedor daquele sorriso, desejei ser quem o pudesse guardar e dormir com ele, beijar os lábios que o formava, tocar a face que o libertava de forma tão natural…
                Continuavas ali, tão inconsciente de tão incisiva observação, a minha estação aproximava-se e por isso terminei o desenho, levantei-me e ofereci-to, dei-lhe o título “A menina que um dia vi no metro”, sorriste-me uma última vez, nunca mais te vi…

Bruno:Carvalho

Maio 2015




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