quarta-feira, 14 de novembro de 2018

SILÊNCIOS

O som do silêncio é uma bênção, quando te acobardas perante uma verdade absoluta. Quando contornas uma situação ignorando o facto que estás metida nela até ao pescoço.
Um mecanismo de autodefesa porque é demasiado difícil enfrentar a constatação que de nada és inocente e que é muito mais fácil olhar para o lado e para segurança ao invés de encarares o abismo.
Continuas a fingir que não é nada contigo, quando os pesadelos há semanas não te deixam dormir...

Cobres-te de um manto de inocência, de olhos fechados vendo o mundo desmoronar-se... Muito mais fácil esquecer do que lembrar que de facto sentes algo.

Mesmo que esse algo, seja indiferença, culpa ou raiva.

Custa-te assimilar o peso de cada palavra, como cada um pesasse uma tonelada, custa-te andar, sabes bem o porquê mas continuas de tornozelos sangrentos arrastando o peso morto do teu corpo desfeito.
Difícil perder o halo de pureza quando de manhã olhando o espelho já não te reconheces, sorris, mas nada dele transpira alegria.

E enterras as memórias como se de memórias se tratassem, quando no fundo são feridas frescas recentemente abertas.


Bruno:Carvalho

2018

FRAGMENTOS

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A BELEZA DO FIM

                              ”A beleza existe onde menos se espera”.

        Abri a porta do quarto movido por uma esperança e fui descendo os degraus, um a um, afundado em pensamentos, consciente de emoções e incertezas.
        Quando me sentei à mesa, olhei para a minha mãe, do outro lado, sem, na verdade, a ver. Simplesmente, não a reconheci. As mãos torciam-se de modo diferente, o pescoço rangia de forma que o seu olhar dispersava-se por todos os pontos mortos da sala, todos os pontos, excepto o ponto nevrálgico do meu olhar ausente. A comida entrava-me na boca de modo automático, sem sabor, sem gosto. Não tirava particular prazer em enfardar hidratos de carbono e carnes despojadas de vida. Na sala de jantar difundia-se aquele cheiro adocicado a flores.
A obsessão da minha mãe por rosas enjoava-me profundamente e era vê-las por ali espalhadas, manchas difusas, vermelhas, amarelas, azuis, brancas, uma paleta multicolor e que contrastava com o ambiente cinzento e frio daquela sala sem fim.
        “Só as rosas me compreendem”, costumava dizer a minha mãe e eu questionava-me se a loucura era sua ou minha e se não passava dum desfasamento da realidade!
        Levantei-me em silêncio, nenhuma palavra era necessária, nunca foi e nem vai ser. O olhar sereno de minha mãe fixava-se nas suas preciosas rosas. É verdade,”a beleza não está no objecto, mas no olhar de quem o contempla.” Quem diria que alguém poderia descobrir beleza naquele cenário pós apocalíptico de um ambiente familiar.
        Saí para a noite O ar frio provocou-me um estado eufórico de êxtase. Abri a camisa e deixei a noite possuir-me. Caminhava no vazio, nas alamedas invadidas pelo silêncio. Também procurava a beleza, aquela beleza ostentada por um mundo invisível. Debaixo dos meus pés a folhas retorcidas pelo Outono estalavam numa melodia cacofónica de estalidos e crepitações nervosas. Rolei pela noite, lembrei-me das rosas da minha mãe, lembrei-me do seu estado catártico, da sua não existência num mundo físico e visível, questionei-me por ser tão diferente dela, apesar de ser a beleza que nos movia a ambos.
        Parei à beira rio. A névoa desprendia-se da superfície límpida daquele imenso espelho fantasmagórico. A minha respiração embaciava o olhar. Através do silêncio nocturno vieram vozes alegres, gritos de uma beleza maior e deixei-me guiar pela harmonia dos sons pelos suspiros incontidos. Deixei-me ir, certo de que encontraria a beleza perdida.
        Mais à frente, senti de novo, o cheiro a rosas. Senti os seus espinhos na minha mão, senti uma pequena torrente morna. Levei-a à boca e, o sabor férreo provocou em mim uma revolução interior. Senti-me crescer, senti-me maior que o ambiente que me rodeava. Tudo parecia, agora, mais brilhante e, na opacidade, descobri formas luminosas que se materializavam, percepções que começavam a fazer sentido. Rumei a uma dessas formas, agarrei uma das rosas e desfolhei-a. Aí vislumbrei, na escuridão, uma nova imagem…
As suas formas desapareciam e caíam de novo na noite. As vozes alegres tornaram-se gritos de alegria, o perfume das rosas misturava-se com a excitação que nascia em mim. Senti umas mãos que forçavam os meus ombros a dobrar, a descer à realidade, ao silêncio.
As cores das rosas misturavam-se naquele meu quadro cinzento. Cortei de novo o ar à minha frente, ouvi um ruído, senti-o no mais profundo do meu ser e, dava-me, naquele momento, a prova final da beleza.
Apercebi-me, então, que, afinal, a beleza era ainda mais misteriosa e a última coisa que ouvi foram as folhas caindo na calçada… Depois disso, só um silêncio de paz sem fim!

