TREMORES

Andava por ali distraído como se o que devia sentir não coubesse numa palavra só. Deambulava na areia branca com o oceano a lamber-me os pés, como se estivesse ciente do meu dilema.
                A chuva miudinha por seu lado mergulhava gentil na minha cabeça, era uma boa sensação, como se toda a água do mundo me pudesse lavar das dúvidas e da incerteza do que fazer e dizer.
                Perdi-me nas horas, contigo no pensamento o tempo passava depressa, contigo em mim, lado a lado num abraço terno o tempo não passava de todo. Sentei-me na areia molhada de costas para a terra e olhar fixo do horizonte marinho, entrei em meditação profunda na esperança de me encontrar algures dentro de mim.
                Inesperadamente veio o primeiro tremor, a lembrança do teu beijo, depois um segundo, o teu olhar no meu, um terceiro, os nossos corpos entrelaçados, depois vieram tantos que perdi a conta e dei por mim a tremer descontroladamente, cabeça repousada na terra, lágrimas misturadas com a maresia e os meus braços a segurar o vazio.
                Foi a sensação mais agonizante que alguma vez tinha sentido, toda a sensação de ser incompleto mesmo que me tenha de facto encontrado inteiro dentro de mim, todo peso da tua ausência e da minha eternidade. Só, despido, moribundo, entregue às agruras dos elementos e à noite escura que se imiscuía devagar no que me rodeava e em todo o meu ser.
                Tremia, de frio, de medo, de saudade, de perda e desconsolo.
                Acordei já noite escura de um sonho febril, noutra parte do areal, levado pelas marés, forcei-me a levantar, dar uns passos rumo a casa, à mesma que antes era cheia de riso, aroma, sabor e harmonia teus, agora vazia, abandonada por tudo o que era bom e preenchida por vozes e fantasmas passados.
                Não me dei ao trabalho de me despir, mesmo que a roupa molhada me estivesse a congelar os ossos, não fazia diferença, o meu coração jazia já frio, abandonado de sensações ou emoções, envolto num Inverno passado mas sempre presente.
                Acordei de manhã como se tivesse num sonho dentro de outro, qual o sentido de tudo aquilo? A cama estava inundada de penas e pétalas de rosas murchas, o cheiro era uma mistura de prazer e dor.
                Levantei-me, saí, corri pela areia, desvairado, com a loucura no olhar e a mágoa no coração, tropecei e mergulhei nas ondas, pedi-lhes que me levassem, que o vento me libertasse finalmente, que a gaivota comesse os meus olhos pois não queria ver mais nada, mais ninguém, ao não ser tu e tu estavas tão longe agora…
As memórias de tempos alegres, risos e beijos incontidos entravam e saiam da minha cabeça, como troçando de mim, como se os deuses achassem que não tinha sofrido já o bastante.
Não me lembro de mais nada enquanto ser corpóreo e humano, apenas me vi do alto flutuando ao sabor das ondas, de olhar vazio fixo do céu cinzento, tinha porém o sabor acre a sal e sangue na boca.
                Sob a minha forma de espírito perdido, vi uma última coisa, tu a saltares na água e a abraçares o meu corpo sem vida, era tarde demais, o destino vinha resgatar-me mais uma vez, até um dia meu amor, pensei eu, na minha última réstia de humanidade.


Bruno:Carvalho
Maio 2015




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