Bruno:Carvalho

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

E TUDO O QUE PODERIA TER SIDO


E tudo o que poderia ter sido
E não foi…
Na ponta dos meus dedos
Impressões digitais impressas no papel
Lágrimas tingidas num lençol de emoções
E tudo o que poderia ter sido
E eu não quis que fosse
Todas as palavras consentidas
Todos os suspiros feridos na dança daquele amor

E tudo o que poderia ter sido
Se tivesse sonhado, se tivesse querido ser mais…
Do que uma miragem de mim
Um reflexo opaco, uma marca na parede
Amarelada pelo medo, descolorada pelo desespero
E tudo o que poderia ter sido
Se tivesse dito o que me oprimia
Todo o meu mal escarnecido e tingido
De formas subtis de ilusão
De gestos arrependidos apagados no papel

E tudo o que poderia ter sido
Se o amor não fosse tão fugidio
Tão cheio de curvas e encruzilhadas
Na ponta dos meus dedos
Cicatrizes antigas, memórias sufocadas
E tudo o que poderia ter sido
Para ti, meu amor
Para mim a minha dor infinita
Cruenta e desolada
Num triste dia de Inverno
E tudo o que poderia ter sido…

Bruno:Carvalho

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

WHISPERS


Lord, I’m such in a dark place now…
Can hear dreadful whispers around me
God make them stop, I feel my sanity slipping through my fingers
Don’t know where they come from
All around me faceless men with bloody hands
Please make them stop…

I forsaken my demons, is this my punishment?
So much pain, the air feels eirie and damp
A sealed tomb, a open casket, the starless sky

My darkest hour, can’t see through the mist
It’s like light has vanished to outer worlds
Strings of fine silver hold my arms up high
God make them stop…

Bruno:Carvalho
Setembro 2018

terça-feira, 28 de agosto de 2018

CAOS


Alimentados pelos caos que nos define
Caminhamos perdidos arrependidos das incertezas causadas
Arrastamos pelo sangrento chão os despojos de uma escuridão maior
Incapazes de ver a luz que nos poderia salvar.

Somos filhos da noite e com ela comungamos o mesmo espírito
Somos filhos rebeldes de um deus ausente, incertos da nossa verdadeira natureza
Somos seres inconscientes da força eterna que carregamos
Somos tudo num nada, arrepiados pela beleza da lua, tornamos-nos unos

Uma só terra, unos com a força de mil e um tremores
Um só céu, unos com a beleza que nos arrebata
Um só mar, unos com as ondas e a infinidade das profundezas
Um só fogo, unos com o Inferno que nos atraí tão subtilmente.

Somos almas primordiais,
Forjadas pelas vicissitudes elementares do tempo esquecido
Somos espectros
Reflexos de mil espelhos partidos
Somos morte enquanto a vida se queda esquecida algures
Num futuro incerto, num passado esquecido, num presente caótico.

Bruno:Carvalho
2018

sábado, 18 de agosto de 2018

LUNA

Acordei com o miar dos gatos no telhado,
A noite ia ainda jovem, 
A luz lunar infiltrava-se por entre os buracos dos estores, 
E eu entre a vigília e o sono ancorava no esquecimento.

O teu corpo ao meu lado transpirava emoções
Dos meus lábios brotavam sabores diversos, fantasias suspiradas
Os amores soprados por quimeras perdidas
Embriagado pelo teu olhar, afoguei-me no teu sorriso.

Virei o corpo no mar de pétalas espalhadas nos lençóis
A luz das velas marejava o silêncio tranquilo
No copo o vinho tornou-se rubi, 
Cor de sangue do fogo que nos consumia

Naquele abraço eterno alimentei as chamas
A nossa solidão, uma ferida curada pela noite
Da primeira luz derramada alimentei o prazer
Do primeiro sangue oferecido alimentei a desgraça

E quando ambos metal e carne se encontraram
Beijei os teus lábios e provei a morte
Rasguei o véu, abri o estore, deixei a lua entrar
Da luxúria do desejo desabrocharam cumplicidades

Amarrei a saudade à cama
Os gatos já não miavam
Luna havia partido
E ambos metal e carne suspiraram um último adeus.

Bruno:Carvalho

SILÊNCIOS

O som do silêncio é uma bênção, quando te acobardas perante uma verdade absoluta. Quando contornas uma situação ignorando o facto que estás...